Entrevista exclusiva: Gaudêncio Fidélis, curador da exposição Queer censurada em Porto Alegre

11 de setembro de 2017 21h05

“Esse é o mundo que vivemos agora? Um mundo em que um grupo reduzido, com ideologias das mais reacionárias e retrógradas, vai dizer para nós o que nós podemos ver e como nós podemos pensar? Esse é um grande e terrível precedente que esse fechamento intempestivo da exposição abre”.

Gaudêncio Fidélis tem 52 anos e mais de 50 exposições em seu vasto e respeitável currículo de curador de arte. Já foi diretor do mais importante museu do Rio Grande do Sul, o Museu de Artes do Rio Grande do Sul (MARGS) e também, curador-geral da décima edição da Bienal do Mercosul, mais importante mostra do Estado. É o curador responsável pela exposição A Queer Museu – Cartografia da Diferença na América Latina, suspensa neste sábado, 9 de setembro de 2017, pelo Santander Cultural, que se curvou a pressões do Movimento Brasil Livre. A justificativa do Santander foi exposta nessa nota muito polêmica.

De tantos dias de carreira, poucos foram tão angustiantes como os últimos. Desde a última quarta-feira, o MBL faz uma campanha, nas redes sociais e na própria galeria que recebe/recebia a exposição, para atacar a exposição, a mais importante da temática Queer e LGBT já vista na América Latina. O grupo, que conta com apoio do prefeito Nelson Marchezan Jr. (PSDB) alega que, entre as 263 obras de 85 artistas – alguns muitos renomados como Adriana Varejão, Ligia Clark, Alfredo Volpi, Cândido Portinari – há obras que fazem apologia à pornografia, pedofilia e zoofilia. Ainda criticam que há ataques imorais contra a fé cristã.

Grupos de militância LGBT ingressaram no Ministério Público do Rio Grande do Sul com uma representação que pretende reverter a suspensão. A comunidade artística brasileira está em alerta. A comunidade LGBT também. O assunto é, inegavelmente, polêmico. Repudiamos veementemente a censura que se coloca e, para avançar no debate, conversamos longamente com o curador da mostra. Abaixo, a íntegra desta entrevista.

Foto: Raul Hotz.

Gaudêncio, para começar a conversa, gostaria de saber quais os sentimentos que surgiram em você nestes últimos dias? Está bravo, triste, preocupado? O que você, que está no centro deste embate, sente neste momento?

Em seguida que eu fiquei sabendo do cancelamento da exposição, eu tive um momento de profunda tristeza, te confesso. Me trouxe às lágrimas, vou até te dizer. É um sentimento de tristeza porque uma exposição desta grandiosidade conta com todo o envolvimento destes artistas, dos colaboradores, dos colecionadores, dos profissionais, da enorme gama de profissionais que colaboram para essa exposição. Essa exposição começou a ser pensada em 2010! É uma tristeza ver que isso tudo acabou, que foi tirada da visibilidade pública depois de apenas dois dias e meio de manifestações das mais reacionárias de parte deste grupo que a gente conhece como MBL.

Também tem a tristeza pelos artistas, pela produção dos artistas e por esse precedente terrível que é o fechamento desta exposição. Acho que nós somos confrontados com uma questão dramática: como será o universo da produção artística e cultural do país quando um precedente destes se abre? Que tipo de incidentes similares nós vamos ter quando, tão rapidamente, um grupo de extrema direita e tão reacionário consegue fechar uma exposição desta grandiosidade? Então, foi um momento de muita tristeza. Mas agora é preciso, inevitavelmente, participar de um processo longo e penoso de esclarecimento da opinião pública e de quem gosta de arte. Tem que ser, de alguma maneira, porta-voz dos artistas junto ao público sobre o que isso tudo significa, esclarecer os equívocos sobre essa narrativa falsa que eles criaram. Acho que essa tarefa eu tenho que cumprir. Meu interesse nisso é o esclarecimento e não um uso sensacionalista.

Qual o tamanho da exposição, em qual parâmetro podemos colocar essa exposição em comparação com outras exposições com temática Queer, com temática LGBT no Brasil e no mundo? Trata-se da maior exposição deste tema que o país já viu?

Podemos ter absoluta segurança nesta informação. Não só no Brasil. É a maior exposição Queer e que aborda questões de gênero, de identidade de gênero, expressão de gênero, diferença e diversidade que o Brasil já teve. Mas não é só isso. Essa é a primeira exposição desta escala, neste assunto, na América Latina. Escrevi isso na argumentação do projeto, quando ele estava começando. É importante dizer que ela é uma das poucas do mundo. Tivemos antes uma exposição em Washington, que foi uma exposição mais específica e histórica focada em retratos, mas tinha temática Queer muito importante. Antes disso, tivemos no Museu Internacional de Arte em Varsóvia, na Polônia, muito grande, muito importante, que percorreu desde a arte grega até a arte contemporânea. E agora, recentemente, paralela à nossa, nós tivemos uma exposição da Tate Modern, em Londres, uma exposição histórica da arte Queer, que cobre um período específico da arte britânica e, nesse sentido, tem a ver com o enquadramento da nossa. A exposição Queer Museu não é concentrada apenas num determinado período, mas concentrada em arte brasileira.

