Quem é David Miranda

“Sou negro, LGBT, da favela do Jacarezinho: essas três coisas faz com que a gente nunca acredite que vai pisar na Câmara de Vereadores”

O primeiro vereador assumidamente gay da história do Rio de Janeiro nasceu em 10 de maio de 1985 na favela do Jacarezinho, zona norte do Rio. Já foi engraxate, faxineiro, office boy, panfleteiro e caixa de comércio.

Criado pela tia e sem nunca ter conhecido o pai, David Miranda parou de ir à escola e saiu de casa aos 13 anos para “ganhar o mundo”, como ele mesmo diz. Aos 19, morava com os primos na favela do Rato Molhado, também na zona norte, e fazia supletivo para terminar o Ensino Médio. Mais tarde, cursaria a faculdade de Comunicação.

Há 11 anos é casado com o jornalista americano Glenn Greenwald. Foi nas praias de Ipanema, na conhecida região da Farme de Amoedo, que os dois se conheceram. Casaram-se pouco tempo depois, sob as leis brasileiras, na época, à frente da legislação norte-americana.

No final de 2012, Glenn foi procurado por Edward Snowden. Junto com a documentarista Laura Poitras, Glenn começou a trabalhar nas denúncias de espionagem baseadas em documentos fornecidos pelo ex-agente da Agência Nacional de Segurança, a NSA, enquanto David administrava todas as publicações, trabalhando decisivamente na história do maior furo do jornalismo mundial neste século. As primeiras publicações sobre o esquema de espionagem são de junho de 2013. No Brasil, as informações de Snowden revelaram que a Agência de Segurança Nacional dos Estados Unidos não só monitorava as transações da Petrobras, como a própria ex-presidenta Dilma Rousseff.

Foto: Ricardo Moraes / Reuters / VEJA

Sob a justificativa do Anexo 7 da Lei Antiterrorismo britânica, numa conexão no Reino Unido, David acaba detido pela Polícia Metropolitana de Londres. Sem acesso à comunicação, nem presença de um advogado, David passou 9 horas sendo duramente interrogado e teve a câmera, o celular, o laptop e outros objetos pessoais apreendidos. A clara tentativa de intimidar David e seu marido, no entanto, não os parou. Pelo contrário. Os documentos revelados por eles mostravam ainda a conivência do governo britânico, através do seu órgão de inteligência, com a espionagem estadunidense que atingiu não só o Brasil, mas diversos países ao redor do globo. Desde então, a pauta da vigilância tem estado em evidência, como perspectiva ao direito à privacidade e à segurança da liberdade de expressão.

David processou a policia londrina e, em fevereiro de 2014, recorreu à decisão do tribunal britânico. Venceu: os juízes entenderam que o Anexo 7, chave da Lei Antiterrorismo britânica, fere a lei europeia e, portanto, deve ser alterado.

De volta ao Brasil, David entra numa batalha de garantia de justiça e direitos humanos. Dirige a campanha pelo asilo a Snowden no Brasil, em conjunto com diversas figuras públicas e com diversos coletivos de juventudes, dentre eles o Juntos! O ponto alto da mobilização pelo asilo foi a Carta Aberta ao Povo Brasileiro, redigida pelo próprio Snowden. A decisão de Dilma, no entanto, foi negativa. O que não impediu que a campanha tomasse grandes proporções pressionando também outros países. A Rússia, onde Snowden já estava asilado, concedeu mais 3 anos ao ex-agente da NSA. (No início de 2017, Snowden teve a permissão renovada mais uma vez).

Nas eleições de 2014, a candidata à presidência pelo PSOL, Luciana Genro, é a única a se reunir com David e Glenn e se comprometer com a campanha de asilo a Snowden. Daí em diante, a relação se consolida e David se filia ao PSOL.

A partir de seu histórico de luta pela causa LGBT, pelos direitos humanos, civis e por uma sociedade mais justa, David embarca no projeto da Casa da Juventude, localizada na Pedra do Sal — marco de resistência da negritude no Rio de Janeiro — em conjunto com o coletivo Juntos! Com o intuito de reunir diversos ativistas em torno das pautas progressistas, a Casa da Juventude se consolida como um espaço de ativismo digital e debates entre os indignados que buscam uma nova alternativa.

Foi, então, na passagem de 2015 para 2016, que David Miranda aceita ser o nome a carregar as pautas da juventude e a construir um programa político verdadeiramente coletivo e à esquerda do espectro político brasileiro. Com uma imensa militância, o Juntos! se empenha na tarefa de eleger o primeiro vereador LGBT do Rio de Janeiro. A partir de uma série de debates, o programa “Da Juventude para a Juventude” se formula ao longo de um ano e reúne consigo uma ampla rede de contatos e trabalhos que hoje se enraíza e se expande.

David Miranda e Marcelo Freixo na campanha de 2016

Nas eleições de outubro de 2016, David Miranda e o Juntos! conquistam 7.012 votos, alcançando uma cadeira na Câmara de Vereadores do Rio de Janeiro. O Mandato Coletivo é uma ferramenta de luta que veio das ruas e da juventude, que se atreve a formular um mundo diferente. Um mundo novo, mais justo, que possa atender aos anseios dos 99% que tem a coragem de enfrentar os que sustentam seus privilégios a poucas pernas.

Os de cima só não podem mais porque nós não deixamos. É juntos que podemos fazer a diferença. É assim que nos propomos revolucionar a política!