Entre o bispo e o fanfarrão, quem sofre é a população.

11 de agosto de 2017 20h14

Nestas últimas semanas, uma briga pública vem chamando a atenção dos cariocas. Primeiro o prefeito Marcelo Crivella escreveu um artigo para O Globo sob o título de “Rio sem maquiagem”, onde tentou, a duras penas, expor todos os seus “feitos” em 7 meses de mandato. O ex-prefeito Eduardo Paes, provavelmente lá dos Estados Unidos, onde trabalha para o Banco Interamericano de Desenvolvimento, não se aguentou na cadeira e – falastrão que só –  publicou um textão no Facebook para criticar o seu sucessor.

DESCONTINUIDADE

É certo que a eleição de Marcelo Crivella (PRB) significou uma descontinuidade na política da cidade do Rio de Janeiro. O PMDB de Eduardo Paes não conseguiu eleger seu sucessor (Pedro Paulo), e o partido que ainda domina a política do Governo do Estado e da Assembleia Legislativa perdeu o controle que tinha, até o ano passado, na Prefeitura e na Câmara dos Vereadores da Capital. No Legislativo, Paes tinha vitória certa em quase todas as sessões (isso quando havia sessão, muitas eram derrubadas ao gosto do prefeito).

A relação de forças agora é outra. Crivella montou seu secretariado como uma salada de diversos partidos e interesses, mas parece não confiar muito em sua equipe. Preferiu centralizar forças num supergabinete, que faz de tudo um pouco. Ou de pouco quase nada. Na Câmara, a base do prefeito é irrisória – cerca de 17 dos 51 vereadores. Consequentemente, perde votações com muita frequência. E ainda mais nítido desta fraqueza, Crivella tem vetos rejeitados dia sim, dia também.

Crivella e Paes exporem suas divergências políticas em público até pode ser bom para a cidade, mas não do jeito que fazem. Eles demonstraram que estão mais preocupados em marcar a diferença entre os dois mandatos do que em levar o Rio de Janeiro a uma situação bem melhor.

Argumentos

Um desavisado, talvez um turista de algum lugar distante, que for ler os dois artigos em sequência vai ter a impressão que temos uma dupla de ex e atual prefeito para nos orgulharmos. Não é isso que acontece.

Eduardo Paes teve uma gestão que nem nós – que temos mandato de vereador e que estamos estudando profundamente o assunto – conseguimos ter certeza como terminou, especialmente no ponto de vista da saúde financeira do município. Ainda não fica nítido o tamanho do rombo do orçamento. Única certeza é que esse rombo foi jogado para debaixo do tapete, entrevista após entrevista, audiência após audiência. Paes deixou a Cidade Nova cantarolando uma robustez financeira que, infelizmente, não se confirma na prática. A situação já cheirava mal quando, depois de ter perdido a eleição, nos últimos meses de 2016, Paes cortou diversos repasses e deixou, por exemplo, hospitais sem pagamento de funcionários e fornecedores, como muito bem crítica nosso líder de bancada, o vereador Paulo Pinheiro.

Paes tem sim que sofrer pressão pelos indícios de corrupção em seu governo. Afinal, a Operação Lava-Jato já encontrou diversos crimes em obras públicas em nossa cidade durante seu governo. Recentemente, o secretário de Obras de sua gestão, Alexandre Pinto, foi preso pelo recebimento de propina em obras de saneamento e ainda em corredores do BRT.

O ex-governador Sérgio Cabral, do mesmo partido de Paes, está preso, entre outras coisas, por ter praticado corrupção em obras olímpicas, meninas dos olhos da gestão de Paes. O ex-presidente do Congresso Nacional Eduardo Cunha, do mesmo partido de Paes, está preso, entre outras coisas, por ter praticado corrupção nas obras do Porto Maravilha, outra menina dos olhos da gestão de Paes. Jacob Barata Filho, o maior empresário dos transportes do Estado, está preso porque, entre outras coisas, tinha relações promíscuas com o Governo do Estado, sempre do mesmo partido de Paes. Será que, ao contrário, inesperadamente, as estreitas relações dos Baratas com a Prefeitura eram corretas? Será que, inexplicavelmente, Paes não sabia que parceiros de seu partido estavam se aproveitando da corrupção na cidade que administrava? As contas do Município realmente foram aprovadas pelos órgãos de controle municipal, como defende Paes. Mas será que podemos confiar nesses órgãos aqui no Rio de Janeiro? O Tribunal de Contas do Estado foi, recentemente, devassado por operação da Polícia Federal e do Ministério Público Federal. Quase todos os conselheiros do órgão foram presos.

Nesta semana, Paes virou réu em processo que investiga crime ambiental e improbidade administrativa nas obras do Campo Olímpico de Golfe do Recreio.