Você está tentando mostrar com isso que Porto Alegre – e mesmo o Brasil – estavam num ponto…

Estava na frente. Muito avanço. Apesar de chegar aqui atrasado.

Gaudêncio, você é uma referência aqui no Rio Grande do Sul, já tem uma história aqui na arte do Estado. A dedicação de montar a exposição foi algo de iniciativa sua? Quando você foi montando a exposição, esse fantasma da perseguição conservadora dos grupos de direita no Brasil passou na tua cabeça?

Correndo o risco de parecer ingênuo, eu te confesso que, em nenhum momento… e olha que eu já fiz exposições que levantaram muito mais polêmica. Na Bienal do Mercosul (de 2015, do qual Gaudêncio foi curador-geral), houve um ataque à obra Tropicália, do Helio Oiticica. Mas foi um ataque de outra ordem, não era de teor moralista, como esse. Eu já organizei mais de 50 exposições, mas eu não imaginei e nem houve, no processo de gestação, organização e nos 26 dias que a exposição esteve aberta, não houve qualquer manifestação negativa em realização da exposição ou em relação a obras específicas. O que acontece é que, de repente, esses grupos de extrema direita, nesse caso liderados pelo MBL, descobrem a exposição, se dão conta que a exposição é uma plataforma de altíssima visibilidade e resolvem fazer dela uma plataforma para projeção de suas ideias conservadoras e reacionárias, o que desencadeia o processo. Isso começou na quarta-feira à tarde. Foi muito rápido. Quinta-feira tivemos um dia de feriado e o Santander não abriu. Sexta-feira foi intensa essa investida do MBL, ingressando na exposição e agredindo as pessoas, os profissionais, os mediadores e no sábado também: muito intenso, muito agressivo. Foram dois dias e meio. Isso, claro, foi muito rapidamente também transposto nas redes sociais com uma narrativa que eles construíram e que é um pouco chocante porque ela não corresponde em nada, absolutamente em nada, com a exposição. Vamos falar bem concretamente: não há nada na exposição do que eles tão falando. Hoje um repórter me perguntou, numa rádio, o que eu poderia dizer sobre a obra de Cristo com um macaco, se seria um ataque à Igreja Católica. E eu respondi “não há uma obra com um Cristo com um macaco” na exposição. Simplesmente não há! Entendeu? Eles construíram uma narrativa oral e visual que não corresponde à exposição. Mas agora temos um agravante: nós não temos a exposição para provar o contrário. Ela foi fechada.

Foto: Samuel Maciel – Correio do Povo

Eu queria saber da tua opinião sobre a postura do Santander. Você acha que o a instituição toma essa decisão porque Porto Alegre tem um prefeito muito próximo do MBL? Acha que existe essa interferência? Ou acha, por exemplo, que os clientes do banco que criticaram à exposição podem ter influenciado?

Honestamente, nem um, nem outro. Mas antes vou enfatizar uma coisa: o prefeito (Nelson Marchezan JR.) se expressou radicalmente contra a exposição em seu perfil no Facebook, em linha com o MBL. Ele posteriormente apagou esse post mas todo mundo printou e também postou nas redes. Talvez aconselhado por alguém ele tenha retirado. Mas isso já aconteceu na onda posterior de apoio ao MBL, que a gente sabe que ele tem.

Também não acho que o Santander tenha sido movido necessariamente pelas manifestações dos clientes.A gente participa de todo o processo todo o tempo, muito próximo à exposição, depois que ela abre, e eu estive na abertura da exposição, na coletiva de imprensa, quando estava sentado ao meu lado representante do alto escalão do Santander. Naquela oportunidade, conversarmos abertamente. O Santander demonstrou imensa felicidade que estava a instituição. O processo foi dessa maneira. Aí, num determinado momento, depois das manifestações do MBL, o Santander, através de seus representantes, conclui uma vontade da maioria. Mas não é a vontade da maioria. Foi uma atitude absolutamente intempestiva. Eu tenho que dizer que ela se traduz como autoritária. As pessoas não foram consultadas, sequer por haver 85 artistas na exposição. Se esquece o significado que uma exposição representa, que não é só uma ideia simplificada de mostrar a ideia dos artistas, mas é também de circular conhecimento, de reconhecer que aquilo representa um corpo de conhecimento. Tudo isso não tem valor nenhum. Isso é transformado numa frase que diz que existem obras ofensivas, que podem ofender pessoas. Não é exatamente essa frase que eles usam na nota, mas é o sentido do que eles disseram. Aí eu fico me perguntando, fico fazendo uma conta na minha cabeça: na minha visão de curador, não é uma visão assim representativa do todo do público, claro, eu diria que existem 4 obras na exposição que poderiam ser “controversas”, entre aspas.

