Crivella condena Rio das Pedras ao inferno da remoção e pede para o povo orar.

04 de outubro de 2017 10h38

Prefeito impõe projeto megalomaníaco para vender Rio das Pedras para empreiteiros, população local se revolta, e Crivella, em resposta aos moradores, pede que o povo ore. Segunda maior favela do Rio pode ser palco da maior tragédia de remoções que a cidade já viveu.

População de Rio das Pedras está muito unida e mobilizada para impedir que Crivella destrua o bairro.

“Diga ao povo para orar”

Era quinta-feira, 21 de setembro. Depois de quase duas horas de reunião, Lorena Carvalho e mais 14 moradores de Rio das Pedras estavam aflitos, sentados em volta da imensa mesa de reuniões do gabinete do prefeito Marcelo Crivella, no centro do Rio. Os moradores, quase todos nascidos e criados na comunidade, quase todos de ascendência nordestina, já haviam tentado de todas as formas fazer com que o prefeito desistisse da ideia de destruir Rio das Pedras para reconstruir, no mesmo local, um novo bairro, “vertical”, entupido de blocos de edifícios. Já haviam tentado de todas as formas fazer com o que o prefeito desistisse da ideia de remover cerca de 100 mil pessoas, toda população total estimada do bairro.

Indignada, a comissão de moradores de Rio das Pedras gravou um vídeo ao final da reunião.

Crivella se mostrava irredutível. Já havia falado por quase uma hora, exibido projeções com dados falsos e insistia em se lançar no que chama de um “projeto piloto” para favelas do Rio, uma experiência absolutamente inédita para a cidade. Já havia usado suas referências bíblicas para dizer que Jesus não recomendava construir sobre a areia (tipo de terreno mais comum em Rio das Pedras), mas sim sobre a rocha e que, também por isso, iria fazer estaqueamento em toda a comunidade. A reunião estava quase no fim quando Lorena travou o último diálogo com o prefeito, bispo “licenciado” da Igreja Universal do Reino de Deus.

– Seu Prefeito, e qual recado eu levo para o povo? Porque eu preciso sair daqui com uma resposta. Qual o recado?

Diga ao povo para orar.

 

 

Infelizmente, a bizarra resposta do prefeito não expõe apenas mais um caso de absoluta confusão entre o religioso e o gestor. Ainda mais grave, a resposta de Crivella demonstra um prefeito interesseiro, preocupadíssimo em saciar o voraz apetite dos empreiteiros e nem aí para o que implora a população da cidade que ele prometeu cuidar. 

Minutos depois, ainda na sede da Prefeitura, Lorena e seus vizinhos transmitiram um vídeo ao vivo no Facebook. Em uma frase, ela resumiu o conflito: “O prefeito tá firme, mas estamos mais firmes do que ele”. 

A TRAGÉDIA DESENHADA

Todo mundo sabe que não se trata de um desastre novo. Prefeitos do Rio de Janeiro removem comunidades pobres de áreas valorizadas desde o início do século 20. O novo capítulo deste martírio é a imensa comunidade de Rio das Pedras, a segunda maior favela do Rio, quase uma cidade à parte entre o Itanhangá, o Anil e a Barra da Tijuca, na zona oeste. Em um projeto cruel, sem precedentes, o prefeito Marcelo Crivella dedica-se a remover cerca de 100 mil pessoas, casas e lojas, igrejas e praças, para construir o bizarro número de 35 mil apartamentos em quase 100 blocos de prédios de 12 andares cada.

O projeto serve perfeitamente para alguns interesses imobiliários: seja para a construção de um novo imenso bairro que ainda contaria com shoppings, estacionamentos, praças e corredores de BRT, seja para “limpar” a pobreza de uma área cada vez mais valorizada da cidade. Rio das Pedras é vizinha da riquíssima Península, região onde mora o próprio Marcelo Crivella. O prefeito justifica que se trata de um “projeto piloto” de verticalização das favelas, focado na melhoria da urbanização, do saneamento da comunidade, do transporte e até mesmo do serviço de internet.

