Por que militantes trans estão criticando a novela ”A Força do Querer”

19 de julho de 2017 20h58

Por Bárbara Aires: Colaboradora trans do Mandato Coletivo David Miranda

A discussão sobre a diversidade de gênero tem avançado. ”Liberdade de Gênero do canal GNT”, ”Quem Sou Eu” do programa Fantástico e, atualmente, a novela ”A Força do Querer”, da Rede Globo.

                  Ivana, A Força do Querer

Sabemos, reconhecemos e agradecemos a visibilidade. Temos consciência da importância trazer o debate à tona. Isso elucida a sociedade sobre essas questões apagadas do nosso cotidiano.

Não é só sobre agradecer. Não podemos tratar como um grande favor. É também questionar e criticar. A bola da vez é a “A Força do Querer”. A novela tem incomodado muitos e muitas, sobretudo militantes da causa LGBT, principalmente travestis e transexuais. Afinal, o assunto é sobre nós.

A novela traz duas personagens envolvidas com a questão trans. Ivana que está se descobrindo homem trans e Elis Miranda que se autodeclara travesti. Desde o início, a novela vem sendo muito criticada pela forma com a qual aborda o tema. Vem sendo criticada pela maneira que coloca os conceitos que explicam a travestilidade e a transexualidade.

Nesta segunda-feira (17/07), foi ao ar mais uma cena da novela. Ivana estava numa sessão de terapia. A personagem, perturbada, questionava seu gênero. A novela brincou com jogo de cenas e, paralelamente, mostrou Elis Miranda conversando com uma amiga. A travesti respondia as questões discutidas por Ivana e sua terapeuta.

Ao contrário de Ivana, Elis começou dizendo que não nasceu no corpo errado. Disse que não queria arrancar nem acrescentar nada ao seu corpo, atribuindo essas necessidades aos “transgêneros”. A personagem dizia que sua cabeça não aceitava o próprio corpo, que ela não é assim por ser travesti transformista. Elis, com orgulho, disse que se pudesse, passaria o dia todo vestida com ”roupas de mulher” – na novela, Elis passa boa parte se portando como um homem no trabalho. Além disso, a personagem disse à sua amiga que não tinha se deitado com mulheres, porque nesse sentido ”ela era gay”.

VAMOS AOS EQUÍVOCOS

Realmente, travestis e transexuais não nasceram em um corpo errado, como a medicina, o fundamentalismo e a sociedade querem nos fazer crer. Travestis e transexuais nasceram em seus corpos, legítimos, corpos trans, que devem ser respeitados. Essas pessoas nasceram na sociedade errada.

Travestis fazem modificações corporais sim e não ”arrancam” ou ”acrescentam” nada. A linguagem faz muita diferença na hora de explicar essas questões. Portanto, temos nesta parte o primeiro equívoco.

Travestis em sua grande maioria – entre 80 e 90% – usam silicone industrial para modelar seus corpos, fazem cirurgias plásticas, colocam próteses mamárias e ficam 24 horas do seu dia no gênero feminino. Já as transformista não. Elas se caracterizam apenas para eventos.

Travestis que se relacionam com homens são héteros. O que denomina a orientação sexual das pessoas não é o órgão genital, nem cromossomo e sim o fenótipo. Logo, uma imagem masculina com uma feminina: casal hétero. Uma imagem masculina com outra masculina: casal gay. Uma imagem feminina com outra feminina: casal de lésbicas. Assim sendo, travestis podem ser hétero, bissexuais ou homossexuais.

Transgênero. Palavrinha difícil, pouco usada, geralmente mal atribuída, como no caso da personagem. Segundo erro: Qualquer pessoa que transcende seu gênero, que vai além do gênero diagnosticado no nascimento, é transgênero. A palavra transgênero serve justamente para representar todas essas identidades, logo, travesti é transgênero, assim como transexual.

Lembrando também que temos as identidades transmaculinas – os homens trans – que podem também podem ter orientações sexuais diversas. Homens trans podem ser gays, héteros e bissexuais.

A informação é um dever. Informar com responsabilidade mais ainda. Conforme dito anteriormente. Além de mim, outros militantes e internautas observaram o equívoco no cerne dessas informações. Diante do rebuliço nas redes, parte da equipe de pesquisa da novela justificar. O que foi um caos. Além de não aceitarem as críticas esses funcionários que prestaram um desserviço, atacaram militantes transexuais. Como foi meu caso.

Criticamos a irresponsabilidade da Rede Globo e da produção da novela porque, certamente, pessoas trans vão sofrer com a maneira que a novela as representa para todo o pais, quiçá o mundo. Pessoas trans que andarão nas ruas e serão apontadas. Sabemos o que falamos e vivemos. Temos muito o que ensinar. Basta dar ouvidos. Lutar pela igualdade e contra a violência contra nós passa por nos consultar.

A crítica é no sentido de explicar ao grande público as diferenças entre gênero e sexualidade, mas lógico que cada travesti tem a sua percepção do ser travesti e cada transexual tem sua percepção do ser transexual, não existe uma regra ou fórmula e a autonomia, a individualidade e a singularidade de cada pessoa deve ser respeitada, seja ela trans ou não.

Link da cena da novela http://gshow.globo.com/novelas/a-forca-do-querer/capitulo/2017/07/17/joyce-descobre-caso-de-eugenio-e-irene.html#video-6014190