5 motivos EMERGENCIAIS para a volta dos cobradores aos ônibus do Rio

27 de agosto de 2018 16h44

Prefeito Crivella, regulamente imediatamente a lei e devolva os cobradores aos ônibus do Rio! Não é mais possível esperar! Aqui estão 5 dos principais motivos!


1. Evitar mortos e feridos

“O motorista de ônibus é o profissional que carrega o bem mais precioso do mundo: as pessoas”! (gritou um motorista de 52 anos, que agora também é cobrador)

 

Aumento no número de acidentes foi de 37%, segundo movimento Volta Cobrador – foto: http://2.bp.blogspot.com/

Nenhuma política pública pode servir para deixar o cidadão mais sujeito à morte. Política pública serve, prioritariamente, para proteger vidas. A retirada de cerca de 15 mil cobradores dos ônibus no Rio na última década representa uma grave ameaça à vida dos motoristas de ônibus, de passageiros, pedestres, ciclistas, motociclistas, do trânsito em geral, de todas as pessoas da cidade.

Não há números oficiais para quantificar essa tragédia na vida carioca. Mas o Movimento Volta Cobrador aponta que o número de acidentes envolvendo ônibus aumentou 37% na cidade do Rio desde a implementação da medida. Quem dirige ou apenas anda de ônibus percebe, rapidamente, os motivos do aumento do perigo.

O motorista perde atenção ao ter que lidar com um número muito mais expressivo de atividades. Além de guiar o veículo de mais de 20 toneladas num dos trânsitos mais caóticos e violentos do mundo, em vias expressas de alta velocidade e em ruas com milhares de pedestres, o motorista ainda tem que receber o dinheiro, dar troco, autorizar a roleta, conferir se o passageiro passou, verificar se bateu a meta de passageiros carregados por viagem. Soma-se a isso, a missão de informar os passageiros de rotas e alternativas num sistema caótico de linhas, números e caminhos, bagunçado sobremaneira nos últimos três anos. E ainda acrescente a obrigação de operar todos os sistemas dos veículos, sejam os de acessibilidade a portadores de deficiência, sejam de sinalização de trânsito num caso de pane, por exemplo.

Há dez anos, cobradores são retirados dos ônibus do Rio de Janeiro. Motoristas passaram a fazer tudo dentro do coletivo – e não receberam qualquer aumento por isso.

Com a atenção fragmentada, o motorista dirige com menos capacidade, mais sujeito a acidentes. Isso já seria péssimo por si só, mas há ainda outros fatores agravantes.

Saúde do trabalhador | Grupos de motoristas atestam que há um alto crescimento de doenças relacionados ao trabalho. Com o corpo e cabeça muito mais exigidos, motoristas têm relato dores nas costas, dores nas articulações das pernas (situação agravada pela má condição de alguns veículos, com freios gastos, que descem serras íngremes, como, por exemplo, a Grajaú-Jacarepaguá). No contexto de desemprego, o motorista se submete a jornadas duras, quase sem condições, com receio do desemprego. Muitos estão trabalhando sob efeito de remédios para dores.

Tem rodoviário tomando antidepressivo, tem rodoviário indo pro INSS, o número de acidentes aumentou 37%, o número de multas aumentou, então a vida do rodoviário hoje com a dupla-função se tornou um inferno. (Valdir Santos, rodoviário)

Condição das vias | A cidade administrada por Marcelo Crivella tem vias em péssimas condições em todas as regiões da cidade. E a Avenida Brasil é aquela prova cabal da dificuldade de trafegar na cidade. São buracos imensos, blocos de concreto desalinhados, falta de sinalização e de iluminação, um caos completo. Na via mais importante da cidade, é ainda mais perigoso ser cobrador e motorista ao mesmo tempo.