O ex-prefeito ainda merece muitas críticas, em diversas áreas. Fez uma bagunça com as linhas de ônibus. Removeu comunidades inteiras sem qualquer justificativa plausível. Fez de conta que a Olimpíada traria um legado para cidade, mesmo sabendo que a manutenção dos caríssimos equipamentos olímpicos era inviável, como tem se provado. Paes deixou o Município com um déficit inaceitável de professores, com uma fila de espera inaceitável para consultas e exames.

Marcelo Crivella está há 7 meses no cargo. Suas marcas são as ausências e os cortes.

E o pior que isso fica nítido no texto que ele próprio escreveu para O Globo. Um prefeito que ressalta que (apenas) iniciou um estudo para instalar lâmpadas de LED na cidade não pode mesmo ter muito a mostrar. Até agora, Crivella não apareceu na Câmara Municipal para mostrar um estudo mais consistente sobre o orçamento ou sobre qualquer área, setor ou órgão da Prefeitura. Temos que concordar com Paes: Crivella não demonstrou ainda uma ideia para a cidade, alguma inovação, alguma saída para nossos problemas. Quando se aventurou em pensar em alguma nova solução, fez isso de forma patética: sugeriu instalar concreto blindado nas escolas públicas localizadas em áreas de risco. Demagogia pura. Uma ideia que, felizmente, ele mesmo já deixou para trás. Para Crivella, as soluções são os aumentos de impostos. Ele quer aumentar alíquotas de IPTU e ITBI. Para Crivella, as soluções são os cortes. Semana passada, a ameaça de fechar as Clínicas de Saúde da Família provocou uma intensa reação de funcionários e usuários do serviço público de saúde. A desaprovação de Crivella já ganhou os gritos da rua!

Falar em ausência de ideias e demagogia pura, lembramos da relação de Crivella com o Carnaval. O evento que, recentemente, foi eleito como o melhor do mundo pela renomada premiação da Trazee Travel não recebe tratamento digno do prefeito. Na festa desse ano, ele não compareceu à Sapucaí e nem mesmo passou a chave para o Rei Momo, uma tradição antiga. Muito pior do que isso, no meio desse ano, cortou autoritariamente metade dos investimentos para as escolas do grupo especial e também reduziu drasticamente os investimentos nas mais de 70 escolas dos grupos inferiores, que são a verdadeira base do Carnaval carioca. A demagogia de Crivella levou o prefeito a dizer que o dinheiro cortado do carnaval iria para as creches do Rio de Janeiro, uma maneira de colocar o carioca contra nossa maior festa, semente importante para nosso desenvolvimento econômico, cultural e turístico. Nosso mandato não aceitou as falácias e mobilizou uma campanha: Salve o Carnaval das Mãos do Bispo Crivella.

Crivella adota sua linha religiosa para decidir suas prioridades. Além de cortar no Carnaval, retirou o apoio público das Paradas LGBTs da cidade do Rio. Outra decisão que não encontra respaldo na ponta do lápis – afinal a Parada dá lucro -,  nem nas necessidades da diversa população do Rio de Janeiro. Outra decisão que vai ao encontro apenas daquilo que versa sua religião. No vídeo do lançamento do projeto “Rio de Janeiro a Janeiro”, calendário apenas com os carros-chefe do turismo da cidade, a Parada, terceiro maior evento da cidade (mais de 2 milhões de público e mais de R$470 milhões de movimento para a cidade). Contra esses ataques, também lançamos uma campanha, chamada Essa Parada É Nossa, para forçar a Prefeitura e Crivella a respeitar a nossa história, a nossa parada LGBT.

O prefeito/bispo tem encontrado tempo para manter seus compromissos com a Igreja Universal. Além de nomear pessoas da sua igreja para cargos da Prefeitura, como no caso do Procon, atrasou agendas para estar em seus templos. Esteve na África e no Senado Federal também em compromissos religiosos. Ainda mais grave, nessa semana, foi descoberto que a Guarda Municipal realiza um senso religioso e que a direção da Guarda está constrangendo servidores que não são evangélicos!

Crivella também se mostrou autoritário. Em decreto publicado no fim de maio, passou para seu supergabinete a avaliação de quais eventos devem ser autorizados ou proibidos na cidade. Diversos grupos pressionaram contra o decreto, visto como mais uma maneira de promover uma perseguição dogmática às manifestações da cidade. A pressão dos grupos negros já vem dando resultado, e a Prefeitura foi obrigada a liberar das autorizações as celebrações religiosas e também as rodas de samba.

Crivella e Paes devem continuar se engalfinhando pelos próximos anos. Enquanto o bispo deseja voos ainda maiores para si e sua igreja, como o governo do Estado, o fanfarrão não descarta voltar ao cargo de prefeito da cidade ou vir ainda como governador. Os dois têm e tiveram muitas falhas. Os dois têm projetos para a cidade que são totalmente opostos aos que defendemos na campanha do PSOL e ao que representamos hoje na Câmara junto à nossa bancada. Seguiremos atentos, fazendo oposição responsável. Afinal, qualquer prefeito pode errar. O que não pode é corrupção, o que não pode é intolerância religiosa.