Mesmo com autorização da Prefeitura, PM causa alvoroço em evento na Zona Oeste e leva jovem preso

07 de dezembro de 2017 13h28

Muito lamentavelmente, no último sábado de novembro (25), jovens da Zona Oeste tiveram um evento que acontecia na praça Guilherme da Silveira, em Bangu, interrompido por policiais militares, com direito à exposição vexatória de jovem frente a todos que estavam no local. 

O Coletivo ZOA – Zona Oeste Ativa – composto por nove jovens da Zona Oeste do Rio de Janeiro de forma independente – há mais de dois anos produz em praça pública. Rap e funk, movimentação política por meio da arte de periferia, de favela. E, assim como já aconteceu com a maioria dos eventos que acontecem na Zona Oeste, o coletivo teve seu trabalho interferido por policiais militares, mesmo sem quaisquer irregularidades legais. Isso é inadmissível!

Lucas, 27, assistente social e um dos integrantes do coletivo, relatou que para o evento os organizadores conseguiram autorização da subprefeitura da região, o Nada Opor, mas que os policiais encrencaram porque não havia autorização do Corpo de Bombeiros e da própria Polícia Militar. Necessidade que, na verdade, não havia ficado clara e que não justifica o tipo de comportamento dos agentes.

Na abordagem do sábado, em 25 de novembro, os policiais não encontraram irregularidades – e ficaram alterados. Alegando que houve resistência de Lucas, os policiais levaram o jovem à delegacia e o enquadraram no artigo 329 do código penal, que diz sobre a oposição à execução de ato legal, uma inverdade, comprovada em vídeo. Antes disso, os agentes fizeram questão de algemá-lo e levá-lo para dar uma volta pela praça onde o evento acontecia. Lucas foi exposto frente a todos e todas, aparentemente, como uma forma de intimidação aos demais jovens. Por meio de vídeos, ele comprovou que permaneceu tranquilo durante todo o diálogo.

A perseguição a esse tipo de evento em Bangu não é inédita. Desde o meio deste ano, outros eventos culturais também têm sido interrompidos, cada vez de forma mais agressiva. O que ocorre por lá não pode ser desprezado ou esquecido pelo resto da cidade.

“As ocorrências na Zona Oeste, dificilmente, viram notícia para a cidade. O que nos motivou a publicizar é mostrar para a cidade o acontecimento assim como levantar a discussão do acesso ao espaço público. Queremos que a cidade olhe para os coletivos da Zona Oeste e criemos articulações para garantir a continuidade das ações e evitar as situações de abuso de poder”, disse Lucas

O direito à cidade é um debate extremamente relevante e necessário, sobretudo numa cidade com uma periferia tão grande como o Rio de Janeiro. Direito à cidade é muito mais que a democratização de todos os bairros. É muito mais que poder ir à zona sul ou ao centro. Direito à cidade é poder ressignificar e dar mais vivacidade ao lugar onde se nasceu, cresceu, onde se tem história.

Arlindo Cruz, quando canta a canção “meu lugar”, dá uma bela lição em todos nós. Afinal, quem não tem o ‘seu lugar’? E esse lugar não pode ser monopolizado, agressivamente e incoerentemente, pelas vontades de instituições, sobretudo militares. Lugares são sobre famílias, são sobre histórias, são sobre vidas.

O jovem hoje, especialmente os mais periferizados, são os que mais sofrem com a crise de que tanto se fala. Os movimentos do mercado de trabalho mostram que ela atinge com mais intensidade os jovens. E, enquanto esses mesmos que mais sentem os efeitos de uma crise econômica da qual não são responsáveis, não pode ser aceitável que o Estado, em vez de incentivar mais jovens a produzirem cultura em espaços públicos, incentivem seus braços armados a agirem com constrangimento moral, como foi o caso do evento da ZOA (Zona Oeste Ativa). O Estado não pode chegar pra acabar com a cultura, com a arte, com a diversão. A população periférica e favelada é, na verdade, a população que realmente constrói a cidade. O dia em que a favela não descer a Zona Oeste e a Baixada não atravessarem a cidade, o Rio, definitivamente, pára. O jovem negro, o povo pobre do Rio que, de segunda a segunda, como combustível, faz a cidade andar também tem direito ao lazer, à diversão. Negar que isso aconteça é negar direito à cidade. Para o Estado, o povo, coletivamente, cobrir suas lacunas deveria ser motivo de gratidão e respeito e não de repressão.

O Coletivo movimenta, em seus eventos, centena de jovens,  especialmente dos bairros de Campo Grande, Bangu, Realengo e Padre Miguel. A intenção do movimento a partir deste lamentável acontecimento é estabelecer parcerias com outros movimentos e realizar ações conjuntas de valorização dos territórios.

Que, irresponsavelmente, nenhum evento promovido por jovens de favela e de periferias acabem!