Aos companheiros do PSOL, sobre a Venezuela

01 de agosto de 2017 16h18
  • por Pedro Fuentes, fundador do Movimento Esquerda Socialista, uma das correntes fundadoras do PSOL

Rejeitamos a posição assumida pelo presidente do partido Luiz Araújo que, em nome do PSOL, fez a declaração na imprensa que toda a esquerda desde ao PT ao PSOL apoia a política do presidente Nicolás Maduro na Venezuela. Para ser ainda mais explícito, aclara também que o Foro de SP tem essa posição de apoio embora o PSOL (por sorte!!!) não está lá. Será que o próximo passo de Luiz Araujo será que o PSOL ingresse neste organismo onde, entre outros, está Daniel Ortega transformado em um autócrata que se diz de esquerda e que tem sólidos acordos com o imperialismo? Acha também que temos que apoiar o ditador Bashar Assad na Síria?

Araújo pode falar em seu nome, mas não aceitamos nenhuma declaração em nome do PSOL de apoio a Maduro sem ser discutida e votada pelos organismos partidários. Por isso temos todo o direito de fazer pública esta nota.

A posição de Araújo e a Secretaria de Relações Internacionais é uma vergonha para um partido que defende o socialismo e a liberdade, é uma mancha para PSOL para o qual, desde sua fundação, sua razão de ser tem sido lutar pela liberdade e pelo socialismo, como diz em seu próprio nome. Ficar do lado de Maduro é apoiar práticas anti-socialistas e antidemocráticas que lembram ao estalinismo e que agora reaparece nestas práticas maduristas que são uma cópia das que fez Stálin em seu momento. Apoiar Maduro é ficar do lado de quem utiliza o exército para uma repressão que já fez mais de cem mortos. É quem faz uma manobra fraudulenta impondo aos empregados públicos terem que votar com um novo documento chamado cartão cidadão; que engana o povo falando do inimigo imperialista, mas fazendo os acordos de entrega de uma grande parte da riqueza mineral do pais.

Todo o partido deveria apoiar a Plataforma Cidadã em Defesa da Constituição onde estão ex-ministros como Héctor Navarro, Oly Millán Campos, Ana Elisa Osório e Gustavo Márquez; os professores universitários Edgardo Lander, Esteban Emilio Mosonyi, Santiago Arconada, o constitucionalista Freddy Gutiérrez, o Major-General Cliver Alcalá Cordones, os dirigentes de Marea Socialista Gonzalo Gómez, Juan García, Carlos Carcione e Roberto López Sánchez). São companheiros que fizeram parte do governo de Chávez, ou valiosos companheiros que estiveram na primeira fileira contra o golpe de 2002 e participaram da fundação do PSUV. É a declaração de Maria Estela Sampa, Lander e mais de 500 intelectuais e personalidades que assinam um chamado mundial por uma saída democrática para Venezuela. Ambas estão contra a Nova AC, contra o MUD e toda ingerência estrangeira do imperialismo.

Na Venezuela se vive uma situação dramática. Esta está provocada pela casta burocrático-burguesa no poder e a lumpen-burguesia expressa na MUD. A MUD ganhou amplos setores da classe média e do povo tomando as bandeiras democráticas que o madurismo acabou. Quem deu força ao MUD foi Maduro com sua política. O MUD se escudando atrás delas pretende voltar ao poder para que um pequeno setor burguês que durante muitos anos o utilizou apenas para viver placidamente da renda do petróleo entregue ao imperialismo. Mas Maduro responde diretamente a uma casta formada entre o aparato burocrático-burguês e os militares que abandonaram as conquistas democráticas, sociais e anti-imperialistas que foram introduzidas pela Revolução Bolivariana dirigida pelo comandante Chávez: a nacionalização do petróleo, a democracia direta que facilitou a auto-organização popular, a utilização da renda petroleira para desenvolver ambiciosos projetos sociais.

No entanto o povo passa fome e vive uma situação dramática na Venezuela e tem um enfrentamento que não tem nenhum setor progressivo. Nossa posição não é de neutralidade! A poiamos aqueles que defendem que seja o povo que decida, sem manobras fraudulentas! Na Venezuela não há um enfrentamento militar que nos obrigaria ter que tomar outra posição.

