Novembro negro: Titi, Taís Araújo e os sistemas de violência contra os negros

30 de novembro de 2017 20h25

| por Rithyele Dantas |

Neste novembro em que tanto se fala da Consciência Negra, dois casos midiáticos, mais uma vez, evidenciaram o quão escancarado pode ser o racismo brasileiro. Eles mostraram ainda que esse crime não é imune ao dinheiro. Ambos os casos reiteraram a tese de que a cor da pele chega antes que a fama ou qualquer outra ascendência.

De um lado, Taís Araújo, uma mãe de duas crianças negras, relatando, em um programa de palestras em auditório, o TED, as dificuldades de ”criar crianças doces em um país ácido”. Do outro, Titi, uma criança africana adotada por pais brancos.

RACISMO CONTRA TAÍS ARAÚJO

Disse Taís: “Porque no Brasil, a cor do meu filho é cor que faz as pessoas mudem de calçada, escondam suas bolsas e que blindem seus carros. A vida do meu filho só não vai ser mais difícil que a da minha filha…”

Conversar com negros brasileiros, sobretudo jovens, sobretudo pobres, é, certamente, comprovar cada palavra da palestra de Taís Araújo. Lamentavelmente, as dores da atriz foram, simplesmente, ridicularizadas. O presidente da Empresa Brasileira de Comunicação (EBC), Laerte Rimoli, compartilhou um meme que debochava da palestra da atriz. Com uma ”piada”, sem graça alguma, e uma repercussão negativa, Laerte, em seu facebook, pediu desculpas à Taís e toda à sua família.]

 

 

Enquanto muitos foram capazes deslegitimar cada palavra de Taís, o Brasil continua sendo um país estruturalmente racista. Caro leitor, ao fim deste texto, após uma espreguiçada e um copo de água seu, um jovem negro terá sido assassinado no Brasil. Segundo o relatório final da CPI do Senado sobre o Assassinato de Jovens, realizada em 2016, todo ano, 23.100 jovens negros de 15 a 29 anos são assassinados. 23 minutos. 63 por dia. Negros.

Além disso, o Mapa da Violência de 2015 constata que a taxa de homicídios entre jovens negros é quase quatro vezes maior que a entre brancos (36,9 a cada 100 mil habitantes, contra 9,6). O fato de ser homem multiplica o risco de ser vítima de homicídio em quase 12 vezes. Por vários motivos, é atestado que, nas violências físicas, sobretudo praticadas pelo Estado, os homens são as maiores vítimas, mas a situação da mulher negra brasileira também é dolorosa e preocupante.

Continuou Taís: ”A vida dele só não vai ser mais difícil que do que a da minha filha. Com a Maria Antônia fico pensando o quanto nós, mulheres, somos criadas para agradar, o quanto nos silenciam e o quanto nos desqualificam o tempo inteiro. Quando penso o risco que ela corre, simplesmente, por ter nascido mulher e negra, eu fico apavorada. ”

E, mais uma vez, enquanto muitos foram capazes deslegitimar cada palavra de Taís, o Brasil continua sendo um país estruturalmente racista e também machista. O feminicídio, ou, em melhores palavras, o assassinato de mulheres por serem mulheres, no Brasil, atinge, principalmente, mulheres negras. Entre 2003 e 2013, o número de mulheres negras assassinadas cresceu 54%, enquanto o de brancas caiu 10% neste período. Não é só sobre a morte física, há também uma enorme violência simbólico-psicológica contra essas mulheres. Afinal, quem são as mães destes 23.000 mil jovens assassinados?

Ser mulher negra no Brasil é estar mais suscetível à violência doméstica, é ocupar os trabalhos os mais insalubres e, quando a Taís fala sobre desqualificação, também fala sobre o fato de a mulher negra ganhar cerca de 43% menos que um homem branco, isso, inacreditavelmente – ou não, falando de Brasil – ainda que as duas tenham a mesma formação acadêmica.

RACISMO CONTRA TITI

Enquanto muitos acharam exagerada a fala de Taís, um outro caso de racismo apareceu também neste mês de consciência racial. Sem nenhum constrangimento de ser verbalizado, o caso causou repulsa em todos. Titi, filha adotada por Bruno Gagliasso e Giovanna Ewbank, foi atacada mais uma vez na internet, mais uma vez. A criança, negra como a madrugada, foi chamada de “macaca” por uma socialite americana. A mulher, incomodada com elogios à menina Titi, fez um vídeo destilando ódio e racismo dos mais bizarros, explícitos. Para alguns, é realmente insuportável que um negro ascenda.