Segundo o plano, depois de prontos, os apartamentos serão negociados com a própria população de Rio das Pedras através do programa “Minha Casa, Minha Vida”. Em outras palavras, a população vai perder as casas onde vive na promessa de que conseguirão financiar um novo apartamento. Crivella vai tão longe em seu delírio que quer mudar o nome do bairro, que passaria a se chamar Rio da Gente. O prefeito trata o projeto como um presente. A população da comunidade já deixou claro: não quer esse presente. Batizou a campanha como um resumo de seu desejo: melhorias SIM, remoção NÃO!

Marcelo Crivella não quer mais ver Rio das Pedras de sua janela. Moradores reclamam que a nova gestão da Prefeitura está precarizando serviços no bairro, como uma desculpa para a venda. É o caso deste rio, que teve programa de limpeza extinto em 2017.

Verdade seja dita, Crivella já havia anunciado a intenção de verticalizar Rio das Pedras durante a campanha do ano passado. É claro que não enfatizava, como ainda não o faz, a necessidade da remoção de um número inédito de pessoas. Talvez por isso, tenha recebido cerca de 60% dos votos válidos da zona eleitoral que engloba os eleitores de Rio das Pedras. Passar dias na comunidade é ter certeza que essa popularidade baixou drasticamente. “Ninguém aguenta ouvir o nome de Crivella aqui”, me contou um morador que, ziguezagueando entre ruas e vielas, promovia um tour de denúncias, listando absurdos da Prefeitura nesses últimos 9 meses.

O que era um plano bizarro ganhou contornos mais reais – e bem mais dramáticos –  em maio deste ano. Dia 15/05, a imprensa noticiou o lançamento do projeto sem muito alarde, apenas com informações oficiais, sem qualquer trabalho de reportagem na comunidade. A Record, emissora mais próxima à administração Crivella, usava o perverso termo “revitalização” para se referir ao projeto. Revitalização como sinônimo de remoção de 100 mil pessoas?

Depois disso, a grande imprensa pouco espaço deu para o caso. Mesmo com a informação que o valor total envolvido nas obras poderia superar os R$5,4 bilhões, nenhuma capa de jornal. Na mesma semana de maio, Marcelo Crivella lançou o Edital de Procedimento de Manifestação de Interesse GP 04/2017, apontando as diretrizes para o que chama de Operação Urbana Consorciada Rio das Pedras. O espírito do projeto se assemelha ao que aconteceu no Porto Maravilha, onde toda uma imensa parte da cidade é negociada com empreiteiras numa Parceria Público-Privada, formando um consórcio que executa e explora as milhares de obras relacionadas. O documento de três páginas (80, 81 e 82) do Diário Oficial do Município de 16 de maio de 2017 é uma listagem burocrática de obrigações e prazos sobre a área consorciada de Rio das Pedras – um texto sem qualquer alma, no qual a palavra remoção sequer é citada.

O edital ainda traz um mapa definindo os limites dessa área a ser consorciada. Nesse mapa há um indício muito perigoso, que pode revelar os reais interesses por detrás do projeto de destruição e reconstrução do bairro de Rio das Pedras. A área destacada para o projeto não corresponde apenas ao bairro de Rio das Pedras, mas sim a uma área quase cinco vezes maior, que começa em parte do Itanhangá, passa por uma grande área de mata verde às margens da avenida Engenheiro Souza Filho, avança por todo o Rio das Pedras e segue, em direção à Barra da Tijuca, Cidade de Deus e Gardênia Azul, alcançando os limites desses bairros e invadindo a Vila do Pan e boa parte do Anil.

O mapa acima, apenas com a linha amarela delimitando a área a ser consorciada, é o que consta no edital publicado pela Prefeitura no Diário Oficial. Numa jogada desonesta, para enganar o leitor, nem mesmo identifica onde fica o bairro de Rio das Pedras.

Abaixo, refazemos o mapa, destacando o Rio das Pedras e outras regiões para onde o projeto avança. Chama a atenção a imensa área ainda não explorada pelos empreiteiros que, se o projeto for aprovado, também sofrerá com adequações, por exemplo, de gabarito. Assim, criaria-se um novo e atraente espaço de exploração imobiliária na região mais valorizada da cidade que ainda mantém capacidade de “crescimento” – ao contrário da zona sul, por exemplo.

