Uma exposição profunda, um ataque raso

14 de setembro de 2017 18h02

O ano era 2010. Gaudêncio Fidélis, gaúcho da pequena Gravataí, já era mestre e doutor em arte por universidades de Nova York, com estudos sobre a receptividade da arte brasileira nos Estados Unidos. Ainda não havia assumido a direção do Museu de Artes do Rio Grande do Sul, o maior do Estado, e também ainda não havia sido o curador-geral da Bienal do Mercosul, o maior evento de arte de Porto Alegre. O ano era 2010, e Gaudêncio iniciou um longo e profundo “processo”, nas palavras dele.

O “processo” em questão era a montagem de uma exposição que se pretendia ousada: ser a primeira grande mostra com a temática Queer da América Latina, uma das primeiras do mundo. Até 2017, havia apenas duas outras referências: uma em Varsóvia, na Polônia; outra em Washington, nos Estados Unidos, ambas de 2010.

Gaudêncio Fidélis protesta em frente ao Santander Cultural. Foto: Lucas Pitta

A longa jornada de Fidélis até o conceito final da exposição passou por viagens a Los Angeles e Nova York, conversas e entrevistas com outros curadores. Em um desses encontros, Paweł Leszkowicz e Tomek Kitliński, responsáveis pela exposição na Polônia, chamaram a atenção para o fato de que “a homofobia na Polônia está ligada à fobia da arte contemporânea”, o que, aliás, na opinião de Fidélis, “é quase uma regra em vários lugares do mundo”.

O gaúcho percebia que queria ir além de uma exposição temática disposta a discutir como as figuras não heteronormativas foram encaradas na arte brasileira nas últimas décadas. Queria usar este tema para uma investigação da formação do cânone artístico. Ou seja, queria explorar os motivos pelos quais os modelos heteronormativos viraram referência também na arte?

“O importante é verificar o quanto a diferença tem sido incorporada na formação do cânone e o quanto ela tem sido excluída. Nesse caso, constatamos que a razão excludente é predominante. Não por outro motivo, esta exposição incorpora intensamente a diversidade como plataforma política na escolha de obras”, escreve o curador, no denso catálogo que acompanha a exposição QueerMuseu – Cartografia da Diferença na América Latina – hoje censurada pelo Santander Cultural, braço do gigante banco espanhol.

Obra de Fernando Baril

A longa jornada de Fidélis, de 2010 a 2017, seguiu por dentro de outros trabalhos suas. Trilhou o caminho de uma parceria com o Santander, que dispõe do mais conceituado espaço de exposições do Rio Grande do Sul, no coração de Porto Alegre. Passou pela aprovação da captação de recursos através da Lei Rouanet, cerca de R$800 mil. Seguiu com a formação de uma equipe de mais de 100 pessoas capazes de pôr de pé uma mostra com 263 obras de 85 artistas – entre eles, verdadeiros patrimônios da arte brasileira, como Alfredo Volpi, Lygia Clark, Adriana Varejão, Cândido Portinari. Em 16 de agosto, a exposição foi aberta para um público de mais de 3 mil pessoas, com ampla cobertura da mídia.

Mais de 20 mil pessoas já tinham visitado a QueerMuseu até a última quarta-feira, 8 de setembro. Foi quando integrantes do Movimento Brasil Livre – que, em Porto Alegre, contam com a aberta simpatia do prefeito Nelson Marchezan Jr. (PSDB) – ingressaram na exposição com câmeras em punho. Mesmo proibidos de filmarem as obras, aos gritos, protestavam contra os trabalhos que, segundo eles, faziam apologia à pedofilia e à zoofilia. Interpelavam visitantes, gritavam contra funcionários da exposição. Quinta-feira, feriado, o evento não abriu. Na sexta-feira, os ataques foram mais violentos. No sábado, o Santander Cultural decidiu encerrar a exposição, quase um mês antes do previsto.

A superficialidade e a duração de dois dias e meio dos ataques contrastam com a profundidade e a duração de todo o processo da exposição, sete anos. QueerMuseu não se tratava de uma aventura artística, carregada “apenas” de um furor provocativo. QueerMuseu era trabalho sério que promovia visibilidade para LGBTs, da arte e fora dela, no país que mais mata LGBTs no mundo. É essa contradição que mostra o absurdo irresponsável, perigoso antidemocrático e obscurantista que a decisão do Santander reflete.

Obras Cena do Interior II, de Adriana Varejão

São duas obras que mais suscitaram polêmica. Sobre a pedofilia, o ataque é contra o trabalho da brasiliense Bia Leite. Pinturas de crianças sob textos como “criança viada travesti da lambada” chocaram os manifestantes do MBL. Acontece que a obra, afirmo enfaticamente, não tem qualquer conteúdo pedófilo. Trata-se de um grito de afirmação de identidades homo e transexuais, inspirado em uma página da internet que traz diversas pessoas orgulhosas de sua infância LGBT.

Sobre a zoofilia, o ataque é tão raso quanto. A obra criticada, Cena de Interior, é de ninguém menos que Adriana Varejão, uma das artistas mais conceituadas da arte brasileira no momento. Mostra algumas práticas comuns do interior posterior à colonização. Entre elas, sim, o sexo com os animais, ainda hoje bastante comum em alguns cantos do Brasil.

As obras de arte provocam, mas não fazem qualquer apologia às tais práticas. Chega a ser triste ter que ressaltar isso hoje, em setembro de 2017.

A tática de relacionar nós LGBTs às práticas pedófilas ou zoófilas é antiga. Os LGBTfóbicos nos tratam como pessoas menores, com ética menor, ou sem ética nenhuma. Isso nos machuca profundamente, mas não irá nos jogar outra vez no armário. Nós existimos e existiremos. Nós resistimos e resistiremos – nas ruas, nos parlamentos, nos estádios e também nos museus! A reação ao caso mostra isso.

Alguns dos principais jornais do mundo repercutiram esse escândalo. Os promotores do Ministério Público do Rio Grande do Sul já revelaram que não viram crime algum nas obras. Uma grande manifestação tomou conta do centro de Porto Alegre nesta semana. Artistas e LGBTs, artistas LGBTs e cada cidadão que respeita a democracia estão se manifestando Brasil afora – com muito humor, inclusive. Gestores de cultura de todo o país já demonstraram a intenção de levar a QueerMuseu em turnê. A própria direção do Santander está acuada e ainda há a expectativa que a mostra seja reaberta.

Não aceitaremos o retrocesso. Não aceitaremos a violência de ataques rasos. Somos muitos e somos muito mais profundos do que aqueles que nos agridem.

Obra de Bia Leite, Travesti da lambada e Deusa das Águas