REFLEXÕES SOBRE O NOVEMBRO NEGRO

Possivelmente, foi no dia 20 de novembro de 1695 que morreu Zumbi dos Palmares. Escravo foragido, Zumbi foi um dos principais líderes do Quilombo dos Palmares, em Alagoas, uma das áreas usadas pelos escravos quando fugiam do domínio dos senhores de engenho de açúcar no “Brasil” colonial. É lamentável que neste mês em que, oficialmente, comemoramos o mês da consciência negra no Brasil, seja também um mês de casos tão violentos.

Enquanto um mandato de vereador aqui do Rio de Janeiro, destacamos o que chamamos de ”sistemas de violências diárias” no Brasil e no Rio:

Foi mais difícil ser negro no Rio de Janeiro em 2017 do que era 2016. E a história deveria ser o contrário. A cada ano, a posição do negro, deveria, na verdade, ser sempre melhor, mais segura, mais repleta de direitos e dignidade. Mas, não é isso que ocorre.


DADOS DA VIOLÊNCIA NO RIO DE JANEIRO PIORARAM EM 2017:

– Até o mês de agosto, último mês com dados fechados, os homicídios dolosos cresceram 8% e já se aproximam de 4 mil casos em 2017, em todo o Estado.

– As mortes por intervenção policial cresceram 29,9% e já se aproximam dos mil casos só em 2017.

– As mortes de policiais também cresceram em 2017 e já chegam quase a 120 casos.

DADOS DA VIOLÊNCIA NO PAÍS TAMBÉM ESTÃO PIORES:

O atlas brasileiro de violência, lançado neste mês, reforça o crescimento da violência no Brasil. 2016 foi o ano em que mais se matou pessoas no país desde que há contagem confiável dos registros. Foram mais de 61 mil pessoas.

Mas por que falamos tudo isso nesse discurso sobre o racismo e sobre o novembro negro?

É justamente por que as pesquisas e os levantamos seguem mostrando que os negros são os principais alvos das balas que cortam os céus do Brasil de norte a sul.

DADOS ATUALIZADOS VOLTAM A PROVAR QUE OS NEGROS SÃO AS MAIORES VÍTIMAS DA EPIDEMIA DE HOMICÍDIOS NO BRASIL

– Número recente do Fórum Brasileiro de Segurança aponta que 76% das vítimas de intervenção policiais são negros em todo o Brasil.

– No Rio, segundo levantamento do UOL, negros e pardos são 90% das vítimas fatais por intervenção da polícia..

– Os números do Fórum Brasileiro apontam que 56% dos policiais mortos eram negros.

É triste e lamentável que neste mês de resistência negra, de Zumbi dos Palmares, nossa principal pauta ainda seja a violência sobre corpos e mentes negras. Sobre crianças de favela mortas, sobre adolescentes mortes, sobre mães trabalhadoras com seus corações machucados. Eu, definitivamente, não gostaria de estar falando sobre dor aqui. Mas é nessa posição na qual sempre nos colocaram.

SUPERENCARCERAMENTO
Ainda em relação aos números da insegurança pública que tornam a vida do negro brasileiro um constante inferno, ainda há a problemática do superencarceramento. De 2016 para 2017, o número de prisões realizadas no Estado do Rio de Janeiro se manteve praticamente estável, mas isso ainda significa o inaceitável número de quase 32 mil pessoas presas apenas até agosto para um sistema que comporta 27 mil.

SÚMULA 70
A bizarra súmula 70 do Tribunal de Justiça do Rio permanece dando ao policial militar o privilégio de ter seu depoimento como a única “prova” para a condenação de algum suspeito. É o negro que sofre com isso também, como no emblemático caso de Rafael Braga.

RAFAEL BRAGA
Aliás, o caso de Rafael lembra outro aspecto trágico de nosso estado que atinge principalmente os negros: são as epidemias de doenças graves dentro do sistema prisional. Faltam médicos, faltam diagnósticos, faltam medicamentos, falta dignidade e é o homem e a mulher negra que mais sofrem com isso.