Em 18 de julho, o prefeito Marcelo Crivella se reuniu em seu gabinete com empresários interessados em realizar os estudos necessários para o andamento do projeto. Nove dias depois, o Diário Oficial do Município trouxe a informação de quais grupos foram autorizados a operar estudos (ainda não obras) na região:

“A Subsecretaria de Projetos Estratégicos, do Gabinete do Prefeito, autoriza o grupo: MRL/MRV Engenharia e Participações S.A., Quatro de Janeiro Administração e Participações Ltda, Direcional Engenharia S.A., Construtora Tenda S.A., Cury Construtora e Incorporadora S.A., Mega Realizações Imobiliárias Ltda, João Fortes Engenharia S.A., Construtora Novolar S.A., Cattleya Empreendimentos Imobiliários SPE Ltda, Ghimel Construções e Empreendimentos Ltda e Cofranza Construtora Ltda, a elaborar os estudos, que eventualmente serão utilizados pelo MRJ, de viabilidade técnica, operacional, econômico-financeira e jurídica, necessários à realização da Operação Urbana Consorciada Rio das Pedras, nos bairros do Itanhangá e de Jacarepaguá, na Cidade do Rio de Janeiro”. (trecho do Diário Oficial do Município de 27 de julho de 2017).

A partir do início de agosto, o clima esquentou em Rio das Pedras com a chegada, nem sempre identificada, de pessoas a fim de realizar levantamentos na comunidade. Agentes de saúde comunitária da Clínica da Família de Rio das Pedras denunciaram que foram orientados em suas visitas, num flagrante abuso de desvio de função, a aplicar questionários sobre quantidade de bens e imóveis aos moradores, que ainda reclamam que a Prefeitura enviou diversos outros “pesquisadores” – alguns até mesmo se dizendo do IBGE – para coletar dados da população local. Topógrafos e geólogos foram vistos por moradores, cavando buracos e realizando medições, num movimento incomum para a região. Brasil afora, trata-se de um procedimento frequente de governos interessados em remoções numa tentativa de estimar, por exemplo, os valores das indenizações.

Crivella usa as redes sociais para dar respostas (absolutamente contraditórias) ao povo de Rio das Pedras. Não convence.

Em 23 de agosto, Crivella postou um vídeo na sua página de Facebook, onde responde perguntas feitas pela população (ou elaboradas pela equipe do Prefeito, né?). Ele escolheu a pergunta que seria de Luiz, de Rio das Pedras: “prefeito, quando vão começar as obras no Rio das Pedras?“, leu Crivella, forçando uma interpretação que indicava uma contente ansiedade por parte do morador.

 

Crivella respondeu:

“Luiz, deixa eu explicar para que não haja confusão aí no Rio das Pedras. As pessoas me dizem assim “poxa, eu construí a minha casinha, com sacrifício, e agora a Prefeitura vai jogar tudo no chão e eu vou ter que comprar um apartamento?” Crivella muda de câmera, num jogo sedutor, e responde com a inflexão de voz típica dos pastores: “não é nada disso. Quem tá falando isso não tem informação. Todos que são proprietários no Rio das Pedras serão indenizados por aquilo que construíram ali. E é essa indenização e mais o subsídio do plano do Minha Casa, Minha Vida que ajudarão o moradores a terem a sua propriedade. Mas diferente. Agora o prédio que você vai morar vai ter elevador. A sua fundação não vai afundar mais. Você não corre risco de perder isso no futuro. E mais: você vai morar num bairro urbanizado, no mesmo padrão que você encontra nos bairros, como, por exemplo na Barra da Tijuca”.

Crivella prossegue dizendo as vantagens de um bairro todo “urbanizado”, com saneamento básico, wifi, ciclovia e uma linha do BRT. No fim, rasgando elogios ao projeto, disse que ele “com certeza, vai receber o aplauso de toda a população”, e concluiu “divulguem para seus amigos. Ninguém vai ter prejuízo e ninguém será removido”.

Como assim, prefeito? Você quer construir quase 35 mil apartamentos sobre onde hoje moram quase 100 mil pessoas e diz que não removerá ninguém? Você acha mesmo que a população do Rio das Pedras vai acreditar? Acha que essas pessoas são idiotas? É claro que a população aguerrida de Rio das Pedras não deixaria barato. Rapidamente, uma comissão foi criada para impedir o absurdo!