Você poderia dizer algumas delas?

Eu preferia não nomear para a gente não capitalizar isso e potencializar uma perseguição às obras e aos artistas. Obras que tratam de questões sobre racismo, por exemplo, foram atacadas como se fossem obras que tratassem de sexualidade, quando elas não são. Não tem como. Não são. As imagens não representam isso. Existe uma obra, essa eu vou falar, que foi muito citada inúmeras vezes pelo MBL. Existe uma obra do Antônio Obá, que é um artista excepcional, um artista negro que trata na sua produção muito da invisibilidade da comunidade de afrodescendentes e da comunidade negra especialmente no Brasil. É uma obra que tem hóstias. E eles disseram que isso era uma heresia, uma imoralidade, um ataque a fé católica e etc. Essas hóstias, primeiro elas não são bentas, mas isso é irrelevante neste momento, até porque elas têm impacto simbólico, claro. Mas essa obra é sobre a transubstanciação do corpo de Cristo. Como nós que tomamos a hóstia nos transformamos, e o corpo de Cristo neste processo. Essa obra está falando sobre antropofagia cultural, nos termos de Oswald de Andrade. Não quero me especializar muito na linguagem aqui, mas há uma distorção completa e falsa do que elas significam quando elas são retiradas de contexto. Aí eu volto de novo para essa observação de que o grande drama que temos que enfrentar neste momento é de que nós não temos como dar acesso às pessoas para elas julgarem por si mesmas neste momento que essa discussão pública está sendo feita, porque antes de tudo a exposição foi feita para abrir a discussão: o universo de expressões artísticas, culturais da comunidade LGBT, questões de gênero e etc. Essa possibilidade de diálogo foi sumariamente encerrada por essa decisão do Santander de fechar a exposição intempestivamente. Essa cruzada que o MBL deflagrou em direção à exposição quer dizer para nós o que nós podemos ver, o que não podemos ver, o que eles acham moral ou imoral, o que eles acham que faz parte dos bons costumes. Esse é o mundo que vivemos agora? Que um grupo reduzido com ideologias das mais reacionárias e retrógradas vai dizer para nós o que nós podemos ver e como nós podemos pensar? Esse é um grande e terrível precedente que esse fechamento intempestivo da exposição abre.

“Nós não temos como dar acesso às pessoas para
elas julgarem por si mesmas neste momento”

O que você acha que todo esse momento pode deixar para o futuro, Gaudêncio? Acha que a visibilidade da temática Queer ou LGBT pode crescer com o imbróglio? Acha que a exposição pode ser instalada em outros espaços? Gostaria que ela seguisse no Santander?

Eu acho que essa exposição tem uma força artística extraordinária. E ela teve essa visibilidade imensa, de muita visitação, as pessoas celebrando a exposição. Ela tem essa potência. E isso não tem como apagar. Ela é, do ponto de vista objetivo, exaustivamente documentada numa extraordinária publicação, com muitos textos refletindo a discussão, num material educativo maravilhoso desenvolvido para a exposição de educação. E tudo o que cerca esse corpo de obras que é enorme – porque a exposição é enorme e representativa da arte brasileira, da diversidade da produção artística brasileira – não será apagado. Isso deixa uma lição para nós: que a força da arte resiste. Ela resistiu sempre. Não vai ser agora que ela não vai resistir. Mas tem um alerta que nós precisamos estar conscientes neste momento: a democracia e as conquistas da liberdade de expressão, avanços em todas as áreas do conhecimento, elas têm que ser praticadas e mantidas. Tem que ter uma luta para que elas sejam mantidas na vida diária nossa. Elas não conquistas permanentes, infelizmente. Essa atitude arbitrária dá um susto em todos nós. Mostra que, num movimento relâmpago, de apenas dois dias e meio, uma exposição destra grandiosidade, com um certo consenso – nenhuma exposição tem consenso – da comunidade em geral e da comunidade artística, do universo acadêmico, dos intelectuais, é fechada arbitrariamente. E nós temos que ter isso em mente. Essas conquistas não são permanentes. Temos que lutar por elas todos os dias. A comunidade LGBT, que também faz parte da comunidade artística, a comunidade artística, o universo acadêmico que produz conhecimento, e todos aqueles que têm conhecimento pela arte estão em estado de alerta, porque, mais uma vez, nós temos essa demonstração. Temos um obscurantismo, que surge rapidamente de onde a gente menos espera – nesse caso, até que nem tanto de onde a gente menos espera, né?