Crivella cerca a Prefeitura, bate em manifestantes e revolta o Rio

14 de setembro de 2018 13h55

Autoritária e violenta, política de segurança de prédio da Prefeitura do Rio humilha manifestantes e jornalistas!

Não é mais possível admitir o que acontece na Cidade Nova, no Centro Administrativo São Sebastião, principal prédio da administração municipal, toda vez que há alguma manifestação por ali – por menor que ela seja. É uma lista imensa de abusos flagrados pela nossa equipe apenas nos últimos 10 meses, tendo como principal vilã a Guarda Municipal. A brutalidade ocorre mesmo que, neste período, nenhuma manifestação violenta, por parte da população do Rio, tenha ocorrido na sede da Prefeitura.

Crianças e mulheres que lutavam por moradia levaram cassetadas em novembro de 2017 e agosto de 2018. Jornalistas, em janeiro, e vereadores, em julho, foram ameaçados por guardas. Em setembro, jornalistas foram impedidos de filmar e também levaram cassetadas. Também em setembro, camelôs foram espancados, detidos e arrastados para fora do prédio. Teve também omissão de socorro a uma senhora que estava infartando. Com uma frequência inacreditável, a Guarda Municipal isola o prédio, fecha as entradas e proíbe o ingresso de pessoas. Proíbe até mesmo o uso de banheiros. Faz tudo sempre quando quer, sem qualquer protocolo, obedecendo apenas ao preconceito e ao autoritarismo do prefeito (ou da chefia da Guarda Municipal). Para piorar tudo isso, uma novidade: agora são os próprios agentes da Guarda Municipal que servem de interlocução com o Gabinete do Prefeito. Que democracia é essa?

Flagramos tudo e agora trazemos com detalhes, em texto, fotos e vídeos, todas essas denúncias. A partir delas, cobramos a administração municipal, o prefeito Marcelo Crivella, o Gabinete do Prefeito, o secretário de Ordem Pública Paulo César Amêndola, a Chefe da Guarda Tatiana Mendes e o secretário da Casa-Civil, Paulo Messina, para que medidas imediatas sejam tomadas para evitar novos conflitos e para garantir a o princípio da democracia no trato com os cidadãos e com os grupos organizados do Rio de Janeiro.

Aqui as denúncias, caso a caso.

NOVEMBRO DE 2017: Racismo e violência contra sem-teto, jornalista e vereador:

Essa história começa em 8 de novembro de 2017. Cerca de 70 pessoas – muitas mulheres e crianças – da Ocupação Povo Sem Medo, da Pavuna, promoveram uma manifestação na Prefeitura para pressionar a Secretaria de Habitação a, finalmente, marcar uma reunião com o grupo, que ocupa um terreno abandonado há 30 anos na Favela da FICAP.

Quando viram o grupo, de maioria negra, se aproximar do prédio, os Guardas Municipais fecharam a entrada principal rapidamente, deixando todos na rua, do lado de fora. O fato escancarou um racismo absurdo, já que, um dia antes, também cerca de 70 pessoas, servidores da pasta do Meio-Ambiente, puderam utilizar o hall de entrada para manifestar contra o rebaixamento da pasta pelo perfeito Marcelo Crivella.

Um jornalista, servidor de nosso mandato, tentava explicações para a diferença de tratamento. Gravava dois guardas, servidores públicos em serviço, que fechavam o portão. Foi quando um deles ameaçou: “se você me filmar, você vai preso”!

O que já estava ruim ficou péssimo. Alguns manifestantes, dispersos, tentaram ingressar no prédio por uma outra entrada (o centro possui quatro entradas distintas, mais a entrada dos veículos). O grupo, novamente, foi impedidos pelos Guardas, que, sem qualquer necessidade, começaram a agredir aqueles que se avolumavam nas grades! Pior mesmo foi para uma senhora de 59 anos, que teve uma fratura num dos dedos da mão!

 

JULHO DE 2018: Violência contra manifestantes e ameaça contra vereador

Em 11 de julho, após o escândalo da reunião de Crivella com lideranças evangélicas, na qual o prefeito oferecia flagrantes vantagens corruptas, um grupo bem pequeno (que cabia num único elevador) fez um protesto inusitado, pacífico e bem-humorado: subiu alguns andares do prédio, passou em algumas repartições procurando Márcia, famosa assessora de Marcelo Crivella que conseguiria furar a fila do Sistema de Regulação para marcar cirurgias de catarata.

Tudo ia bem. Como se pode ver nas imagens, não havia qualquer indício de violência, até que os guardas municipais decidiram proibir a manifestação, encerrar o protesto. É claro que não fizeram isso na conversa, mas decidiram pela força bruta, impedindo a passagem de mulheres e forçando o corpo sobre elas. Por muito pouco, uma porta de vidro não se quebrou sobre todos. O vereador David Miranda estava neste momento. Em seu ouvido, o mesmo guarda que havia ameaçado de prisão o jornalista em novembro de 2017 ameaçou o vereador, como também podemos ver neste vídeo.