População absolutamente revoltada com o projeto de Crivella para Rio das Pedras.

NÃO SERÁ NADA FÁCIL REMOVER RIO DAS PEDRAS

“Isso aqui é um pedacinho do nordeste no Rio, aqui estamos em casa”, disse a orgulhosa Francisca Lopes, segurando um cartaz onde se lia MELHORIAS SIM, RETIRADA DAS NOSSAS CASAS NÃO. Ela e outras 4 mil pessoas tomaram as ruas do Rio das Pedras dia 25 de agosto. Foi de arrepiar ver tanta gente na rua, numa das mais potentes manifestações que a cidade viu em 2017 (link do vídeo ao vivo do protesto). A revolta contra o prefeito deu o tom durante toda a manhã.

– O projeto visa apenas o interesse dos empresários da Barra da Tijuca. Esse projeto não cabe no bolso da comunidade do Rio das Pedras. O povo daqui não tá conseguindo nem pagar suas contas de luz. Entendemos que esse projeto é uma limpeza social. Já entendemos o projeto e não queremos esse projeto. – disse Andrea Ferreira, uma das lideranças que surgem diante da revolta em relação à remoção. 

Ao avançar para o interior da comunidade, o protesto foi crescendo. Uma dezena de crianças puxava o grupo à frente, segurando um grande cartaz. Outros levavam menores: “Eu nasci pobre, mas não nasci otária”, dizia um deles.

– A Prefeitura não consegue pagar os médicos da Clínica da Família. Dinheiro para eles serve para retirarem nossas casas e vender apartamentos para eles. Ninguém aqui constrói casa para derrubar. Construímos com sentimento de amor e apego. Se você tem bilhões para arrumar, arrume dinheiro para a saúde, para a escola. Nessa escola aqui, as crianças tão fazendo prova no caderno, porque não tem folha em branco. Precisamos de sua resposta, prefeito. A resposta para o senhor já temos: é o não! Nós não estamos à venda! Isso foi construído com muito suor. Além de derrubar as casas, quer mudar nosso nome? Nós somos Rio das Pedras! Ele quer botar Rio da Gente! Ele quer o nosso Rio das Pedras para ele! Mas não vai conseguir! Não queremos troca de chave! – bradou Lorena, outra liderança fundamental, com a voz indignada.

————————————————————————————————————————————

A dimensão do delírio de Crivella. foto: mootiro.org

Em cada oportunidade de conversa, o orgulhoso povo de Rio das Pedras fez questão de contar a história do lugar que surgiu na década de 50, como morada de retirantes nordestinos que chegavam ao Rio e encontravam no crescimento da Barra da Tijuca oportunidades de emprego. A área pantanosa que também continha muitos areais foi sendo aterrada pelos próximos moradores. Aliás, sem ajuda de governos, a construção própria de quem viveu e vive lá é a marca mais importante da história do Rio das Pedras, mais um traço de orgulho, assim como a herança nordestina, que faz com que a trilha sonora da favela não seja o funk, como na maioria, mas sim, o forró. Fora as eleições, o Poder Público nunca deu muita bola para o lugar. Já na década de 60, surgiram as primeiras ameaças de remoção. Mas a comunidade cresceu, com picos em 1966 e 1981. Em 91, cerca de seis mil pessoas ocuparam 15 prédios de um conjunto habitacional abandonado, repleto de rachaduras. O então governador Leonel Brizola se recusou a usar a força policial para expulsar os moradores. Dessa luta, foram negociados novos terrenos: o Areinha, o Areal II e o Pinheiro. Nas últimas duas décadas, além do crescimento sempre constante da população, Rio das Pedras também viu crescer o poder das milícias. Teve até vereador eleito. As disputas se intensificaram no começo dos anos 2000, com atentados e execuções. No entanto, a situação já está estável há quase uma década na região. Nos dias que visitamos a comunidade, não vimos referência à milícia. O que a população nos mostrou – talvez por medo, talvez por satisfação mesmo – foi apenas a felicidade de morar, no Rio, num lugar sem armas à vista, sem tiroteios, a satisfação de morar num lugar no qual “você pode chegar e sair a qualquer hora do dia ou da noite”.

