Prefeitura do Rio passa vergonha ao tentar explicar covardia na Vila Kennedy

13 de Março de 2018 18h52

Secretários municipais não conseguem dar explicações para ação desastrosa da Prefeitura, que destruiu cerca de 30 quiosques e barracas. Braço-direito de Crivella chega a falar em “face oculta” por detrás da ação.

A manhã de sábado foi completamente constrangedora para a Prefeitura do Rio de Janeiro. O prefeito Marcelo Crivella, como de costume, não teve a coragem necessária para ir até a Praça Miami, conversar com os cerca de 30 comerciantes e seus familiares, que tiveram seu sustento arrancado no amanhecer de sexta-feira, numa covarde operação de demolição de quiosques e barracas, assinada pela Secretaria Municipal de Ordem Pública. O secretário da pasta, Paulo Cesar Amêndola, manteve a linha covarde e também não apareceu para se explicar para os empreendedores.

Quem foi obrigado a tentar limpar a barra desta cagada foram os secretários Jorge Felippe Neto, da Conservação, e Paulo Messina, da Casa Civil. Foram obrigados a ouvir o choro revoltante de pessoas como a dona Zaíra Santos, de 52 anos, 51 de Vila Kennedy, mais de 35 como camelô, 15 vivendo de sua lanchonete ao lado do ponto final do ônibus 394.

“Às vezes, ficava trabalhando até as 3 da manhã, fazendo lanches, olha aqui minhas mãos inchadas! Era de lá que eu tirava o dinheiro do meu aluguel de R$700. Vieram com retroescavadeiras e destruíram tudo: mesas e cadeiras! Faziam rindo! RINDO! A impressão é que se se nos colocássemos na frente, eles nos levariam junto! Como eu vou fazer agora? Minha filha tem 16 anos, trabalha comigo aqui desde os 4!”

O depoimento da menina jovem, experiente camelô, também foi de cortar o coração:

“A sociedade tem níveis: o alto e o baixo. Eles não se importam! Tão pouco se lixando para a gente!”

Érika de Sá era manicure na praça e também estava indignada! A maldade do governo que pouco se lixa para os seres humanos não esperou ela retirar os 38 alicates que ela tinha, no valor de 24 reais cada um! Como boa profissional que todo mundo disse que ela era, estava preocupada também com seus clientes!

“Mais do que os bens materiais, eles arrancaram nosso bem moral! Eu tinha cliente que tava marcada! Tinha 6 só ontem! Era R$180 reais! Hoje não tenho nenhum real para comprar um pão! Tenho 3 filhos! Ta certo isso?”

Não, não tá! Jorge Felippe, neto do presidente da Câmara, foi o primeiro a chegar e estava flagrantemente desconfortável com a missão. Disse que não poderia confirmar quem havia confabulado essa tragédia. Dizia apenas que tinha sido a Polícia Militar quem havia solicitado a demolição, mas se embaralhava todo para dizer quem e por que alguém da Prefeitura tinha assinado o abuso? Quando perguntado se a culpa era do secretário Amêndola, se embananava mais ainda, mostrando que tinha mais o que não podia ou não sabia dizer.

Jorge Felippe estava impaciente com a demora da chegada dos representantes da Secretaria da Fazenda que, segundo ele, passaram a noite montando um anteprojeto para reordenar a praça, com a presença de todos os comerciantes de volta. Quando o documento finalmente chegou, ele segurou em sua mão e apresentou, para agrado dos comerciantes mais calmos.

Perto do horário do RJTV, da Rede Globo, chegou o secretário Paulo Messina, da Casa Civil. Na frente das câmeras, seria ele o responsável por absorver o desgaste. A repórter Silvana Ramiro chegou questionando duro os secretários ainda antes de entrar no ar! Messina então revelou parte importante da história!

O pedido teria sido mesmo da PM e fora assinado na quinta-feira pelo Coronel Laviano, em seu último dia na subsecretaria de Operações da Secretaria Municipal de Ordem Pública. Na sexta, dia da operação, Laviano já havia saído da Prefeitura para assumir o Comando-Geral da PM do Rio. Ou seja, a instituição que seria comandada por Laviano pediu ao próprio Laviano, que, adivinhem, autorizou. A justificativa seria que, entre as cerca de 30 barracas, uma ou outra esconderiam drogas e cargas roubadas ou mesmo seriam uma extensão da boca da comunidade.

A impressão que dá é que a PM se aproveitou da presença do Exército no bairro para promover uma covardia que talvez tenha uma lógica interna. E a Prefeitura, através da caneta de Laviano, autorizou tudo isso. Crivella e Amêndola precisam responder por isso!

Antes da entrada ao vivo, Silvana Ramiro ordenou que se fizesse silêncio na praça, o que irritou um morador que xingava Crivella! Silvana e Messina conversaram ao vivo. Jorge Felippe compunha o quadro. Os três eram os únicos de olhos claros na praça, majoritariamente negra.
Quando começou a transmissão, Messina queria se enterrar num buraco. Em um caso raro e insólito, criticava a própria Prefeitura! Disse que o prefeito não sabia das demolições e até mesmo que havia uma “face oculta” na operação.

“As famílias não terem o sustento é grave. Mas tem outro problema mais grave. Estamos num momento que o Estado está querendo dizer para as pessoas da comunidade que está recuperando o espaço público, aí o Estado ao se fazer presente faz isso? Qual a mensagem que está passando? Essa é UMA FACE OCULTA muito pior! Isso que é imperdoável!”
(Paulo Messina, secretário-chefe da Casa Civil)

À tarde, uma comissão de comerciantes foi até o Palácio da Cidade para uma reunião com o prefeito que, segundo o Globo, disse que “essas coisas ocorrem”. O prefeito confirmou a reordenação da praça e disse que a partir da semana os comerciantes receberiam tendas provisórias para trabalharem nos próximos dias, além de uma linha de microcrédito e ajuda do aluguel-social, tudo remendo, ainda não concretizado.

Os comerciantes ainda têm dificuldade para dormir. São muitas perguntas que ficam girando no ar:
É para objetivos covardes que o Exército, PM e Prefeitura vão trabalhar unidos? Existe mesmo um prefeito nesta cidade? Quais os limites do secretário Amêndola? Por que Jorge Felippe e Messina foram à praça e Amêndola não? Por que ele, que é coronel reformado da PM e foi agente do DOI-CODI na ditadura, permanece no cargo? Existe um loteamento da Polícia Militar dentro da Prefeitura do Rio? O que seria a “face o oculta” a que Messina se refere? Será com posturas como essas que coronel Laviano irá comandar a PM daqui para frente? Quando, afinal, a Vila Kennedy terá o Estado pela qual tanto clama? Quando chegará a saúde, a educação, a segurança, o saneamento, a limpeza? Quando a comunidade terá trabalho, cultura, esporte e lazer? Quando, afinal, a pobreza será respeitada?