“Lugar de estuprador não é na certidão”: 10 mil vão às ruas do Rio pelo aborto legal

14 de novembro de 2017 12h18

Por Rithyele Dantas, texto e fotos

Enquanto a praça da Cinelândia, no centro do Rio, enchia com milhares de mulheres, em sua maioria jovens, uma militante perguntou alto no microfone: “quem de nós já cometeu um aborto?” Muitas mãos se levantaram naquele instante.

Essa cena foi só uma forma de assumir que o processo abortivo é uma realidade na vida das mulheres em todo o mundo e, no Brasil, todas aquelas que optam por não seguir com uma gestação correm, tragicamente, risco de morrer.

Números do Ministério da Saúde, publicados no ano passado, apontam que o Brasil registrou uma medida de quatro mortes por dia nos primeiros 9 meses de 2016.

O aborto é, desde sempre, um assunto que faz, hipocritamente, os conservadores ficarem de cabelo em pé. A última semana foi marcada pela aprovação, numa comissão especial da Câmara, da PEC 181, que proíbe o aborto mesmo em caso de estupro ou naquela gravidez que pode vir a causar risco às mulheres. O abortamento nestes casos é um direito assegurado desde 1940. Essa PEC está sendo encarada como um grande retrocesso agressivo.

Esse quadro suscitou um grande levante de mulheres. O movimento “Todas contra 18” que nasceu nas redes sociais após 18 deputados terem aprovado e, horrorosamente, comemorado a aprovação da PEC que obrigará mulheres a sofrerem essa violência levou milhares às ruas do país. Rio, São Paulo, Belém, Espírito Santo, Salvador, Brasília: a mulherada parou muitas cidades.

Um ato que foi convocado às pressas e encheu as ruas do centro do Rio de Janeiro. Da Cinelândia à Praça XV mais de 10 mil caminharam, verdadeiramente, pelo direito à vida das mulheres que, se estupradas, serão obrigadas a parir filho de estuprador ou recorrerão a métodos abortivos perigosíssimos como medicamentos ou clínicas, ainda clandestinas. Se para o congresso essas vidas não importam, para todas as mulheres elas são prioridade.

“Mulheres ricas abortam, mulheres pobres podem morrer”, dizia um dos milhares cartazes.

O movimento de mulheres sempre problematizou quem é que realmente pode realizar o aborto minimamente mais seguro no Brasil. São, sobretudo, mulheres ricas e de classe média recorrendo às clínicas clandestinas, teoricamente, seguras devido o acompanhamento médico. Não é novidade a existência dessas clínicas em vários bairros, tampouco o alto valor para a realização do procedimento. Muitas, ainda, têm a possibilidade de sair do país. Às mulheres pobres, em geral, resta apenas comprar pílulas abortivas duvidosas, visitar clínicas horrendas, conhecidas como “açougues”, ou realizar procedimentos caseiros desumanos, dolorosos, sangrentos. A classe é, de fato, determinante nestes casos.

 

A luta pelo aborto legal é antiga, mas com a presença de bancadas tão conversadoras que legislam por uma interpretação mesquinha da Bíblia, dificilmente, esta será uma conquista breve. De toda forma, o inaceitável seria retroceder e obrigar que mulheres estupradas sigam com uma gravidez fruto de violência à integridade das mulhere. É uma luta ainda mais urgente. Infelizmente, mulher nenhuma, no Brasil, está livre de ser estuprada, seja na rua, seja em casa, portanto, vai ser sempre 18 contra todas.

70% dos estupros que acontecem no país são contra crianças e adolescentes!

 

A cultura do estupro é uma realidade contundente no país. Ela subjuga e objetifica as mulheres. A violência sexual vem, sobretudo, com a ideia de que o corpo da mulher está a serviço do prazer masculino. Segundo dados do IPEA, 70% dos estupros acontece com menores de idade, esse percentual também diz respeito a quem violenta. É aquela história de que o inimigo pode morar logo ao lado. 70% dos estupros acontece por parte de vizinhos, namorados, pais, tio, padastros e, muitas vezes, esses casos são subnotificados.

As consequências, em termos psicológicos, para essas crianças serão, certamente, devastadoras e traumáticas.

Agora, imagine só, com a aprovação da PEC 181 e a retirada de um direito fundamental de respeito à vida, ao corpo, à mente, mulheres, crianças e adolescentes terão que escolher entre recorrer a métodos abortivos inseguros e ilegais ou conviver com o fruto de uma violência tão grande que é o estupro.

A PEC 181 é um retrocesso visível no plano jurídico, no plano ético, e, inegavelmente, a absurda proposta fere os direitos humanos, fere liberdades individuais, desrespeita até mesmo o direito que todo ser humano tem à sua própria integridade física.

Mulheres serem obrigadas a ter filho de estuprador ou correr risco de vida com uma ação retrógrada e permissiva do Estado têm que ser bandeira de todo mundo que luta por uma sociedade digna ao ser humano.