Risco de assaltos e outros crimes | O caixa dos ônibus saiu da parte central do ônibus, onde ficava o cobrador, para ficar exposto logo na porta de entrada. Com o dinheiro mais exposto, o motorista é orientado muitas vezes a guardar as notas consigo, o que aumenta o a chance de um assaltante enfrentar diretamente o trabalhador. Qualquer pessoa que anda de ônibus sabe que a presença de cobrador, no meio do veículo, também ajuda numa situação de risco, seja para prever algum crime, seja para comunicar algo ao motorista ou mesmo à polícia.

Grupo mobilizado de cobradores e motoristas têm lutado pelo fim da dupla função, sob omissão do sindicato da categoria.

“O risco de vida aumentou muito, muito…o dobro, infelizmente quem comanda são os empresários. Os empresários fazem o que quer, entendeu? E ninguém toma nenhuma providência” (motorista de 34 anos, que preferiu não se identificar).

2. Retomada de 15 mil empregos

O Rio de Janeiro, todos sabem, vive uma gravíssima crise de emprego. Nos últimos três anos, aumentou em 157% o número de desempregados no Rio, aponta o IBGE. Esse número é parte do resultado da demissão em massa de cobradores da cidade do Rio de Janeiro – e de todo o Estado. O número gira em torno de 15 mil demissões. São homens e mulheres que têm passado necessidade, com dificuldade para manter suas famílias.

O drama do desemprego pôde ser sentido na votação do fim da Dupla Função, na Câmara Municipal do Rio, em novembro do ano passado. Muitos dos cobradores demitidos eram senhores e senhoras já com uma certa idade. A demissão é ainda mais cruel para este grupo que sofre com a dificuldade de se recolocar. Foram demitidos de uma categoria que não pode ser extinta aqui no Rio! Vários desempregados choravam pela esperança de terem seus empregos de volta.

O retorno do emprego é essencial para que o Rio de Janeiro saia da grave crise!

Rodoviários choraram na galeria da Câmara no dia da aprovação da lei que proíbe a dupla função.

“Muita gente dizia que a gente era louco, que os cobradores nunca iriam voltar”, disse Valdir Santos, um dos rodoviários mais mobilizados e emocionados pela causa

3. Mais rapidez, mais tempo com a família

O Rio de Janeiro figura entre as dez cidades com piores trânsitos no mundo em qualquer ranking apresentado por estudos internacionais. E sabemos como a perda de tempo no trânsito é drástica para a perda de qualidade de vida e, também, da capacidade da economia.

A dupla função nos ônibus do Rio deixa o trânsito do Rio de Janeiro ainda pior. O motivo é simples: o motorista, que agora também é cobrador, tem que lidar com a venda da passagem. Aumentam as filas na entrada dos coletivos, com pessoas de pé do lado de fora, esperando a sua vez na roleta.

À espera do cobrador: filas, fora dos ônibus, estão cada vez mais comuns na paisagem do Rio de Janeiro

“Com esse bagulho da dupla função ficou muito mais demorado! De um tempo para cá, o ônibus que demorava 1 hora até em casa, tá demorando quase meia hora mais”. (Edilmara Martis, 34 anos, moradora de Realengo).

A demora para sair do ponto não atrapalha a viagem apenas daquele ônibus. Como no Rio todos os veículos partilham as mesmas vias, à exceção das linhas de BRTs, qualquer demora no ponto significa atraso para todos os motoristas e passageiros que vêm atrás.

4. Já é lei!

A lei de autoria do vereador Reimont que garante o retorno dos cobradores, proibindo a prática da dupla função nos ônibus do Rio, foi aprovada pela Câmara Municipal do Rio em novembro de 2017 pela quase unanimidade dos vereadores – apenas o vereador Leandro Lyra do NOVO votou contra. Até mesmo os vereadores que patrocinaram o papelão da CPI dos Ônibus, que protegeram os maiores empresários e políticos do esquema dos Transportes, votaram a favor da lei. Assim como a base do governo de Crivella. O prefeito, no dia da votação, prometeu que a lei seria sancionada rapidamente (o surpreendente é que ele cumpriu a promessa, algo raríssimo).