REDUÇÃO
E é por isso que lutamos contra a redução da maioridade penal. O jovem negro é, entre todos os brasileiros, aquele mais vulnerável.

Se cadeia fosse solução, em vez do país com a quarta maior população carcerária, seríamos o quarto país com maior segurança de se viver.

RACISMO RELIGIOSO
2017 está sendo bem pior também para que os negros pratiquem as religiões de origem africana ou de sincretismo africano-brasileiro. É inaceitável o aumento do caso de intolerância religiosa que, no Brasil, tem como sinônimo, quase sempre, o “racismo religioso” contra o negro brasileiro.

Segundo recente levantamento do Disque 100, importante instrumento para denunciar os ataques aos direitos humanos, aumentaram em quase 5mil%, os casos de intolerância religiosa no Brasil nos ultimos 5 anos.

O Rio de Janeiro está no meio deste desastre. Uma onda de ataques a terreiros vem traumatizando comunidades inteiras de candomblescistas e ubandistas na Capital, na Região dos Lagos e, especialmente, na Baixada Fluminense.

O RACISMO DE MARCELO CRIVELLA
Saímos de questões mais estaduais, para falar de algo que compete especialmente à esta Casa e a nós, vereadores.

PERGUNTO: O prefeito Marcelo Crivella, bispo da Igreja Universal do Reino de Deus, famosa por praticar sessões de descarrego com adeptos de religiões de matriz africana, tem ajudado a melhorar a vida dos negros do Rio de Janeiro?

A resposta é NÃO.

MARCHA PELA LIBERDADE RELIGOSA
Começamos por onde é mais fácil delimitar: o apoio à Marcha Pela Liberdade Religiosa. Os organizadores do evento que cobriu Copacabana com mais de 50 mil pessoas em setembro reclamaram muito dos obstáculos criados pela Prefeitura para organizar o evento. Não houve qualquer diálogo antecipado. As licenças demoraram para serem emitidas. O próprio prefeito Crivella não teve qualquer interesse de debater com os organizadores. Estranho, né? Um prefeito-bispo que não se dedica a fortalecer à principal manifestações ecumênica da cidade. Seria perseguição? Preconceito?

Certamente!

O QUE CRIVELLA JÁ ESCREVEU SOBRE AS RELIGIÕES AFRICANAS
Era certo que o religioso que escreveu tantas barbaridades no livro “Evangelizando a África” seguiria com suas perseguições quando assumisse a prefeitura do Rio. Nesta criminosa publicação, Crivella diz que religiões africanas praticam o sacrifício de crianças. Afirma também que “as tradições africanas permitem toda sorte de compor

tamento imoral”.

PERSEGUÇÕES NA PRÁTICA
O que registrou em livro Crivella vem representando em seus atos e decisões como prefeito.

Persegue como pode diversas manifestações artísticas de profunda origem negra. Ataca o samba, proibindo algumas das rodas mais tradicionais da cidade. Ataca o carnaval, reduzindo sensivelmente o investimento nas escolas e utilizando uma demagogia barata para considerar o carnaval como um gasto, não como um investimento. Ninguém escapa: grandes grupos que tentam eternizar a cultura negra em nossa cidade, como Os Filhos de Gandhi ou os Tambores de Olokum, já reclamaram da perseguição de Marcelo Crivella.

Recentemente, a cerimônia do “Barco de Iemanjá” também teve seu incentivo da Prefeitura cortado pelo prefeito-bispo!

A PIORA NA SAÚDE E NA EDUCAÇÃO TAMBÉM É UMA FORMA DE RACISMO
O ano de 2017 também está sendo muito mais duro para a mãe negra que quer dar uma boa educação para seus filhos e saúde para sua família.

Os cortes de verbas para áreas prioritárias da rede pública afetam, sobremaneira, as famílias negras.

SAÚDE
Na saúde, mais de 60% dos medicamentos obrigatórios estão com os estoques zerados. Não há insumos básicos, como luva e gaze para se trabalhar em muitas unidades da rede municipal.

São muitas as famílias negras que sofrem, diretamente, com a falta de repasse de verbas para o setor, com o contingenciamento do orçamento.

Em situações de conflito em favelas, a Prefeitura segue lavando as mãos. Não prepara as unidades para o aumento e a gravidade da demanda. Não posiciona ambulâncias para os resgates. Mais atrapalha do que ajuda naquilo que deveria ser uma gestão de crise.