————————————————————————————————————————————-

Comissão cresce e vira referência para a luta de Rio das Pedras

Na manifestação do fim de agosto, pôde-se perceber uma certa neutralidade política por parte da Associação de Moradores de Rio das Pedras. O representante da entidade disse que, “na hora certa”, estaria ao lado da comunidade. Moradores nos revelaram que achavam correta esta postura da associação. Sem romper com a Prefeitura, garantia uma parceria que era importante para o bairro. Com ou sem a associação, o certo é que a comissão criada para lutar contra as remoções ganhou corpo, coragem, legitimidade e se dedicou profundamente a defender a permanência do Rio das Pedras, contra o projeto de Marcelo Crivella.

Logo de início, o grupo percorreu os gabinetes da Câmara de Vereadores, após identificar ali uma trincheira importante para a sua luta, uma vez que diversas etapas do projeto de Crivella precisarão da aprovação do legislativo municipal. Nessa jornada no Palácio Pedro Ernesto, a comissão encontrou alguns vereadores que se dispuseram a ajudar como Leonel Brizola Neto (PSOL), David Miranda (PSOL) e Reimont (PT). Já foi criada uma Comissão Especial da Câmara Municipal para se dedicar com atenção ao caso.

Chiquinho Brazão (PMDB), de forte influência em Rio das Pedras, no dia 4 de setembro, ajudou a organizar uma audiência na praça principal da comunidade. No evento, a Defensoria Pública esteve presente e se comprometeu a fazer um levantamento para mapear quem são os proprietários dos terrenos que estão dentro do que pode vir a ser a área consorciada.

A página #RioDasPedrasContraCrivella ganhou seguidores no Facebook e virou referência para a troca de ideias e exposição das denúncias, como fotos da presença de profissionais ligados ao projeto em “visita” na comunidade

Na votação mais importante do ano na Câmara no ano, a do aumento do IPTU, em 5 de setembro, as galerias estavam repletas de moradores do Rio das Pedras, numa demonstração de inteligência do movimento, que aproveitou a grande presença da imprensa para demonstrar toda a inconformidade com o projeto.

Mesmo assim, a imprensa tradicional da cidade mostra-se ainda despreocupada com o assunto, seja por defender interesses do empresariado da Barra, seja por que nunca deu muita bola para pobre sendo removido. O exemplo mais recente é a Vila Autódromo, de muita comoção entre ativistas de direitos humanos e sem qualquer atenção da grande imprensa. A Vila Autódromo é referência para a luta do Rio das Pedras neste momento. Assim como seriam, se estivéssemos na primeira década do século passado, as comunidades pobres do centro, varridas por Pereira Passos. Ou, na década de 20, o Morro do Castelo, destruído por Carlos Sampaio. Em 40, os milhares que foram removidos pelo prefeito Henrique Dodsworth para a construção da avenida Presidente Vargas. Na década de 60, a referência seria a comunidade do Morro do Pinto, na zona sul. Como falamos no início da reportagem, a tragédia da remoção não é nenhuma novidade para a cidade do Rio de Janeiro.

UM TOUR DE DENÚNCIAS PELO RIO DAS PEDRAS

Fomos recebidos por parte da Comissão que defende Rio das Pedras numa manhã quente de setembro. A proposta era passear pelo bairro para poder registrar as insatisfações da comunidade, uma lista sem fim de problemas da gestão Crivella, que até mesmo antecede o projeto das remoções. Embora não verbalizado, era uma forma de mostrar que melhorias, sim, são muito necessárias em Rio das Pedras.

A Escola do Amanhã que era para ANTEONTEM

A primeira parada de nosso tour foi nas obras de uma imensa Escola do Amanhã. O segurança da obra não deixou ninguém entrar, mas não fez qualquer cerimônia para responder há quanto tempo a obra está parada: “8 meses”. Ou seja, foi Crivella quem parou a obra, com valor financiado de mais de R$ 3,5 milhões. Mães e pais de Rio das Pedras afirmam que a escola faz muita falta para a comunidade. A própria Lorena Carvalho, mãe de três filhos, diz que “aqui tem muita gente que não tem condições de pagar transporte para o filho estudar fora da comunidade. Aqui, no Rio das Pedras, por ser muita criança, as escolas não dão conta. É superlotação em sala de aula. Se essa escola estivesse funcionando, se ele estivesse mesmo preocupado com a educação da comunidade, ele não teria parado a obra. Já gastaram tanto dinheiro e a obra está ali parada, para nada”.

