Eles dizem que é guerra. Nós queremos saber como se chega à paz.

22 de agosto de 2017 18h23

por Caetano Manenti

Não era possível ouvir qualquer risada, qualquer gritaria. Nenhuma criança fazendo bagunça ao ir para a escola, nem mesmo o caótico barulho dos mototáxis era possível escutar. O barulho ensurdecedor, neste dia para esquecer, eram o dos coturnos, numa caminhada lenta e tensa sobre o chão batido da favela do Jacarezinho.

No fim da rua do Rio, a principal da comunidade, dois caveirões, um de cada lado da pista pareciam dizer: acabou mesmo o caminho para vocês, não há estrada possível. Nos becos e vielas, ao lado do campo do futebol, ao lado do trator da Comlurb, na entrada de supermercados, tomando cafezinho na padaria, a cena que se repetia era a mesma: soldados de guerra acompanhados de seus fuzis. Ou seriam fuzis de guerras acompanhados de seus soldados? Faz diferença. A impressão é que, neste espaço, mais importante do que quem você é, é a arma que você carrega. Serve para os dois lados dessa história. O fuzil é o crachá. Com ele, a cabeça erguida. Sem ele, o silêncio constrangido.

À tarde, à frente do secretário de Segurança do Rio e do Ministro da Defesa, alguns jornalistas reagiram com um “ohhh” quando Raul Jungmann encheu a boca para falar que a operação contou com 5 mil e quinhentos (5,5 mil!!) agentes! Logo emendou com outro número: 39 detidos… “39 bandidos retirados de circulação”. Mas todos tinham mandados, ministro? Secretário disse que sim. O assessor, atrás dos jornalistas, corrigiu que não. 12 eram “flagrantes”. A foto de três presos com apenas um pé de maconha começava a circular pelas redes.

                  Fotógrafo pediu anonimato.

Então esses eram os bandidos a serem retirados das ruas? Uma jornalista retrucou dizendo que um dos presos era devedor de pensão alimentícia. Secretário admitiu. Nenhum nome da alta hierarquia do crime foi apresentado. Nenhum fuzil foi apreendido. Apenas 5 armas. Uma arma apreendida para cada mil agentes. Deve ser algum tipo de recorde. Fiquei ainda pensando.. e se em vez de 5,5 mil agentes de segurança, o Jacarezinho e Manguinhos recebessem 1,5 mil agentes de saúde, 1,5 mil agentes de educação, 1 mil de cultura, 1 mil de assistência social e ainda 500 de esporte?

Na luta de conseguir uma pergunta numa coletiva, aumentei a voz.

– Diante de mais uma crise ligada ao tráfico de drogas e à questão de grupos armados em favelas, somada a uma população que reclama demais das operações – estivemos no fim de semana do Jacarezinho e os mototaxistas afirmam que André Luiz foi morto pelo Caveirão, que chegou atirando a esmo, outros reclamam que o fruteiro Sebastião morreu numa rajada de fuzil que partiu de um helicóptero -, a secretaria consegue rever a política de combate a drogas no Rio de Janeiro? Diante de 10 dias com 7 mortos, não está na hora de rever tudo isso?

 

 

– E quem te disse que aquilo era uma operação buscando somente o traficante de drogas? No caso do Rio, o traficante de drogas também faz o tráfico de armas. As armas de fogo são responsáveis por mais de 80% das mortes. O que nós queremos, preponderantemente, é preservar vidas. Mas além disso, nós temos todo um código penal extravagante que deve ser cumprido. Se alguém quer que mude isso, tem que mudar a legislação. E a política não é a do confronto bélico às drogas. Mas os criminosos que a polícia investiga e obtém o mandado de busca e a apreensão e de prisão, ao chegar para fazer essa captura, é recebido a disparos de arma de fogo. A gente quer acabar com a violência urbana, quer diminuir a violência urbana e isso NÃO PASSA POR UM PROGRAMA DE COMBATE ÀS DROGAS. Passa por combater qualquer crime, principalmente, os crimes violentos.

 

 

 

 

A informação da megaoperação vazou na madrugada. Muito possivelmente os traficantes do Jacarezinho fugiram. Boa parte da comunidade comemorou. Não que defenda o bandido. Isso é bobagem retórica, infantilidade da conversa. Como diz um mototáxi que conheci, “convivência não é conivência”.

A comemoração é por um dia sem tiros. Um dia no qual você não tem que se preocupar se seu filho será rasgado por uma bala fuzil. Esse é o ponto: chegamos num nível de barbárie tal que nenhuma operação faz sentido. A morte de inocentes, em nenhum contexto, faz sentido. Para “nós dos direitos humanos”, qualquer morte é lamentável, mas quem não pensa assim ainda terá que conviver com o seguinte raciocínio: matar qualquer traficante, mesmo o mais bandidão, já provou que não arranha qualquer poder das facções. Inclusive, seu poder de matar pode aumentar. Da mesma forma, matar qualquer policial só leva mais ódio para dentro do batalhão ou da delegacia, e o resultado, invariavelmente, é uma vingança sanguinária para toda a favela! Esse é o caso do Jacarezinho.

Me admitiu um policial civil da CORE que a direção desta coordenadoria não havia programado qualquer operação para o dia 11, quando o policial civil Bruno foi morto com um tiro no pescoço. Entrar na favela tratava-se de uma iniciativa própria dos policiais com rusgas locais contra os traficantes da área – a CORE e a entrada do Jacarezinho estão separadas por não mais de 200 metros.

O que se viveu depois disso foi uma vingança explícita, 7 mortes ao léu. O mesmo policial civil me admitiu: “antigamente, nós éramos o caçador e eles (os vagabundos) a caça. Agora tá o contrário! Um absurdo!”

Entre os policiais, a palavra guerra é mais comum que a palavra investigação. A palavra guerra é mais comum que a palavra inteligência. A palavra guerra está dentro de cada conversa da favela também. O jornal Extra aproveitou o caos e criou a editoria de guerra. As autoridades já utilizam a palavra guerra em seus documentos há tempo. Quem não gosta da palavra guerra são, em sua grande maioria, militantes que debatem o tamanho do massacre, com grandes poréns. A guerra é de quem contra quem, afinal? A guerra servirá para radicalizar a barbárie? Existe guerra que não queira exterminar o adversário? Essa é a tática, então, governador? Uma guerra completa, uma matança completa, como jamais vimos?

Para terminar esse pesadelo de segunda-feira, a informação de que 27 mil alunos ficaram sem aulas e que Prefeitura suspendeu as aulas por tempo indeterminado em 15 escolas da região. Em vez de suspender os tiroteios para proteger as escolas, o governo preferiu suspender as escolas para não atrapalhar os tiroteios.

O debate se é ou não é guerra me interessa muito. Mas o que mais me interessa mesmo é quando e como, afinal, essa guerra pode terminar? Como ela pode terminar logo, aliás?

Paz no Jacarezinho!

Para saber mais sobre o pesadelo dos moradores do Jacarezinho acesse:

Noite de guerra e troca de tiros na favela do Jacarezinho – BCN News
Quatro assassinados em uma semana de operações da polícia no Jacarezinho
Meu marido não merecia isso” diz esposa de motoboy assassinado pela polícia no
Moradores do Jacarezinho se reuniram para encontrar formas de enfrentar a violência do Estado dentro da favela