Como este político gay e negro está se erguendo em oposição ao governo de extrema direita no Brasil

21 de maio de 2019 16h27

Por Ciara Nugent para a Time

Nas duas primeiras semanas no Congresso Nacional, no mês de fevereiro, David Miranda, de 34 anos, estava com muito medo de pegar o microfone. O incendiário de extrema direita Jair Bolsonaro, conhecido pelas explosões homofóbicas e racistas e por promessas políticas conservadoras, acabara de assumir a presidência. A violência contra pessoas LGBTI no Brasil estava em níveis quase recordes. Miranda, um negro gay, sentia a pressão. “Eu estava tremendo”, disse à TIME. “Esse lugar não foi feito para pessoas como nós.”

Miranda, que cresceu na favela do Jacarezinho, de população majoritariamente negra, se destaca entre os membros do Congresso brasileiro – três quartos dos quais são brancos, em comparação com apenas 44% da população em geral. A mãe de Miranda morreu quando ele tinha cinco anos e ele foi morar com sua tia antes de sair de casa aos 13 anos, querendo “conhecer o mundo”. Trabalhou como engraxate e na limpeza de prédios por seis anos.

Sua vida mudou, assim ele diz, num dia em 2005, quando estava jogando vôlei na praia de Ipanema e acidentalmente derrubou a bebida de um turista americano. Esse turista era o advogado Glenn Greenwald, mais conhecido hoje por seu jornalismo. Miranda e Greenwald começaram a conversar, se apaixonaram e foram morar juntos depois de apenas cinco dias. “Estamos juntos desde então”, diz Miranda. Greenwald, agora com 52 anos, ajudou a apoiar Miranda a voltar para a escola. Em 2014 formou-se na ESPM, uma escola de publicidade e marketing no Rio de Janeiro. Miranda divide seu tempo entre Brasília e sua casa no Rio com Greenwald, seus dois filhos adotivos, com idades entre 9 e 11 anos, e 25 cães resgatados.

Miranda se envolveu com a política primeiramente em 2013, quando ele, Greenwald e uma equipe do The Guardian trabalharam com o whistleblower (denunciante) da Agência de Segurança Nacional dos Estados Unidos, Edward Snowden, a fim de publicar evidências de programas de vigilância em massa dos EUA. A polícia britânica prendeu Miranda enquanto ele fazia conexão no Aeroporto de Heathrow, em Londres, a caminho do Rio e foi mantido por nove horas sob a legislação anti-terrorismo do Reino Unido. “Depois disso, fui forçado a entrar na linha de frente.” Miranda começou a participar da política brasileira. Em 2015, ele ajudou a abrir um espaço para a juventude, onde adolescentes podiam realizar noites de cinema, organizar protestos e discutir questões como racismo e direitos das mulheres.

Em 2016, foi eleito para o governo da cidade do Rio de Janeiro. Ele e sua colega Marielle Franco, integrante do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL) – uma mãe solteira, negra e homossexual – tornaram-se os primeiros vereadores LGBTI da história da cidade. Os dois também se tornaram amigos íntimos, ajudando-se mutuamente na aprovação de reformas progressivas, como a lei de autoria de Miranda, que permite que pessoas transgêneras usem nome social em documentos do governo municipal. Miranda planejava passar o fim de semana com Marielle, quando a ativista de 38 anos e seu motorista foram baleados e mortos em março do ano passado. Eles estavam a caminho de casa de um evento em que Franco havia feito um discurso sobre o empoderamento das mulheres negras.

A morte de Marielle Franco provocou ondas de choque na política brasileira e na comunidade LGBTI, provocando protestos em cidades ao redor do mundo. Um ano depois de sua morte, os investigadores finalmente prenderam dois ex-policiais que acreditam terem atirado em Franco. Mas para Miranda, “não é suficiente saber quem puxou o gatilho. Precisamos saber quem ordenou a morte dela. ”Ele e outros ativistas acreditam que ela foi assassinada porque se posicionou contra milícias paramilitares que usam violência e extorsão para controlar alguns bairros do Rio e, segundo Miranda, exercer poder sobre nomeações, autoridades e políticos. Miranda diz que não confia na polícia para capturar quem ordenou o assassinato e fez um apelo à Organização dos Estados Americanos e à ONU, que pressionaram o governo brasileiro a fazer mais.

“As pessoas sempre dizem que Marielle se tornou muito mais influente em sua morte, mas se ela estivesse viva hoje eu garanto que ela seria igualmente relevante”, diz Miranda. “Ela tinha um futuro tão brilhante. Preciso levar adiante tudo o que ela fez e seguir em frente. ”

Apesar de sua determinação em mudar a ordem das coisas, a entrada de Miranda no Congresso foi agridoce. Ele assumiu o cargo depois que seu amigo Jean Wyllys, outro integrante do PSOL, decidiu deixar o país em janeiro por conta de ameaças de morte. Miranda estava na primeira suplência do mesmo partido que elegeu Wyllys em 2018, e assumiu logo em seguida à renúncia. Desde então, diz que também recebeu “centenas” de ameaças de morte, as quais denunciou à polícia. E contratou segurança para sua família.

Entretanto, também recebeu milhares de mensagens de apoio de comunidades sub-representadas que precisam de proteção no Brasil atual. Bolsonaro venceu a eleição de outubro, declarando-se um “homofóbico com orgulho”, insistiu que as mulheres não merecem ser pagas tanto quanto os homens, prometeu descartar proteções legais e culturais para as minorias e elogiou a brutalidade policial nas favelas. “Muitas famílias LGBT que querem adotar crianças estão vindo até mim. Elas estão [procurando uma maneira] de acelerar o processo porque temem que Bolsonaro, com uma caneta e um pedaço de papel, possa revogar esses direitos pelos quais lutamos. ”

Quando Miranda finalmente segurou o microfone da tribuna da Câmara dos Deputados, no dia 27 de fevereiro, denunciou seus colegas congressistas por esquecerem dos brasileiros mais pobres, e criticou o governo de Bolsonaro por não ter conseguido acabar com a corrupção endêmica contra a qual ele havia protestado durante sua campanha. Miranda planeja trabalhar em programas de controle contra a corrupção e formas de impedir a violência policial e proteger os salários da classe trabalhadora. Seu primeiro projeto é um projeto de lei para criar educação obrigatória sobre questões LGBTQ para professores e políticos. Mas ele acrescenta: “Eu quero ser uma ferramenta para a democracia. As pessoas que não têm voz devem usar-me por qualquer motivo que quiserem. ”

A vitória de Bolsonaro, diz ele, não foi tão ruim para o Brasil. “As pessoas estão realmente prestando atenção à política agora, e isso é algo que o dinheiro não pode comprar”, diz ele. Ele compara o interesse renovado do Brasil em questões sociais ao aumento nos EUA de candidaturas progressistas como Alexandria Ocasio Cortez nas eleições de meio de mandato do presidente Donald Trump.

Miranda acredita que as idéias conservadoras de Bolsonaro não necessariamente encontram apoio amplo na sociedade brasileira, e argumenta que o sucesso do político deveu-se mais ao seu esforço contra a corrupção no momento em que eclodia a maior investigação de corrupção no governo no Brasil. “O que ele representa, de certa forma, é a esperança de mudança.” O grande desafio para Miranda é moldar essa motivação para a mudança em algo que não prejudique os brasileiros mais vulneráveis.

Texto original: Ciara Nugent
Tradução: Luiz Coelho

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