Braga Netto nega ditadura em 1964: ‘Se houvesse, muitos não estariam aqui’

O ministro da Defesa, Walter Braga Netto, mentiu hoje ao negar que houve ditadura militar no Brasil, regime que entre 1964 e 1985 torturou 20 mil pessoas e deixou saldo de 434 pessoas mortas ou desaparecidas

17 ago 2021, 16:13 Tempo de leitura: 2 minutos, 42 segundos
Braga Netto nega ditadura em 1964: ‘Se houvesse, muitos não estariam aqui’

O ministro da Defesa, Walter Braga Netto, mentiu hoje ao negar que houve ditadura militar no Brasil, regime que entre 1964 e 1985 torturou 20 mil pessoas e deixou saldo de 434 pessoas mortas ou desaparecidas, de acordo com dados da HRW (Human Rights Watch).

Segundo Braga Netto, houve um “regime forte”, que precisa “ser analisado na época da história”. Ele criticou deputados que analisam o golpe pela ótica dos dias de hoje.

Se houvesse ditadura, talvez muitas pessoas não estarim aqui. Ditadura, como foi dito por outro deputado, é em outros países.”

As declarações de Braga Netto foram feitas hoje, em uma audiência conjunta de três comissões da Câmara dos Deputados para qual o ministro foi convidado a prestar esclarecimentos.

A aprovação da ditadura militar não é novidade entre os membros do governo Jair Bolsonaro (sem partido). Em março, quando o golpe de estado completou 57 anos, Braga Netto disse que o ato, que desarticulou a democracia no Brasil, deveria ser “celebrado” como um “movimento” que permitiu “pacificar o país”. Seguindo a mesma linha, o vice-presidente Hamilton Mourão elogiou a ditadura.

Segundo Mourão, o apoio das Forças Armadas “impediu que o Movimento Comunista Internacional fincasse suas tenazes no Brasil”.

O presidente Bolsonaro já repetiu diversas vezes que é fácil impor uma ditadura no Brasil. Em tom de ameaça, ele declarou que é o chefe das Forças Armadas e indicou que pode tomar uma medida extrema (sem dizer qual) “se o povo quiser”.

Em 1964, com o argumento de evitar a realização de uma ditadura comunista no Brasil, em período de Guerra Fria, as Forças Armadas brasileiras realizaram um golpe de Estado em 31 de março, que depôs o então presidente João Goulart.

Segundo relatório de 2014 da Comissão Nacional da Verdade (CNV, um organismo oficial), a ditadura foi responsável por 434 assassinatos e desaparecimentos e por centenas de prisões arbitrárias e torturas. Esse balanço não inclui as muitas mortes de indígenas e camponeses, resultantes de conflitos agrários.

Diferentemente de seus vizinhos, o Brasil nunca julgou os agentes do Estado, acusados de cometer crimes durante as ditaduras dos anos 1970 e 1980 na América Latina, invocando a Lei de Anistia de 1979. Documentos americanos que tiveram seu sigilo suspenso em 2018 revelaram que a eliminação de dissidentes era decidida em alguns casos no palácio presidencial.

Audiência conjunta na Câmara

A pedido do deputado federal Elias Vaz (PSB-GO), o ministro Braga Netto foi convidado a prestar esclarecimentos sobre a nota oficial assinada por ele, ao lado de comandantes das Forças Armadas.

O documento foi divulgado em 7 de julho e repudiava as declarações do senador e presidente da CPI da Covid (PSD-AM), Omar Aziz, que falou sobre os envolvimentos de militares em casos suspeitos de corrupção do governo federal.

Já os deputados Rogério Correia (PT-MG), Paulão (PT-AL), Arlindo Chinaglia (PT-SP), Henrique Fontana (PT-RS), David Miranda (Psol-RJ) e Odair Cunha (PT-MG) convidaram o ministro a prestar explicações sobre supostas afirmações feitas a interlocutores condicionando a realização de eleições à adoção do voto impresso.