Bomba nunca ligada ajudaria na preservação do meio ambiente das lagoas da região

Ao saber que estávamos fotografando absurdos da gestão pública em Rio das Pedras, os moradores fizeram a questão de nos levar até algumas bombas, inauguradas há três anos como parte da solução para a terrível poluição que o esgoto da comunidade provoca na Lagoa de Jacarepaguá. Segundo os moradores, foram gastos R$65 milhões do governo estadual na obra, mas as bombas que seriam responsáveis por levar o esgoto até a estação de tratamento nunca foram ligadas. Como podemos ver e fotografar, elas estão se deteriorando dia a dia, transformando-se num depósito de lixo e criadouro de mosquitos.

 

“Era para ajudar no problema de alagamentos e, principalmente, para proteger a lagoa da poluição. O Mauro Moscatelli, conhecido biólogo do Rio de Janeiro, disse que o Rio das Pedras é um dos principais poluidores da Lagoa de Jacarepaguá. Se essas bombas estivessem funcionando, isso não ocorreria. O que a gente quer dizer com isso? Melhoria SIM! Se quiser entrar aqui no Rio das Pedras para fazer essas coisas, a Prefeitura será bem-vinda. A solução para os problemas não é a remoção”, disse Antônio, um antigo morador da região.

Programa de limpeza de rio foi suspenso por Crivella

Na gestão de Eduardo Paes, a comunidade de Rio das Pedras era atendida por um programa chamado Guardiões dos Rios. Desde que Crivella assumiu, o programa foi suspenso e, obviamente, a sujeira retornou com força ao leito do rio que corta a comunidade. “A impressão que dá é que ele quer precarizar Rio das Pedras para depois ter uma desculpa para vender. Todo esse dinheiro que quer usar nas remoções, poderia ajudar em muita coisa aqui” – disse um morador que ainda afirmou que se o projeto de Crivella vingar, vai deixar o Rio e retornar para o nordeste, de onde saiu ainda menino.

Comércio local também está preocupadíssimo com o projeto

Quando pensamos em remoções, a primeira imagem que vem à mente é das casas sendo removidas. No entanto, em Rio das Pedras, a expectativa de que lojas, restaurantes e toda a sorte de estabelecimentos comerciais sejam removidos está aterrorizando os comerciários e, consequentemente, os funcionários destes negócios. A grande movimentação do comércio permite que muitos dos moradores de Rio das Pedras também trabalhem na comunidade. “Eu mesmo trabalho aqui. Como vocês puderam observar, a comunidade tem muito comércio. As pessoas sobrevivem daqui. É um local de onde não precisamos sair para fazer nada. As pessoas comem aqui, se divertem aqui. A gente se sente completo. As pessoas que trabalham como elas vão financiar apartamento? Elas vão perder o trabalho justamente neste mau momento em que o país se encontra, em crise, em desemprego. Crivella vai nos dar mais uma dívida, nesse momento, retirando o nosso trabalho? Como vai ter condição de quitar apartamento sem trabalhar?”, reclamou, com muita razão, Andrea Ferreira. Rafael Branquinho traz ainda um outro questionamento: “o prefeito não explicou e, quando fala no vídeo, não fica muito claro, que é em relação as indenizações e realocações dos comerciantes. Como vai ser essa logísticas? O que os comerciantes vão fazer no período das obras?”

O saneamento que não pode mais esperar

Algumas das principais ruas do Rio das Pedras ainda hoje, mais de 50 anos desde o surgimento da comunidade, ainda sofrem com o gravíssimo problema da falta de saneamento e das enchentes. O problema é talvez o mais antigo e persistente para a população local, que, com o humor peculiar, brinca que se trata da “Veneza do cocô”, em referência à cidade italiana que, em vez de ruas calçadas, é cortada por canais e rios. Quando chove, mesmo na principal avenida da comunidade, a Engenheiro Souza Filho, a água chega às canelas. Muitos governantes já passaram e prometeram resolver a situação.

Quem é você?