Nós podemos falar sem nenhum temor sobre Maduro e Diosdado. Porque estivemos desde o primeiro momento apoiando as transformações radicais de Chávez. Nós estivemos na Venezuela quando a patronal fez a longa greve e a sabotagem petroleira. Estivemos juntos com os trabalhadores de Carabobo quando estes recuperaram as destilarias, junto com o movimento 13 de Abril e o ministro de planejamento Ronald Denis os ajudando a fazer o movimento de contra-insurgência. Graças a essa posição consequente o comandante Chávez veio ao Fórum Social Mundial de 2003 em Porto Alegre, convidado pela Luciana Genro, fazendo um histórico discurso no auditório da Assembleia Legislativa – à revelia da direção do PT e dos organizadores do Fórum Social Mundial que haviam feito de tudo para negar o convite.

Por isso, temos suficiente autoridade para falar a verdade. Araújo e a SRI falam de apoio à Revolução Bolivariana. Mas o governo de Maduro é a antítese do Chavismo. É, digamos com todas as palavras, a degeneração da Revolução Bolivariana. É um regime bonapartista totalitário: guardadas as devidas proporções, Maduro tem muito mais semelhanças com o Kadhafi dos últimos anos e o Neto de Angola.

A história nos tem ensinado, desde a Revolução Francesa até nossos dias, que quando uma revolução se estanca, ganha poder os aparatos que a degeneram. Assim se passou com a Revolução Russa ou mesmo com a de Angola, que sofre a ditadura de J. E. Santos, e agora na Venezuela. Este enfrentamento entre duas forças regressivas (a direita com a MUD e o governo de Maduro) explodiu com uma força brutal contra o povo que vive momentos angustiantes. Na Venezuela se vive a contradição entre a grande crise mundial que vive o capitalismo e ausências ou debilidades de alternativas anticapitalistas. Mas o PSOL está para construí-las alternativas e não misturar-se com o neo-estalinismo.

Por último, a chamada votação para uma nova constituinte tem sido um mega fraude. Para os companheiros do PSOL dirigentes ou militantes olhem para os processos com objetividade, vejam a seguir um breve texto de um companheiro do chavismo crítico fazendo a análise sobre domingo.

A arte do engano e o mega fraude

Com crise, com as pesquisa lhe dando menos de 20% de apoio ao governo, com cifras não acreditáveis que ultrapassam a Chávez e a anteriores votações de Maduro, tendo perdido a Assembleia Nacional em 2015, com mais desmarque como o Chavismo crítico…? E ainda assim uma abstenção “oficial” de 58,47 % sem saber ainda os votos nulos.
Os 8 milhões de votantes não são de maneira nenhuma acreditáveis. Vimos muitos centros de votação quase vazios, mas deram impacto visual habilitando o Poliedro para votar por fora dos centros eleitorais de sempre. Uma manobra goebbeliana espetacular. Não acreditam essas cifras e a percentagem de 41,57% de votantes do primeiro boletim.

O governo repressivo fez um megafraude eleitoral, com militarização, repressão, voto obrigado e sob pressão. Trata-se um governo de corruptos, subornado pelo Odebretch, obras pagas inconclusas pelo valor que atenderia a fome, desfalque brutal, e uma direita com símbolos desbotados de esquerda entrega ao país enquanto briga verbalmente com o império. Já sei que haverá companheiros que justificarão até que nos coloquem presos os chavistas críticos e a esquerda não madurista. Mas não sigam apoiando este governo farsante e violador dos direitos humanos. Vamos resistir às manipulações. Nem burocracia nem capital. Nem PSUV nem MUD. Não ao Arco Mineiro, não ao sacrifício do povo por uma dívida corrupta, não a mais empresas mistas com transnacionais e imperialismos, velhos ou novos. Agora o poder constituído da nomenclatura se apresenta como “constituinte”, pura burocracia corrupta. Superaremo-lo. Viva Chávez.

Há muitos outras provas irrefutáveis apresentadas por militantes chavistas. Um delas se pode ler aqui: En Venezuela el orden de los factores si altera el producto, por Oscar Omaña