[The Guardian] Sensação pop brasileira LGBT: ‘Eu quero dar força para eles’

23 de outubro de 2017 17h38

*reportagem de Dom Phillips, traduzido do The Guardian,

Em um país que 343 LGBTs foram assassinados em 2016, a cantora gay assumida e drag queen Pablo Vittar virou símbolo de resistência.

Sábado 21 outubro 2017 05.00

Foto: PR

Apesar de sua reputação permissiva e selvagem, com hábitos de cross-dressing vistos em seus carnavais de rua, o Brasil é um país cada vez mais perigoso para pessoas LGBTs. De acordo com o Grupo Gay da Bahia, organização sem fins lucrativos, 343 pessoas LGBTs morreram em 2016. Em 2010, foram 260.

Contra este pano de fundo de preconceito, no entanto, a última sensação do pop do país é uma rainha abertamente gay em uma peruca platinada, cujos vídeos pop brilhantes foram vistos em centenas de milhões de vezes.

Pabllo Vittar, de 22 anos, tem 4,9 milhões de seguidores no Instagram, apadrinhada por Anitta, uma dos cantores mais famosas do Brasil, e recentemente estrelou a capa da revista Contigo com a manchete: “Quem é esse fenômeno?”.

Além de seu sucesso comercial, Vittar também se tornou um símbolo de resistência para os brasileiros assustados pela crescente influência de uma minoria moral auto-nomeada que ganhou uma série de vitórias recentes nas guerras culturais do país.

“As pessoas realmente abraçaram minhas idéias, meu trabalho, meu engajamento”, disse Vittar em uma entrevista nos estúdios YouTube do Rio de Janeiro, antes do lançamento de “Corpo Sensual”, seu último single.

 

“Eu gosto de ser uma garota, eu gosto de ser um menino”. Foto: PR

                  “Eu gosto de ser uma garota, eu gosto de ser um menino”.

Vestido com calças apertadas e cílios falsos, Vittar disse que muitos fãs compartilham seus problemas com ela. “Eles me contam muito sobre sua luta diária para sair na rua sendo gay, sendo drag”, disse ela. “Eu quero dar força para eles continuarem sendo quem são”.

Ela contou ao Fantástico: ​​”Eu gosto de ser uma menina, eu gosto de ser um menino”.

Essa fala clara ajudou a empurrar Vittar para a frente de uma série de conflitos com a nova direita do Brasil: uma aliança frouxa entre defensores do mercado livre, aqueles que estão bravos com a corrupção política e o crescente número de cristãos evangélicos.

Quando um juiz brasileiro anulou uma proibição federal de longa data sobre a desacreditada terapia de “cura gay”, Vittar twittou “não estamos doentes” para mais de 600 mil seguidores – e foi aplaudido por sua posição.

Depois que ela apareceu ao lado da cantora Fergie, do Black Eyed Peas, no festival Rock in Rio, o ator Fabio Assunção acolheu sua presença em uma onda crescente do que ele chamou de “neo-fascismo” e “totalitarismo”.

“Você representa uma possibilidade de verdade num mar de hipocrisia. Sua figura pública é a voz de muita gente sufocada”, escreveu Assunção em uma publicação no Facebook.

Vittar, 22, e suas duas irmãs, Phamella (sua gêmea) e Polyanna, 23, foram criadas por sua mãe Verônica, uma enfermeira, nos pobres estados do Pará e Maranhão.

Nascido Phabullo da Silva, ela sempre sabia que era gay e sofreu bullying na escola, onde seus cadernos foram rasgados e a jogaram sopa sobre ela no horário do almoço.

“Quando você sofre preconceito, sua autoestima é baixa, você não quer fazer nada e não quer sair da casa”, disse ela.

Pabllo cantou desde que ela era uma criança e começou a se montar aos 16. Aos 18 anos, ela superou seus medos e saiu pela primeira vez como drag para uma festa de Halloween em um clube gay subterrâneo na cidade de Uberlândia, interior de Minas Gerais.

“Eu estava realmente feio”, disse ela, entrando em risadinhas. “Mas eu me diverti muito”.

Pouco depois, um produtor de TV viu um vídeo do YouTube de Vittar, que tem uma voz poderosa e melódica, cantando uma música de Whitney Houston e foi contratada como uma das duas vocalistas do programa noturno de televisão chamado “Amor e Sexo”.

                  Pabllo Vittar em seus fãs: “Eles me falam muito sobre sua luta diária para sair na rua                            sendo gay, sendo drag.” Fotografia: PR

O vídeo do seu primeiro hit, “Open Bar”, apresentou um elenco de artistas drags festejando em uma piscina. O vídeo luxuoso que ela e Anitta filmaram no deserto marroquino com o sucesso “Sua Cara” – gravado com o grupo americano Major Lazer – foi assistido 242 milhões de vezes.

Larissa Machado, conhecida por Anitta, também enfrentou críticas ferozes para o empoderamento sexual expresso em suas letras. “Ela assume uma posição e levanta a bandeira feminista. Ela é maravilhosa “, disse Vittar.

Mas, apesar dos amigos superstars, Pabllo ainda fala com a mãe todos os dias, e ela acredita que ela a apoia, ao contrário de muitas famílias brasileiras hostis a crianças gays.

“Mesmo antes de minha sexualidade florescer, minha mãe já falava muito abertamente sobre isso comigo”, disse ela. “Minha família sempre me respeitou e me deu total liberdade para fazer tudo o que eu queria”.

Tais atitudes progressivas não se refletem no Brasil. Jair Bolsonaro, um legislador de extrema direita, que atualmente está em segundo lugar para as eleições presidenciais do próximo ano, disse que não poderia amar qualquer filho dele se eles se tornassem homossexuais.

“Apoie seus filhos, porque eles sendo gays ou não, eles sempre serão seus filhos”, disse Vittar. “Quando você joga positividade para o mundo, ele responde”.