EDUCAÇÃO
Na educação, a piora da gestão Crivella também é evidente. A merenda diminuiu. O material escolar e o uniforme não chegaram em muitas escolas. Falta também produtos de limpeza e material didático. Faltam lápis de cor, canetas, papel. Em Rio das Pedras, a prova já é feita na folha de caderno.

Também não há uma organização para trabalhar com a crise de tiroteios na rede de educação. Nem mesmo um aviso das operações as escolas conseguem receber dignamente. Na Maré, são as escolas vizinhas que avisam quando o Caveirão irá entrar no Complexo de favelas.

Assim, as lamentáveis cenas de crianças – muitas negras – jogadas aos chãos de creches e escolas foram, outra vez, frequentes em 2017.

MORADIA
O prefeito Crivella ataca os negros com seus perversos projetos de remoções. Rio das Pedras, Barra de Guaratiba, Barrinha, Maracajás são nomes que provam que a política de Marcelo Crivella privilegiam ricos em detrimento de pobres.

LUTAS E AVANÇOS

Mesmo com todos esses retrocessos, é óbvio que, como sempre, o povo negro reage e resiste.

São muitas as iniciativas e muitos os grupos que se dedicam a não deixar que as perseguições persistam.

Destaco a mobilização do Liberte Nosso Sagrado, uma campanha linda que quer tirar das gavetas do Museu da Polícia Civil milhares de imagens importantes das religiões de matriz africana, sequestradas pela Polícia quando a perseguição a essas religiões era institucionalizada.

Também vimos no Rio o surgimento de novas mobilizações em defesa da liberdade religiosa, como o surgimento da Frente em Defesa dos Povos Tradicionais de Matriz Africana.

Há resistência no samba, no Maracatu, no afoxé, no coco, em tantas manifestações negra.

Há resistência também na educação. Crescem os números de cursinhos populares, voltados para a comunidade negra não tem como pagar por um reforço fora da escola. Esses cursinhos, como a rede Emancipa, avança para lugares como o Degase, local de prisão de jovens que cometem atos infracionais.

PAPEL DA CÂMARA DE VEREADORES
Esta Casa também tem que ser um ponto de resistência, embora seja muito difícil, uma vez que quase não há vereadores aqui dentro.

Mesmo assim, este é um papel desta Casa, pensar nas particularidades e dores dos negros da cidade e criar políticas que, minimamente, reparem nossa história. Não vamos virar a cara para isso, não podemos. Naturalizar e ignorar tais demandas é compactuar com o racismo.

NOSSO MANDATO
Nos próximos dias, nosso mandato vai apresentar várias iniciativas para trabalhar neste sentido. Queremos que os estabelecimentos t

enham avisos alertando sobre o crime de racismo, com números de denúncia e todo o caminho a se fazer.

Queremos homenagear figuras negras do passado, propondo alterações de nomes de praças e ruas que, muitas vezes, homenageiam justamente aqueles que mais fizeram o povo sofrer nesta cidade.

Queremos finalmente fazer valer a lei 106339 que obriga o ensino da história africana nas escolas de todo o Brasil. Para isso, é preciso apostar na formação focada dos professores da rede pública municipal.

Também queremos defender lugares que prestam uma valiosa contribuição para a memória e cultura do povo negro carioca. É preciso defender imóveis e patrimônios dos olhos do mercado imobiliário, que também é racista.

UM SONHO
Quero um dia poder subir aqui ou em qualquer outra tribuna e poder ver mais negros e que desta vez não seja só nos espaços de limpeza das Casas legislativas e sim legislando e pensando em política. Quero um dia poder subir aqui ou em qualquer outra tribuna pra falar de mais conquistas, mais direitos. Falar de dor não é uma opção.

O RACISMO AINDA ESTÁ AQUI
Então, este é, sempre mais do que nunca, o momento de reafirmarmos nossa identidade, sobretudo, em nome daqueles que lutaram para que negros não fossem dizimados pelo colonizador. É o momento de gritarmos que o racismo ainda existe. E que a população negra do país e do Rio sofre muitas violências diárias. Esse sistema de violências, mais ou menos sofisticadas, tem um nome e é preciso que pronunciemos esse nome com muito mo.ais frequência: é racismo!