“A comunidade está como cachorro acuado, com medo. Quando ouve falar de ´Prefeitura´ começa logo a latir”, foi o que nos disse Luciano, outro nordestino, morador há 17 anos no Rio das Pedras. A conversa foi em cima de sua moto, enquanto ele gritava para alertar os vizinhos de que havia um geógrafo da Prefeitura circulando pela região da Areinha. O bairro foi todo se mobilizando pelo WhatsApp, reunindo dezenas de pessoas para conferir do que se tratava e, claro, para fazer uma oposição (pacífica) à presença de qualquer enviado do prefeito ao Rio das Pedras.

Logo que foi identificado, o geógrafo se assustou, não sabia como responder as nervosas perguntas dos moradores: “Quem te mandou aqui?”, “Qual o trabalho do senhor?”, “Gato escaldado tem medo de água fria!” Cerca de 30 pessoas cercaram o homem, que era acompanhado por dois moradores locais ligados à associação de moradores. Alguns moradores traziam ovos. Não era uma gentileza ao visitante, é óbvio. Era um recado: não haverá como fazer esse omelete sem quebrar os ovos, prefeito!

Reunião com o prefeito e audiência pública com os vereadores

Prova de que a luta está fortalecida em Rio das Pedras é que a comissão de moradores conseguiu algo raríssimo nestes 9 meses de gestão Crivella: sentar para conversar com o prefeito. Se até o bispo o recebeu é que, realmente, a comissão já está fazendo barulho.

O encontro se deu em 21 de setembro, sob uma certa desconfiança por parte da equipe da Prefeitura, que pediu para recolher os celulares antes da conversa começar. Para quase todos ali, era o primeiro contato com algum prefeito do Rio de Janeiro, uma chance de entender como Marcelo Crivella pensa e age diante de cidadãos comuns da cidade.

A reunião

Andrea Ferreira: “Antes da reunião, ainda tinha um pouquinho de esperança. Achei que o Crivella poderia estar equivocado por não estar sabendo da realidade dos moradores Rio das Pedras. Demos os argumentos suficientes para ele entender que esse projeto não é para o Rio das Pedras. Os dados que ele tem não condizem com a nossa realidade. Um deles é em relação a pesquisa que ele mostrou dizendo que, em média, a população de Rio das Pedras ganha entre 3 a 5 salários-mínimos. Isso não é a realidade! Hoje a maioria dos moradores ganha até um salário-mínimo ou pouco mais do que isso. São operadores de caixa, pedreiros, empregadas doméstica, que trabalham nos restaurantes e lanchonetes da Barra. Coloquei para ele que, quando a gente dá um presente para uma pessoa, é importante que a pessoa aceite o presente. Se a pessoa não quiser, ela não é obrigada. Ele tá dizendo que tá dando um presente para a gente. Ele tá querendo enfiar um “presente” goela abaixo. Reunião não foi satisfatória. Nada mudou do lado da Prefeitura. No final de tudo, o que mais me estranhou foi que ele pediu para a gente orar. O povo do Rio das Pedras já ora bastante. Mas acho que esse não é o posicionamento de um prefeito! Talvez fosse o posicionamento de um pastor, de um líder de igreja, mas não fomos buscar um pastor, fomos mandar o prefeito do Rio de Janeiro. Isso me preocupou mais ainda. Nós estamos botando nossas vidas na mão de uma pessoas completamente despreparada. Em algum momento, ele disse que é um projeto modelo, que nunca foi feito isso no Brasil. Ou seja, nós vamos ser testes. Eu tô me sentindo uma cobaia. Pode dar certo, mas também pode não dar certo. Enquanto isso, nossa vida tá em jogo. As nossas casas, aquilo que demoramos tanto para construir está em jogo. E ele não tá nem aí! Ele mandou a gente orar.

Fabiane Souza: “Não senti firmeza no Prefeito. A gente sentado naquela mesa me senti a boba da corte. Parecia num teatro, encenada, combinada”.

