Sem pedir licença, LGBTs tomam Câmara do Rio em noite histórica

18 de maio de 2018 14h38

O plenário do Palácio Pedro Ernesto, tão acostumado a ternos pretos de homens brancos, ficou cheio de brilho e cor no Dia Internacional de Combate à Homofobia.

Foram três horas para nunca mais esquecer. A Câmara de Vereadores do Rio, em seus 543 anos, nunca viveu uma noite como essa. No evento DiverCidade – Ocupando a Câmara na luta por direitos, eram gays, lésbicas, bissexuais, travestis e transexuais, eram pessoas diversas, de todas as orientações sexuais e identidades de gênero. Eram jogadores de futebol, defensora pública, artista, ambulante, militante. Eram muitas vítimas da LGBTfobia e muitos lutadores da nossa comunidade LGBT. Na data em que o mundo comemora o Dia Internacional de Combate à Homofobia, centenas de LGBTs ocuparam à Casa do Povo do Carioca para gritar que existimos, que não toleramos ser assassinados e insultados, que exigimos que nossos direitos sejam respeitados, inclusive por preconceituosos com cargos públicos, como o prefeito Marcelo Crivella! Foi uma noite para homenagear quem tanto fez ou faz pela comunidade LGBT! Uma noite para lembrarmos de Marielle e Matheusa, Dandara e Verônica Bolina. O 17 de maio foi a oportunidade perfeita para beijar na boca onde figuras como Bolsonaro trabalham e adicionar amor onde o ódio reina.

Fotos (a partir dessa) de Guilherme Prado

O vereador David Miranda, primeiro parlamentar eleito assumidamente gay na Câmara do Rio, foi o organizador do evento e quem abriu as falas da noite. Ele destacou que hoje legisla na cidade como um representante da comunidade LGBT, como uma parte da comunidade LGBT. “Eu sofri o que vocês sofreram. Eu sei olhar para vocês e ver que nós conseguimos chegar aqui. Mas tem uma molecada que ta no ensino médio que esta sofrendo tanto quanto a gente sofreu. Esse evento aqui é para fortalecer a gente como comunidade. É para lembrar que a gente cresceu, que a gente conseguiu sobreviver”, disse David. Ele se emocionou muito em diversos momentos do evento, como na homenagem por Marielle! 

“Gosto de ver vocês sentados na cadeira de vereadores que acham que podem pautar políticas em nosso nome”. (David Miranda)

Joana Santos, mulher transexual, lembrou da violência contra a população trans no Brasil, o país que mais mata essa população em todo o mundo. “Os corpos das mulheres trans têm o destino que a minha amiga Matheusinha teve: eles são carbonizados, destroçados, mutilados. É muito nítido o ódio por detrás desses atos, justamente no maior país católico do mundo”. Sempre é bom ressaltar esses números: apenas em 2017, foram 179 pessoas transexuais mortas no Brasil, segundo levantamento da Associação de Travestis e Transexuais do Brasil. Já segundo o levantamento do Grupo Gay da Bahia, foram 447 LGBTs mortos no ano passado. Levantamentos recentes apontam que um LGBT é morto no país a cada 19 horas! A expectativa de vida de uma pessoa transexual é de 35 anos! Números inaceitáveis!

Indianara Siqueira, vereadora suplente do Rio, também mulher transexual, subiu à Tribuna Marielle Franco para alertar sobre o retorno do crescimento da epidemia de AIDS no Brasil, que ainda atinge bastante a população LGBT. Ela cobrou que o Estado cumpra seu dever de prestar todo o tratamento necessário para as pessoas contaminadas pelo vírus e pela doença. No fim, Indianara puxou uma palavra de ordem que diz muito sobre nosso movimento: “meu CU é laico, meu CU é laico”!

“Pessoas com HIV AIDS estão voltando a morrer num país que era referência”. (Indianara Siqueira)

Pablo Fontes, presidente do Grêmio Estudantil da Escola Visconde do Cairu, no Méier, também esteve no evento. Ele, mesmo que ainda muito jovem, foi lá e se apresentou como um adolescente bissexual, numa atitude que mostra como a luta por representatividade na política também pode ser fundamental para jovens cariocas. Ele utilizou seu espaço para denunciar um caso que ocorrera naquele mesmo dia: “sou bissexual, a maioria dos meus amigos são gays. Fomos pegar um ônibus hoje e começaram a gritar “Seus viadinhos, vocês não vão entrar não. Deu uma confusão. Um dos meus amigos levou um chute. E, infelizmente, esse é só mais um relato de um de nós, que nessa sociedade tão cruel, é violentado”, lamentou.

Benny da Rosa, assessora parlamentar em Niterói, esteve no ato representando o mandato de Talíria Petrone. Ela, mulher negra e transexual, fez questão de pontuar que, mesmo dentro da comunidade LGBT, existem grupos ainda mais vulneráveis. Como fazia Marielle em seus discursos, Benny delimitou com detalhes quem é essa população: “É importante, no dia como esse, destacar que o combate à lgbtfobia que nós fazemos é um combate de raça, de classe e de gênero”, lembrou.