Fernando Mac Dowell, em dezembro de 2017, falou que cobradores deveriam voltar. Foi expulso da Secretaria de Transportes em janeiro de 2018. Morreu em maio.

Crivella sancionou a lei 6.304 em dezembro de 2017, sob aprovação de Fernando McDowell, então vice-prefeito e secretário de Transportes, respeitado especialista da área. McDowell já havia falado meses antes, na própria CPI dos Ônibus, ser a favor do retorno dos cobradores, sobretudo, pela questão da segurança.

Crivella trouxe Rubens Teixeira para Transportes, e o Rio voltou a ter uma prefeitura na mão dos empresários de ônibus.

 

 

 

Só que virou o ano e McDowell perdeu seu lugar na secretaria para o aventureiro Rubens Teixeira, um leigo completo do assunto, que havia sido retirado da Presidência da Comlurb por ordem da Justiça. A Prefeitura, que em 2017 havia se posicionado diversas vezes contra o empresariado de ônibus, voltou a fazer a política de Eduardo Paes, um esquemaço que beneficia um pequeno grupo de empresários e políticos da cidade e do Estado.

O ex-secretário Demóstenes Dantas recebeu o Movimento Volta Cobradores, provou que não sabia nada do assunto e apenas enrolou a cidade.

Com essa mudança, a tarifa aumentou e ficou faltando a regulamentação da lei, que é o documento necessário para apontar como se dará a volta dos cobradores – sobretudo o prazo.

Rubens Teixeira enrolou e não regulamentou. Seu sucessor Demóstones Dantas, que pouco ou nada sabia de transportes também, foi outro que apenas enrolou. Agora quem enrola é a secretária Virgínia Maria Salermo.

 

5. Mais cobrador, menos máfia!

A volta dos cobradores é um passo fundamental para seguirmos lutando para que o transporte público seja de fato um serviço digno e justo para o cidadão. A retirada dos cobradores foi, aqui no Rio, mais uma manobra da Máfia que domina os Transportes, uma aliança entre os principais empresários do setor com políticos, sobretudo do PMDB, como apontado pela Polícia Federal e pelo Ministério Público Federal, que já conseguiram a prisão de muitos deles como Jorge Piccianni, Paulo Melo, deputados estaduais, e Jacob Barata Filho, megaempresário do setor. Nesta última semana, pela primeira vez, Barata assumiu que as propinas aos chefões do PMDB seguem sendo pagas há mais de 20 anos! Desde o século passado!

População indignada com a roubalheira nos Transportes foi até a Alerj exigir a prisão de Jorge Piccianni e outros quadrilheiros. Foto: Rithyele Dantas

O esquema de corrupção aqui na cidade do Rio teve sua grande celebração na assinatura do contrato de concessão em 2010, no governo Paes. Este esquema é minuciosamente apontado no relatório alternativo da CPI dos Ônibus do vereador Tarcísio Motta, também candidato a governador pelo PSOL.

A retirada dos cobradores ajudou os empresários a diminuírem seus gastos com pessoal, mas não significou a baixa no preço da passagem. Pelo contrário. Agora os mafiosos dos transportes do Rio atacam dizendo que a volta dos cobradores significaria aumento no preços das passagens, ou então uma quebradeira das empresas.

Jorge Picciani está preso (em prisão domiciliar) por liderar Máfia dos Transportes do Rio. Foto: Wilton Jr/Estadão Conteúdo

A falência de algumas empresas do setor na cidade realmente é preocupante. Mas precisa ser muito bem analisada. Sob omissão da Prefeitura, do Legislativo e da Justiça, não há qualquer transparência nos caixas das empresas de ônibus da cidade, o que impede de sabermos os reais motivos dessas falências.

É preciso que se abra a caixa-preta dos transportes! Que a população passe a opinar e, como deve ser em uma democracia, decidir sua política de transporte! É preciso uma revisão urgente da concessão! É preciso que o cobrador volte urgentemente para os ônibus do Rio!