Rafael Branquinho: “Ficou nítido que o prefeito não conhece a fundo nossa comunidade e quer implantar um projeto que chega a ser, na minha opinião, um presente de grego. Ele insiste em citar o caso isolado de uma senhora que fez uma declaração, há um tempo atrás, a favor do projeto. Acho que essa senhora não tinha conhecimento a fundo do que iria acontecer na realidade. Mas eu conheço muitos exemplo que se opõe a essa realidade. Senhor e senhoras de idade que trabalharam a vida toda para conseguir a sua moradia. Não querem e nem tem condições de se comprometer com mais uma divida. O prefeito diz que os apartamentos teriam parcelas acessíveis, coisa que eu não acredito. Tá bem claro que o que ele promete tem custo. Apartamento com elevadores e outras várias promessas que não são poupáveis. Ele cita, em uma pesquisa, que a renda de um morador de Rio das Pedras é de 3 a 5 salários. Eu digo a você que muitas pessoas aqui estão passando necessidade. Outros não conseguem pagar a luz em dia.

Felipe Pedrosa: “Não existe a pessoa entregar um patrimônio, que seja em favela, para poder trocar por outro que você vai continuar pagando por 10 ou 15 anos. Não existe esse projeto na cabeça do morador. Vão ser obrigado a dar um bem e adquirir a divida. A classe da Barra da Tijuca já está com dificuldades por causa da crise, e aí o pobre será obrigado a adquirir um apartamento? Na minha opinião, o prefeito deu um passo para trás. Eu conheço dezenas de pessoas que foram removidas e não foram ressarcidos. Não existe em nenhum lugar. Não existe em Marte um projeto como esse”.

Fernanda Siqueira: “Ele tá lidando com vidas, com histórias. O momento que mais me marcou foi quando ele ficou apontando justamente para o local onde eu moro, que vai ser o primeiro local a ser removido. Em nenhum momento, ele pensou na minha história, sabe, que está sendo apagada. Poxa, eu nasci ali, eu crio meus filhos ali e ninguém me perguntou se eu quero ou não esse projeto“.

Rafael Brito: “Ele passou 50 minutos apresentando os slides do projeto. Usou mesmo dados do censo de 2010, mas, no painel, estava apresentado com dados de 2015, sem fonte. Ele disse que qualquer investimento, que não for o projeto dele, é jogar dinheiro fora. Justifica que o solo é instável. Ele disse que a obra aconteceria em três fases, A, B e C. Que a largura das avenidas seria de 50 metros, que vai ter BRT. Também falou que teria a melhor internet do Rio. O que ficou claro foi a tentava de convencimento, sempre misturando política com religião. A Lorena deixou claro questões como a história e a cultura da comunidade não estão sendo levadas em consideração. Durante toda a reunião, ele só levava apenas dados numéricos, nunca citava cultura ou história dos moradores. Há quatro meses, ele fez uma reunião da associação, dizendo que comunicou toda a comunidade, o que não é verdade, porque, por exemplo, ninguém que tava na reunião foi. Ele falou também da possibilidade de existir um sistema de permuta, de troca de casa. Sabendo que vai ter resistência por remoção, ele comentou que vai sugerir que os moradores que querem a obra troquem de casa com o que não querem. Troquem de casa. Ideia mirabolante. Ele disse que ninguém tem RGI. Hoje não temos RGI porque nunca ninguém apresentou regularização fundiária. No final, sugeriu que orássemos para ver, para que Deus ilumine os corações e que fazemos as melhores decisões.

A AUDIÊNCIA

Na sexta-feira, 6 de outubro, 21 ônibus vão sair de Rio das Pedras em direção à Câmara Municipal do Rio, que vai receber uma Audiência Pública, às 10 horas da manhã, para debater o projeto de verticalização do bairro. Como, certamente, não haverá espaço para todo mundo dentro do Palácio Pedro Ernesto, a Cinelândia estará tomada por moradores de Rio das Pedras. Será a vez do centro da cidade saber das ameaças que aterrorizam e paralisam a vida dos moradores de parte da zona oeste.

Crivella vai aprender, de todas as maneiras, que o que ele está propondo não tem cabimento, que é uma aventura que nenhum morador está disposto a enfrentar. Crivella vai aprender que não é assim que se governa uma cidade do tamanho, da história e da capacidade de mobilização popular como o Rio de Janeiro. Crivella vai aprender que sua religião e que sua maneira antidemocrática de governar não terão vez no Rio de Janeiro. E quem vai ensinar tudo isso a Crivella é a população do Rio de Janeiro.

>>> Reportagem de Caetano Manenti, com colaboração de Rithyele Dantas.