“O sangue que jorra ardendo e doendo no estado do Rio de Janeiro é o nosso sangue”. (Benny da Rosa)

Júlio Moreira, um dos organizadores da Parada LGBT do Rio, através de seu trabalho no Grupo Arco-Íris, falou sobre o desmonte das políticas públicas de proteção e atendimento da população LGBT vítima de violência. Criticou o governo de Luiz Fernando Pezão, que destruiu o Rio Sem Homofobia, uma verdadeira referência nacional neste tipo de trabalho. “Muito triste ver um programa como o Rio Sem Homofobia, construído com muita luta, ser destruído pela intervenção militar”, reclamou.

“Não vamos nos calar diante do desmantelamento de políticas públicas para nossa população”. (Júlio Moreira)

A Dra. Maria Eduarda, outra mulher transexual que agigantou o evento, voltou a lembrar das mortes da população trans, mas trouxe um alento em sua fala. Ela informou que, na última terça-feira, 15 de maio, justamente no Dia Estadual do Orgulho de ser Travesti e Transexual, foi lançado, pela Polícia Civil do Estado do Rio, um protocolo de atendimento à população trans. Nesse documento, os agentes ficam obrigados a respeitar a identidade de gênero da vítima em atendimento. É obrigatório que sejam chamadas por seu nome social, se assim preferirem. É obrigatória que a divisão de peritos, por exemplo, seja de acordo com o gênero de identidade da pessoa. Um perito homem, por exemplo, não pode mais examinar uma mulher trans. Maria Eduarda disse que o protocolo também visa encaminhar os casos para a Lei Maria da Penha, quando o caso for contra uma travesti ou uma mulher transexual. “Os órgãos públicos não tem estatísticas oficiais para a violência contra LGBTs no Brasil. Esperamos que a situação melhore um pouquinho”. Como de costume, Duda, que faz parte da Frente Parlamentar de Combate ao HIV AIDS, o Preconceito e o Estigma também fez o alerta para a crise da saúde e seus efeitos na distribuição dos retrovirais para pacientes que têm AIDS.

O evento seguiu com homenagens muito emocionantes e entrega de moções de louvor e congratulações a pessoas e grupos que vêm trabalhando pelos direitos de LGBTs. Uma das partes mais emocionantes foi quando Monica Benício, viúva de Marielle, recebeu sua moção. Monica lembrou que Marielle era gigante e vai continuar sendo. “As pessoas que tentaram calar o corpo de Marielle não conheciam quem era Marielle, o poder que era Marielle. A gente tem que ocupar essa casa para garantir. Ocupar essa casa não é só nosso direito, mas nosso dever. O Brasil ainda é o país que mais mata LGBT. Eu digo ainda que eu carrego a esperança e vontade de lutar para que isso se modifique. Esse é um sonho coletivo. Marielle era parte. Marielle era força, e a gente resistência. Precisamos nos manter atentos e vigilantes”.

“É muito bom ver tantas cores hoje num lugar que sempre está ocupado por ternos pretos vestidos por homens brancos!” (Monica Benício)

Lorna Washington e Jane Di Castro, duas ícones e algumas das percursoras do movimento LGBT no Rio de Janeiro, também foram homenageadas! Jane lembrou de sua luta contra a ditadura militar e protestou contra o avanço de discursos LGBTfóbicos como no caso do deputado Jair Bolsonaro. Já Lorna, com sua maneira única de ser, fez o povo rir com suas brincadeiras e agradeceu muito pelas homenagens. Já Jane cantou o hino nacional na abertura do evento e depois uma música de Edith Piaf e, ao fim do evento, recebeu a medalha Chiquinha Gonzaga.

O coletivo Xica Manicongo, que reúne LGBTs nordestinas, fez uma apresentação maravilhosa com o poema apresentado por Bianka Fernandes, que lembrou de tantas travestis e trans mortas pela brutalidade do preconceito, caso de Dandara, Matheuzinha, Verônica Bolina.

A defensora Livia Casseres, as editoras Malu Santos e Lea Carvalha, o guia turístico Lula Sam, além dos times de futebol Alligaytors e Beescats e do Grupo Pela Vidda também foram homenageados, numa noite de plenário lotado!

Na parte final do evento, a belíssima dupla de drags queen Sara e Nina encantaram o público, cantaram Não Recomendado, A história de Mafalda, Divino Maravilhoso e, no fim, o clássico LGBT “I Will Survive”. Em inglês, I will survive significa eu vou sobreviver! E esse é um recado para todos os LGBTfóbicos desta cidade, deste estado e deste país! Nós iremos sobreviver! Iremos nos manter unidos, nossa comunidade LGBT! A Câmara, os governos, as ruas e as redes: elas são nossas por direito e por dever!

Quando terminou o evento, o público pôde conferir mais da exposição de fotos que tomou conta do saguão do Palácio Pedro Ernesto, trazendo muita polêmica para esta semana na Câmara de Vereadores. A exposição Sair do armário, Lutar por direitos expôs diversas manifestações de amor entre LGBTs no Estado do Rio de Janeiro!

Quando o público saiu da Câmara, um ato em memória de Marielle e Matheusinha deu continuidade à luta nas escadarias da Cinelândia! Lembrar dos que se foram e prometer a eles nossa incondicional  resistência por nossa segurança e nossos direitos é a maior homenagem que podemos fazer!

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