AGOSTO DE 2018: Povo Sem Medo apanha de novo da guarda na Prefeitura

Em 28 de agosto, mais um dia para esquecer. Outra vez, as vítimas foram as famílias pobres da Ocupação Povo Sem Medo, da zona norte do Rio. Cerca de 60 delas procuraram a Prefeitura para protocolar um documento junto à Secretaria da Casa Civil, depois do secretário Paulo Messina enrolar o grupo por dois meses, sem marcar qualquer reunião, como havia prometido.

O primeiro abuso se deu quando parte do grupo conseguiu ingressar no prédio. Os guardas fecharam o portão para aqueles que ainda estavam fora. Depois, os guardas cercaram as pessoas que entraram e, como se terroristas fossem, os isolaram entre o portão principal de entrada e o hall de entrada do prédio. Por ali, permaneceram, no sol, sem acesso a banheiro, por mais de duas horas.

De uma hora para outra, a Guarda decidiu expulsar o grupo que já havia entrado. Sob a recusa de um dos manifestantes, um dos guardas não titubeou e, sem qualquer negociação, pegou o homem pelas costas, o arrastou escadaria abaixo e jogou-no na calçada. Um flagrante despreparo. O homem resistiu e uma imensa briga se armou. O despreparo da Guarda fica evidente no vídeo abaixo. O homem detido foi levado até uma van. Teve de ser atendido no Hospital Souza Aguiar com diversas lesões.

SETEMBRO DE 2018: Secretário marca reunião com camelôs, mas envia guardas para negociar. Guarda fecha Prefeitura e bate em camelôs que tentaram entrar em prédio anexo

O último dia 5 de setembro foi mais um para envergonhar a Prefeitura do Rio de Janeiro, se é que essa Prefeitura ainda tem alguma vergonha do que faz. O Movimento Unido dos Camelôs havia marcado uma reunião com o secretário de Ordem Pública, Paulo César Amêndola, ex-agente do DOI-CODI, o mais terrível órgão de repressão da ditadura militar. Para acompanhar a comissão que seria recebida, um grupo de cerca de 150 pessoas, em passeata pacífica, também se dirigiu para a Prefeitura.

No entanto, no caminho, o secretário desmarcou a reunião e, claro, fechou os portões da Prefeitura para mais essa categoria, que, como todas, merecem ser respeitadas, ouvidas, recebidas. Para piorar, nem a secretaria nem o Gabinete do Prefeito, tampouco a secretaria da Casa-Civil mandaram representantes para conversar com o grupo. Adivinhem quem ficou de interlocutor da Prefeitura com os camelôs? Sim, agentes da Guarda Municipal. Trocando as palavras, são homens armados que são enviados para conversar com a população do Rio de Janeiro.

Nesta interlocução, os guardas prometeram uma reunião para o grupo e chegaram a pegar os nomes da comissão que subiria para o encontro (foto abaixo). Os camelôs esperaram por três horas e quando pressionaram o Guarda por uma resposta, receberam a notícia de que nenhuma reunião seria realizada.

Indignados, os camelôs procuraram outras entradas do prédio. Três foram fechadas. Nem mesmo individualmente os trabalhadores puderam ingressar, num flagrante desrespeito. O grupo, então, se encaminhou, pacificamente até um prédio anexo, onde funciona a Coordenação de Controle Urbano. Ao ingressar no pátio deste prédio, o grupo foi covardemente agredido por guardas municipais. Uma mulher levou um soco forte no estômago. Um assessor do mandato de David Miranda, que tentava filmar o que acontecia dentro do pátio, foi agredido por um cassetete (vídeo abaixo). A confusão terminou na delegacia. Guardas denunciaram os camelôs por invasão. Camelôs denunciaram os guardas por agressão.

Essa covardia tem que acabar!

A Prefeitura do Rio de Janeiro é um órgão público importante, representante máximo do Poder Executivo local, ferramenta fundamental para o exercício da democracia carioca, uma conquista popular de quem que por séculos foi escravizado e tratado da pior maneira possível. Não admitiremos que poucos grupos de uma elite – seja política, econômica ou religiosa – tomem a Prefeitura como se donas delas fossem.

Crivella, você não é o dono da Prefeitura. Amêndola, o Centro Administrativo São Sebastião não é um protetorado seu. Por isso, não podem ser vocês que decidem quem entra ou quem não entra nos portões destes prédios!

Por mais que a gestão Crivella –  e o próprio Crivella  – seja entusiasta da ditadura militar, a cidade do Rio de Janeiro exige uma gestão com espírito democrático, que receba a população e os grupos organizados com respeito e segurança.

O Prefeito tem que receber os seus amigos, mas também quem não o conhece. O secretário da Casa-Civil Paulo Messina também tem esse compromisso. Não pode delegar a Amêndola ou, ainda pior, a Guarda Municipal o trabalho fundamental de diálogo com a população.

Vamos recorrer a todos os meios possíveis para exigir mais respeito no acesso ao Centro Administrativo São Sebastião!