[observatório g] EXCLUSIVO: David Miranda fala sobre assumir o cargo de Jean Wyllys em Brasília

25 de janeiro de 2019 14h44

Com a decisão do deputado eleito Jean Wyllys de não assumir o mandato e viver fora do país devido a inúmeras ameaças de morte, David Miranda é o nome do político que assumirá o mandato. Assumidamente LGBT, o carioca defende causas semelhantes às de Wyllys, e trabalhou também ao lado de Marielle Franco.

Quem é David Miranda:

David é carioca, nascido no Morro do Jacarezinho, foi criado por sua tia após perder a mãe aos 5 anos de idade. Aos 13 largou a escola e trabalhou como engraxate, flanelinha e por fim como atendente de telemarketing. Hoje, David é formado em jornalismo, pai de dois meninos com quem constitui uma família juntamente ao seu esposo Gleen Greenwald (jornalista investigativo). David e seu marido receberam notoriedade nacional após trabalharem na campanha pelo asilo de Edward Snowden, ex-administrador de sistemas da CIA que revelou ao mundo que a NSA espionava a Petrobrás com fins de beneficiar os EUA nas transações com o Brasil.

Histórico

Filiado ao PSOL após receber apoio de Luciana Genro em 2014 no caso Snowden, David foi eleito vereador em 2016 no Rio de Janeiro. Concorreu a um cargo federal como deputado nas últimas eleições e não recebeu um montante de votos o suficiente para sua eleição. Mas após o autoexílio de Jean Wylls, Miranda substituirá seu colega de partido até 2022 na Câmara dos Deputador em Brasília.

David, seu marido, Gleen, é o responsável por seu despertar político ou antes dele você já era engajado em projetos sociais e com o ativismo?

Comecei a acompanhar mais política a partir do meu trabalho no caso Snowden. Mas foi a partir de junho de 2013 aqui no Brasil que eu comecei a me interessar e me informar mais sobre a política nacional, fui às ruas também e comecei como ativista aqui no Brasil.

Através de Gleen, você teve a oportunidade de trabalhar na campanha de asilo a Edward Snowden no Brasil, você ainda mantém contato com o norte americano?  Nós iniciamos a campanha de asilo ao Edward Snowden aqui no Brasil com o Juntos. Recolhemos mais de 1 milhão de assinaturas e levamos para Brasília. Mas mantemos contato sim, sempre que podemos vamos lá visitá-lo.

Snowden é um parceiro de trabalho a você e ou ao Gleen?

Eu e Glenn somos parceiros de trabalho e trabalhamos juntos nas revelações do Snowden.

Carreira política

A sua carreira política é curta até então, um projeto ainda em ascensão. Há 2 anos você faz parte da câmara de vereadores do Rio de Janeiro. Como vereador, qual projeto aprovado você mais se orgulha de ter protagonizado?

Fizemos muita coisa nesses dois anos. Tivemos a Lei que garante o pagamento dos servidores do Rio de Janeiro como prioridade na folha de pagamento, antes mesmo do prefeito e seus secretários, empresários e bancos. Também tivemos a Lei que garante o uso do nome social por parte de travestis e pessoas trans nos órgãos do município, que garante a contratação de artistas locais em shows pagos com dinheiro da cidade; e sem dúvidas me dão muito orgulho.

Para quem não sabe e não o conhece, qual é a função de um vereador e quais trabalhos você desenvolveu pelo estado do RIO? Um vereador é responsável por legislar, ou seja, criar e mudar Leis em benefício da cidade. Mas também temos a função de fiscalizar o executivo, no caso a Prefeitura. Mas para além disso acreditamos que o mandato seja uma ferramenta a serviço das lutas do nosso povo, dos trabalhadores, da juventude, dos movimentos sociais etc… ser um parlamentar é ser uma espécie de amplificador dessas demandas para dentro e fora da institucionalidade. Mas mesmo na Câmara, sempre mantendo também nossa presença nas redes e nas ruas.

Caso Marielle

Você e Marielle Franco eram amigos pessoais e parceiros de trabalho. Os projetos de Marielle continuam nas pastas do PSOL? No ano passado conseguimos realizar uma sessão onde aprovamos em primeira instância diversos dos projetos de Lei da Mari. E sem dúvidas vamos seguir lutando em seu nome e por sua memória.

Você acredita que a sociedade terá a resposta de quem matou e quem mandou matar Marielle? Qual é a maior importância de que isso se resolva ao seu ponto de vista? Alem de que a justiça seja feita a favor de uma vítima da violência, é claro.

Espero que tenhamos respostas logo. É um atentado não só contra uma vida individual, mas contra a o Brasil e a nossa ainda incompleta democracia. Se crimes como esses não são resolvidos entraremos em uma lógica muito perigosa. Temos que continuar acompanhando e exigindo justiça.

Marielle Franco, sua amiga, se posicionava contra a milícia e a atuação truculenta de policiais militares no Rio de Janeiro e foi assassinada brutalmente por um fuzilamento dentro de seu carro, Jean Willys também era um parceiro de partido, mas por qual motivo você acredita que Jean incomodou tanto? O Jean é a pessoa que mais sofre com calúnias e fake news. São muitas as ameaças que ele sofre. Segundo relatório da Comissão Interamericana de Direitos Humanos, o Estado Brasileiro não consegue garantir a segurança do deputado. Temos que respeitar sua decisão.

Últimas eleições

Em 2018 você participou da corrida eleitoral como deputado federal e não conseguiu eleger-se. Mas após a anunciação de que o deputado eleito Jean Wyllys(PSOL) terá de se autoexilar devido a inúmeras ameaças de morte e chacotas por inclusive desembargadores da república, você o substituirá! Como se deu esta substituição? Por que, você, David, é o escolhido?

Não é uma questão de escolha. Eu era o primeiro suplente do PSOL aqui no Rio de Janeiro. Fui o quinto mais votado, logo depois do Jean. Qualquer um dos nossos deputados do Rio que tivessem saído eu teria assumido a cadeira.

Ainda no tocante a triste realidade vivida por Jean Wyllys, você acredita que o ex deputado pretende processar as figuras públicas e também servidores que o ofenderam e o ameaçaram? Ele vêm já há um tempo processando aqueles que o caluniam nas redes. Inclusive recentemente o agora Deputado Alexandre Frota foi condenado por injúria e difamação por compartilhar em sua página frases em defesa da pedofilia que ele atribuía ao Jean.

O que esperar do cargo

O que a sociedade pode esperar do jornalista David Miranda dentro da câmara dos deputados em Brasília? Continuar e ampliar o trabalho e as lutas que já temos feito no Rio. Seremos oposição a esse governo dos ricos que quer vender nosso país e retirar direitos do nosso povo. Defenderemos os avanços democráticos e os marcos da Constituição de 88. E seremos também porta-voz daqueles que estão em luta, da juventude nas favelas, da população LGBT, etc.

Por Rangel Querino com entrevista de André Junior para Observatório G