Caveirão não! Lançada campanha contra o terrorismo dos caveirões nas favelas do Rio

06 de dezembro de 2017 20h09

Nesta quarta-feira, movimentos de favelas e organizações de direitos humanos lançaram a campanha Caveirão Não – Favelas pela Vida e contra as Operações, na Casa Pública, bairro de Botafogo, zona sul do Rio.

Após o barulho e a dor de mais um trágico dia de operação policial no gigante Complexo da Maré, na zona norte do Rio – com direito a tiros do alto de helicóptero e inúmeras rajadas ao léu -, favelados de vários movimentos lançaram uma campanha contra a violência que ocorre nessas operações em e também à presença dos enormes Caveirões, carros blindados de onde policiais atiram – muitas vezes, sem qualquer precisão. Com camisa com nome da campanha, Gizele Martins, jornalista e uma das idealizadoras do movimento, enfatizou que dentro de sua favela ela jamais poderia usar a camisa.

Dos diversos aparatos físicos que aterrorizam a favela, sobretudo em dia de grandes operações, o Caveirão, para quem mora nas favelas do Rio de Janeiro, é um dos mais terríveis equipamentos militares. Aquele enorme carro blindado que, por vezes mal passa pelos becos das favelas e, desrespeitosamente, destrói pertences – como é o caso de automóveis ou portões – também tem o caráter de causar terror, morte, silêncio. Quem já morou na favela sabe que quando o blindado aparece, não é mais momento de estar na rua, não é momento de colocar a cara da janela. É momento de se recolher.

As operações comprometem todo o dia a dia daquelas vidas que habitam esses espaços. Não à toa, presentes no evento estavam movimentos de mães que perderam seus filhos com a violência policial, militantes dos direitos humanos – entre eles, Uidson Alves Ferreira, irmão da adolescente Maria Eduarda, 13 anos, assassinada dentro de sua escola em Costa Barros em março deste ano. Além de Uidson, estavam na mesa, Dalva Maria Correia da Silva, da Rede de Comunidades e Movimentos contra a Violência, Glaucia Marinho, da ONG Justiça Global e Pedro Charbel, coordenador latino-americano do Comitê Nacional Palestino do Movimento de Boicote, Desinvestimento e Sanções (BDS). Em absolutamente todas as falas, estavam presentes críticas ao modelo atual de segurança pública, um conceito equivocado para quem conhece a realidade das favelas.

”Nós, pretos e favelados, temos que ter um diálogo, tem que ter a união (…) se minha irmã estudasse na zona sul, TENHO CERTEZA QUE AQUELE policiaL que estava de tocaia pra pegar os meninos LÁ, ELE NÃO TERIA ATIRADO DA FORMA QUE ATIROU. MINHA IRMÃ TOMOU TRÊS TIROS! ” disse uidson mostrando a camisa que maria eduarda usava quando foi baleada.

Denunciar um equipamento de guerra para legitimar uma “guerra às drogas” inexistente – a não ser a que exista aos negros e aos pobres – é, mais uma vez, denunciar toda violência que permeia a favela. Pela jornalista Gizele Martins, foi relatado na coletiva de hoje que, só no Estado do Rio de Janeiro, desde 1997, mais de 16.000 pessoas foram mortas por policiais em casos registrados como “autos de resistência”, o que significa que essas pessoas foram mortas quando os policiais se sentiram ameaçados. Absurdamente, segundo dados do ISP (Instituto de Segurança Pública do governo do Estado do Rio), só no mês de setembro deste ano, por exemplo, mais de 900 assassinatos foram cometidos e registrados como autos de resistência.  Uma forma que, na verdade, legitima o extermínio de uma parte da população. Afinal, mortos não falam e, obviamente, policiais não se acusam. Denunciar o Caveirão também é uma forma de denunciar toda violência da polícia que mais mata em todo mundo, as polícias militares brasileiras.

”deixei de participar do fórum de educação popular que eu estava na mesa para vestir a camisa dessa campanha, porque a camisa dessa campanha é contra uma máquina de moer gente!” disse débora, do movimento mães de maio.

Após Débora relembrar a fala do ex-governador do Rio, Sérgio Cabral, que disse que ”favela é fábrica de marginal”, Pedro Charbel, de movimentos em Defesa da Palestina, disse que, se aqui as mulheres são chamadas desta terrível forma, na Palestina, as mulheres são chamadas de ”Fábrica de Terroristas”. Com símbolo de resistência palestina nas mãos, o lenço conhecido como keffiyeh, Pedro contou um pouco sobre a repressão do povo palestino que sofre em Gaza de Isreal, enfatizando, assim, a importância das lutas daqueles que são massacrados estarem conectadas.

A campanha que foi lançada hoje (6) preparou algumas programações para a cidade ainda neste fim de ano. Nesta quinta-feira, em frente ao Ministério Público, militantes entregarão um dossiê com vários casos violências praticadas, infelizmente, pelo próprio Estado e, na próxima sexta-feira (8), um cineclube com filme sobre chacinas.

”A CAMPANHA ACABA QUANDO O CAVEIRÃO SAIR DA FAVELA, QUANDO A UPP SAIR DA FAVELA” gizele martins

Caveirão Não – Favelas pela Vida e contra as Operações pretende ocupar todos os espaços, especialmente os públicos onde a população mais pobre frequenta. Hospitais públicos, escolas e favelas. Terá sempre o nosso apoio!