Quem tem “parte com Deus”, vereador Otoni?

17 de julho de 2018 10h17

Deus não é propriedade de ninguém, pastor Otoni de Paula. Deus não é seu, não é meu. Deus está no coração e nas mentes das pessoas que amam, que temem, que sonham. Pessoas que acordam cedo, que dormem tarde, que encontram na relação com Deus suas explicações, seu destino, sua coragem.

Deus ama sim os homossexuais, sujeitos como eu, que dão e recebem amor pela boca, pelo abraço e, sim, pelo ânus também.

Há muitos deuses. E todos, não apenas o seu, merecem ser respeitados. Existem muitos deuses e não apenas esse que você inventou. Aliás, será mesmo que existe esse Deus intolerante, vulgar, fiscal de ânus alheio?

Jesus foi um sujeito político, que usou a fé para lutar por uma sociedade mais justa e tolerante, bem como fez o pastor Martin Luther King, Malcom X e irmã Dorothy Stang – bem ao contrário do que você faz. Você sobe no altar e prega amor, mas parece que esse amor só está nos seus lábios e não em seu coração. Longe da igreja, do nosso lado na Câmara de Vereadores, você tem se mostrado um político desequilibrado, embriagado em seu ódio.

Disse que Anita mais parecia uma prostituta, pelo jeito que ela dança. Disse que a Disney promoveu pedofilia ao colocar um casal gay, como eu e meu marido, se beijando num desenho qualquer. Disse que realmente era necessário investigar se Marielle não havia sido eleita com ajuda do Comando Vermelho. Vulgaridades dessas para quem “tem parte com Deus”?

Na quinta, você me chamou de “mulherzinha” quando eu apontei sua hipocrisia! Fez uma dancinha homofóbica, criando trejeitos ofensivos para me machucar. Você acha que ser mulher é ser menor. Você acha que ser gay é ser menor. Esse é o tamanho da sua pequeneza: preconceito que semeia e colhe violência do país que estupra uma mulher a cada 11 minutos, que mata um LGBT a cada 19 horas.

Você não sabe como dói, Otoni. A dancinha que você fez para mim na frente dos nossos colegas de trabalho, dos jornalistas, de toda a cidade DÓI. Me mantive firme e forte ali na frente, mas chorei quando subi para minha sala. Não por você ou pelo seu gesto, mas porque essa é uma expressão da triste realidade da nossa política. Eu sofri na escola, sofri muito na minha infância por ser LGBT.

Saí de casa aos13 anos, trabalhei e sobrevivi, Otoni. Cresci e me tornei o primeiro vereador assumidamente LGBT da Câmara de Vereadores do Rio, que já tem mais de 450 anos de história. Essa é uma conquista de muitos cariocas, algo que orgulha milhões. Pessoas que sabem que todos os lugares são nossos: as ruas, os templos, os parlamentos, as Prefeituras.

Não mediremos o mundo com sua régua. Respeitamos o Deus que você acredita, espero de verdade que Ele te perdoe. Mas nós não aceitaremos as agressões.

Nos veremos na Justiça e no Conselho de Ética da Câmara.