Harvard cede à CIA. Nós resistimos. Chelsea Manning é um orgulho para nós!

15 de setembro de 2017 20h56

Na quarta-feira (15), a Universidade de Harvard anunciou Chelsea Manning, ex-soldado transexual do Exército norte-americano, como a mais nova professora convidada do Instituto de Política – IOP. Ela fora convocada para falar sobre identidade LGBT nas Forças Armadas. Seria a primeira professora transgênera convidada. Gigantesca vitória dos direitos democráticos.

Chelsea Manning. Foto: Heidi Gutman

Entranto, fruto de uma forte pressão da CIA – Agência Central de Inteligência norte-americana -, o convite foi rescindido nesta manhã de sexta-feira pelo reitor da Universidade, Douglas Elmendorf.

Após o convite a Chelsea, Michel Morell, diretor da CIA no mandato de Barack Obama e professor do Instituto de Política de Harvard, renunciou ao cargo. Segundo ele, o convite “honra uma criminosa condenada por vazar informações confidenciais.” Próximo ao ex-presidente Geoge W. Bush, Morell estava viajando junto com Bush no fatídico 11 de setembro e é um dos envolvidos no esquema que matou Osama Bin Laden, em 2011. Ele é abertamente a favor da tortura e do uso de drones para assassinatos.

Michael Pompeo, diretor da CIA e o presidente Donald Trump. Janeiro de 2017. Foto: Andrew Harnik

O atual direitor da agência, Mike Pompeo, se juntou a Morell e desmarcou sua presença na universidade, acusando Chelsea de “traidora dos Estados Unidos” e ratificando sua lealdade aos oficiais da CIA. Ele é apoiador de programas de vigilância em massa e também defende o uso de tortura por parte da CIA. Pompeo chegou a dizer que Edward Snowden, ex-agente da NSA – Agencia de Segurança Nacional, responsável por desvendar o esquema de espionagem massiva dos Estados Unidos, “deveria ser executado pelo que fez”.

Além disso, entre os nomes convidados por Harvard, estão Sean Spicer, porta-voz da Casa Branca sob o mandato de Donald Trump e Corey Lewandowski, administrator de campanha do presidente, preso e acusado de agredir uma jornalista ao questionar Trump numa coletiva de imprensa em 2016. Segundo Harvard, esses nomes teriam algo a acrescentar e Chealsea não, por isso o convite a ela seria retirado.

A rescisão do convite da Universidade de Harvard por pressão da CIA é uma demonstração de como o serviço de intelegência e a polícia norte americana interferem nas decisões das instituições do país, ditando ordens e censurando a autonomia dos que se atrevem a denunciá-los.

Chelsea é uma das responsáveis pelo maior vazamento de dados confidenciais da história. Em 2010, ela atuava como analista de inteligência militar quando entregou ao Wikileaks documentos sigilosos que revelavam os abusos do Exército norte-americano na guerra do Iraque e do Afeganistão. Foram mais de 700 mil documentos divulgados por Julian Assange, Guardian, The New York Times, Le Monde, Der Spiegel e El País. Manning passou 7 anos presa por isso.

Ao lado de Assange, Edward Snowden e outros delatores e jornalistas, Chelsea é uma das grandes figuras que lutam contra o imperialismo norte-americano, pelo direito à privacidade e pela autonomia dos povos do mundo todo. É símbolo da luta pelos direitos humanos e democrátivos.

Eu e meu marido Glenn, junto com Laura Poitras, direitora e produtora do documentário Citizenfour, acompanhamos de perto o levante desses que decidiram enfrentar os Estados Unidos e seus aliados. Fomos perseguidos, torturados, ameaçados. Snowden foi despatriado e hoje vive asilado na Rússia. Assange foi deportado e hoje vive também asilado na embaixada do Ecuador, em Londres. Chelsea foi encarcerada por 7 anos e teve sua identidade de gênero desrespeitada reitiradamente.

Em julho deste ano, Donald Trump proibiu transexuais nas forças armadas dos Estados Unidos. A decisão expulsaria 7 mil transgêneros. Ainda que tenham tentado apagar a identidade de Chelsea, ela é hoje é uma das maiores representantes da luta pelos direitos LGBTs.

A Universidade de Harvard não é uma instituição qualquer. A interferência desses que representam os interesses da Agência Central de Inteligencia estadunidense é, senão uma ameaça, uma demonstradação de força. São esses os nomes que represetam toda a repressão, o assassinato e o controle exercido pelos Estados Unidos mundo afora. Não enfrentá-los é uma convardia. E nós não nos submeteremos a isso.