Circo Voador lota para lançar filme e exigir a liberdade do “nosso sagrado”.

12 de dezembro de 2017 20h02

Produtora Quiprocó Filmes lança documentário “Nosso Sagrado” que é parte da campanha Liberte Nosso Sagrado. Movimento exige que peças sagradas aprisionadas pela Polícia sejam devolvidas aos povos de terreiro.

O Circo Voador já tem mais de três décadas de vida, já viveu muitos momentos emocionantes. Com certeza, poucos foram tão fortes como aqueles que vivemos nesta segunda-feira: milhares de pessoas sentaram à frente de uma imensa tela para assistir a um lindo filme e exigir o fim do racismo religioso, que agride as crenças de matriz africana já há muitos séculos.

A CAMPANHA |
O filme – dirigido Jorge Santana, Gabriel Barbosa e Fernando Sousa – é parte da campanha Liberte Nosso Sagrado, uma campanha conjunta do movimento negro, das lideranças religiosas da Umbanda e do Candomblé, pesquisadores do assunto e do mandato coletivo do deputado estadual Flávio Serafini. A mobilização tem como propósito realocar os objetos sagrados das religiões afro-brasileiras que se encontram no Museu da Polícia Civil do Rio de Janeiro. Esses objetos foram apreendidos na primeira metade do século XX e durante os governos de Getúlio Vargas, quando as religiões de matriz africana eram – ainda mais – criminalizadas. A campanha já realizou atos e diligências, como as visitas as peças, que, como já se imaginava, não estão em condições adequadas de conservação.

Felizmente, a campanha já avançou para um acordo de transferência temporária dessas obras para serem estudadas, em Niterói, por historiadores, arqueólogos e, evidentemente, povos de terreiros interessados em sua própria história e cultura.

O FILME |

“O sagrado é, para a gente, aquilo que não se pode tocar”,
disse, no filme, Luizinha de Nanã.

O documentário é lindo, muito bem editado e traz depoimentos de referências no assunto, como Mãe Beata, Luis Antônio Simas e Luizinha de Nanã. O documentário trilha uma profunda viagem às razões que fizeram o Estado roubar tantas peças sagradas dos negros brasileiros e os porquês de hoje, mais de 100 anos depois, essas peças seguirem sequestradas.

O público, vidrado na tela, pôde saber mais sobre os caminhos que fizeram tantas peças sagradas pararem no que era chamado de Museu do Crime, da Polícia Civil. Historiadores contam que três artigos do Código Penal davam brechas para que o Estado, em flagrante comportamento racista, considerasse ilegal o exercício de fé de algumas religiões e crenças e, assim, levasse imagens sagradas como provas de “crimes” na primeira metade do século pássado. Centenas dessas imagens estão, desde então, aprisionadas em caixas, sem qualquer respeito, cuidado ou exposição ao público, no que deveria ser o Museu da Polícia Civil.

Depoimentos no filme provam que o ataque às religiões africanas era uma das tantas maneiras de exercer o racismo institucional. Afinal, a religião sempre foi uma das mais importantes fortalezas para manter de pé o povo negro, tão violentado no Brasil. Trecho de uma entrevista com a Mãe Beata chamando de roubo o aprisionamento das peças foi o mais aplaudido da sessão, chegando a levar às lágrimas alguns dos espectadores.

O deputado estadual Flávio Serafini, figura central na campanha e na realização do filme, ressaltou que a libertação dessas imagens sagradas serviria como um reconhecimento formal do Estado de que houve uma perseguição religiosa evidente que manchou a história do Brasil!

Jorge Santana, diretor e também um dos depoentes no filme, foi além da exigência da libertação do sagrado das caixas da Polícia Civil. Ele propõe a criação de um museu de peças sacras para que toda a população do Brasil e do Rio de Janeiro – uma população de massiva ascendência africana – tenha o direito de pesquisar a sua história e sua cultura!


O EVENTO | 

A noite desta segunda-feira foi além da exibição do documentário. Uma roda de debate reuniu Meninazinha D’Oxum, Mãe Flavia Pinto, Flavio Serafini e os diretores do documentário, que ressaltaram a intenção de agora percorrer espaços com o filme, o debate e a campanha (chama a galera lá no Facebook, galera!)

Ainda teve espaço um tocante homenagem à Mãe Beata de Yemanjá, com a presença de seu filho, o Baba Egbé Adailton Moreira.

Depois, uma roda de samba recebeu Kebajê, Andreia Caffé e Rogerio Família. Ainda rolou uma maravilhosa Feira de produtos de empreendedoras negras com curadoria de Carol Moupa.

#LiberteNossoSagrado