‘Vale tudo’ das empresas sobre salvar Amazônia será cobrado com juros pelo consumidor

9 jun 2021, 16:16 Tempo de leitura: 4 minutos, 46 segundos
‘Vale tudo’ das empresas sobre salvar Amazônia será cobrado com juros pelo consumidor
Mario Cesar Carvalho (Poder 360)
Projeção no Congresso, no Dia do Meio AmbienteSérgio Lima/Poder360 – 5.jun.2021

A Amazônia estaria salva se dependesse dos anúncios publicados por grandes empresas no Dia Mundial do Meio Ambiente, comemorado no último sábado (5.jun.2021). Foi uma avalanche de resultados positivos contra o desmatamento, as queimadas e o aquecimento global.

A JBS, 2ª maior indústria de alimentos do mundo, foi a que tomou a iniciativa mais agressiva e também a que narra os fatos mais contestados por ecologistas. Em anúncios na TV, ela diz que nenhum dos seus fornecedores de gado tem fazendas em áreas desmatadas na Amazônia. A empresa de Joesley Batista diz que agora vai atacar aqueles que fornecem para os fornecedores, uma cobrança que os consumidores europeus, sobretudo os alemães, colocaram nas mesas de negociação há mais de 30 anos. Só agora, JBS?

Originalmente nenhuma empresa existe para salvar a Amazônia, reduzir o aquecimento global ou livrar a Terra do apocalipse. Era assim até a última década do século 20. A partir de então as companhias, por pressão dos consumidores, tiveram que assumir cada vez mais funções sociais.

Aquele velho papo de que a empresa cumpre sua função social criando empregos já não vale mais nada. As empresas precisam ter fornecedores éticos, ser ambientalmente correta e adotar uma política de distribuição de lucros com seus funcionários. É o padrão mínimo. Se for uma grande corporação, terá que cuidar do planeta, também, sob o risco de sofrer boicote dos consumidores mais preocupados com o ambiente. O mundo deu essa virada e não há nenhuma indicação de que vá mudar de ideia.

É por isso que as empresas despejam avalanches de autoelogios não só no Dia do Meio Ambiente. Corporação sem imagem positiva junto ao consumidor virou um passivo tóxico. Vide a Vale. Já deve ter gastado mais de R$ 50 bilhões em ações, indenizações e acordos e continua com a sua imagem no lixo porque a fundação que criou no caso da barragem do Fundão, em Mariana, cujo rompimento em 2015 provocou o maior desastre ambiental do país e 19 mortes, não funciona. Cinco anos depois, a Vale não consegue restituir uma simples casa para quem teve o seu imóvel destruído pela imperícia da empresa. A China, maior comprador da Vale, faz de conta que não viu nada, mas está todo mundo vendo.

A moda agora entre as empresas é o chamado “net zero”, em inglês mesmo (o termo poderia ser traduzido por “carbono zero”, já que esse é o objetivo). Parece que a onda de plantar árvores para compensar a poluição passou, já que esse tipo de compensação mal aparece nos anúncios atuais.

A JBS aderiu ao programa “net zero” e promete zerar as emissões até 2040. A empresa parece séria nesse propósito, mas incluiu dados controversos em sua propaganda na TV. Diz que não compra gado de áreas desmatadas, mas a ONG Global Witness constatou que houve aquisição de 327 fazendas que desmatam a Amazônia. A JBS disse que houve equívoco na análise da ONG e que 40% dos casos citados estavam em fase de regularização ambiental.

A ideia de que as empresas exageram nos feitos e promessas, inventando de supetão programas que somem assim como apareceram, não é minha. Roubei-a do CEO da Klabin, Cristiano Teixeira. “Fico muito impressionado com esse vale tudo que está acontecendo. Quem parar para analisar vai ver que muito do que está sendo dito é puro marketing”, afirma.

Teixeira sabe do que fala. A Klabin foi uma das primeiras empresas brasileiras a aderir ao “net zero”, em 2019, e vai se sentar à mesa em novembro para discutir o papel das corporações no Acordo de Paris, um tratado internacional patrocinado pelas Nações Unidas, que busca frear o aquecimento da Terra. Um vale-tudo ecológico pode ser visto na TV. O Santander anunciou que está patrocinando um jardim vertical numa estação de trem da sede do banco em São Paulo. Jardim vertical pode ser uma obra estética incrível –o melhor que vi foi no Museu do Quai Branly, em Paris, criado em 2005.

Jardim vertical pode ser lindo, mas não tem nada de ecológico. Em muitos casos, há desperdício de água e nutrientes, e não serve para compensação ambiental. Só deve estar no anúncio porque o banco não tinha nada melhor para mostrar.

A marquetagem ecológica levou o deputado federal David Miranda (Psol-RJ) a propor um projeto de lei que impediria empresas que tenham passivos ambientais de fazer propaganda sobre as maravilhas ecológicas que estão fazendo pelo mundo. Miranda já apresentou ótimos projetos, como o que institui um programa de prevenção ao suicídio entre militares, mas sua proposta é risível, ineficaz e tem cara de censura. Veto de propaganda só para cigarro, bebida alcoólica e açucarada, armas e remédios; ou seja, de produtos que afetam a saúde e a vida.

Fazer propaganda ambiental enganosa é tiro certo no pé, segundo o CEO da Klabin. Isso acontece por uma razão simples: há organismos independentes para checar tudo que as empresas fazem. As corporações foram tão pródigas em discursos dúbios e evasivas que uma nova figura se tornou essencial, sobretudo no mercado ecológico: o certificador. Todas as promessas feitas agora serão checadas num futuro breve. O mesmo fenômeno das promessas vãs já aconteceu na Europa. Lá, os consumidores educaram as empresas. Pela vara e pelo boicote. Funciona.