Por que sou pré-candidato a deputado federal?

02 de Maio de 2018 10h42

Um partido que quer lutar e representar os moradores das favelas, as minorias e os LGBTs deve ter candidatos que vêm da favela, cujas vidas foram moldadas pela pobreza, privação e discriminação.

Eu aprendi sobre pobreza, injustiça e discriminação sentindo na pele, como a maioria do nosso povo. Para mim, isso não é uma teoria. Essas lutas moldaram minha infância e minha vida. Estão no meu sangue e ossos. É quem eu sou. E lutar para acabar com isso é o trabalho da minha vida.

Sou cria do Jacarezinho, negro, favelado e LGBT. Sou um cara sobre o qual a vida impôs a política: não tive saída. Tive infância muito pobre, abaixo das estatísticas sociais e econômicas. Com muito trabalho, mas também com boa sorte, saí da pobreza, da fome, da miséria.

Minha mãe morreu quando eu tinha cinco anos, e nunca conheci meu pai. Aos treze anos, eu saí da casa da minha tia para ganhar o mundo.

Tracei o mesmo caminho da maioria das brasileiras e brasileiros, mas contrariei as estatísticas. Felizmente não fui mais um jovem negro morto. Indo na contramão de tudo e de todos me formei publicitário.

Tornei-me vereador do Rio de Janeiro. Por isso, tenho orgulho em afirmar que estou entre aqueles que contrariaram as estatísticas. No Brasil, ser negro, LGBT e favelado é quase uma sentença de morte.

Em 2005 conheci minha alma gêmea, Glenn Greenwald. Casamos e lutamos por propósitos grandiosos juntos.

Em um país no qual as forças repressivas e retrógradas são fortes e crescentes, não foi apenas minha infância, mas também meu casamento é inerentemente político. E agora, toda a minha família – a existência dela – também é política.

Em 2017, Glenn e eu adotamos dois meninos, de 10 e 8 anos, que estavam em um abrigo em Maceió. Quando decidimos adotar duas crianças no nordeste do Brasil sabíamos do grande desafio da paternidade. Mas declaramos: estamos apostando no nosso país, dedicados a lutar por seu futuro, porque acreditamos em seu povo.

No final de 2012, Glenn foi procurado por Edward Snowden. A partir disso revelamos para o mundo inteiro o maior esquema de espionagem da história da humanidade. Entramos em rota de colisão com os interesses da maior potência mundial. Como mostramos, o Brasil foi um dos principais alvos. Evidenciamos que a privacidade dos brasileiros é uma valorosa moeda de troca para os negócios das grandes potências. Pagam muito caro pelos nossos dados sigilosos.

Trabalhamos decisivamente na história do maior furo do jornalismo mundial deste século. Por conta dessa atuação, fui detido no aeroporto de Heathrow (Londres), e por tudo pelo que considerávamos um dos motivos mais corretos das nossas vidas: a liberdade. A liberdade de informação. Mas, sobretudo, a liberdade do cidadão comum, a liberdade de quem não é protegido pelos poderes estabelecidos.

Essas experiências – trabalhando com Snowden, ganhando meu processo contra o governo do Reino Unido sobre a minha detenção, lutando contra as facções mais poderosas do mundo – me ensinaram que as batalhas políticas não são opcionais.

Lutar pela justiça é necessário, uma obrigação – mesmo que seja sempre arriscado e perigoso confrontar facções corruptas e poderosas. E é por isso que me dediquei à política, ao PSOL e à justiça.

Quando decidi concorrer à Câmara Municipal em união com o Juntos – minha primeira tentativa de trabalho eleitoral – o que parecia ser impossível se tornou realidade. Vencemos!

Este verbo é no plural mesmo. E significa que a cadeira ocupada por mim é parte constitutiva dos “sem voz”. Como igualmente era a cadeira de Marielle, minha amiga Mari, que sentava ao meu lado no plenário da Câmara.

Exerço com muito orgulho e gratidão a minha cadeira na câmara municipal, me sinto honrado pelos cariocas que me depositaram essa confiança.

Aprovei três leis até aqui em um ano de trabalho, uma marca e tanto. Alguns que são chamados de mito não fizeram isso em décadas. Uma das leis protege a população LGBT, as outras duas protegem os servidores do município do Rio de Janeiro.

Por todo esse conjunto de causas, quero ir pra Brasília. Estou convencido que é necessário combater o perfil hegemônico conservador da Câmara Federal, quero ser um representante do Rio e do Brasil nesta tarefa – as pessoas que não têm voz, com quem eu cresci e que ainda vivem em meu coração. Para isso me coloco esse novo desafio.

Do jeito que eu sou. Negro, favelado, militante, um pai e marido, LGBT, piqueteiro, trabalhador e ao lado dos trabalhadores, sem vacilar. Anuncio minha pré-candidatura feliz e aberto aos meus amigos de sempre, muitos aos quais a sociedade não quer enxergar. Sou representante destes.

Vamos juntos com muita força!