Folha, não lamente as cotas raciais na USP, lamente seu editorial desonesto!

10 de julho de 2017 17h05

Um editorial é, basicamente, a unanimidade de opinião dentro de um jornal. É o que, institucionalmente, se emite daquele lugar. A Folha, jornal mais lido da imprensa nacional, tem que ter responsabilidade com o Brasil. Faz parte de um dos maiores grupos de mídia do país. Tem sua parte no restrito oligopólio da comunicação brasileira. É uma instituição, sobretudo, de poder influenciador: cultural, econômico e político. A mídia é uma instituição paradigmática.

No editorial deste domingo, a Folha de São Paulo lamenta que a USP, a partir do próximo ano, adotará cotas raciais. O aumento vai acontecer paulatinamente. Até 2021 metade dos calouros deverá ser cotista.

                  Foto: O Estado CE

A Folha tem o cômico slogan “A serviço do país”. Como algo que se diz a serviço do país pode estar do outro lado da rua no discurso e na prática de combate à desigualdade?

Grande veículo que é, o comando da Folha só poderia ser de uma família poderosa. A família Frias é uma das mais ricas e importantes no ramo da informação. O diretor-executivo da empresa, Luiz Frias, é filho de Octávio Frias, diretor do grupo até sua morte em 2007. Informação importante: Luiz estudou economia na USP, assim como fez seu mestrado na Universidade de Cambridge, Inglaterra, e na Universidade de Paris, França. Os principais diretores de alto escalão da Folha não têm uma trajetória muito distinta. Todo o conselho editorial da Folha é composto por homens brancos. Talvez por isso seja fácil se colocar contrário às cotas raciais. Imaginem pretos em Cambridge junto aos filhos da elite branca brasileira?

O argumento chulo do editorial deste domingo é a existência de famílias brancas pobres. O que não é uma mentira, claro. Sim, existem milhares de famílias brancas e pobres. Mas, no país que brotou do maior processo de escravidão africana do mundo e do genocídio do povo indígena,
a pobreza está, necessariamente, atrelada à cor. Evidentemente, foi a perseguição legalizada, promovida e protegida pelo Estado, a razão de termos mais de 75% dos pobres no país como não-brancos e negros.

                                             Editorial da Folha de São Paulo

Segundo dados da Fuvest, em 2015, o total de pretos entrando foi 391 ou 3,5% do total. Já em 2016, o número caiu para 328 ou 3,2%. A quantidade de pardos matriculados em 2015 foi 1.642 (14,8%); em 2016, o número de pardos foi 1.427 ou 14,0%. Já no tão sonhado curso de medicina, um dos mais concorridos da USP, também houve uma triste diminuição. Em 2015, dos 300 aprovados pela vestibular, 234 eram brancos, 4 pretos, 30 pardos, 32 amarelos e NENHUM indígena – já citamos o genocídio do povo indígena, né?

Em 2016, dos 298 ingressantes, 238 eram brancos; 2 pretos; 22 pardos; 36 amarelos; e MAIS UMA VEZ, NENHUM indígena – dados da Agência Brasil em 2016.

Os alunos brancos são a esmagadora maioria ingressantes na USP, o percentual é de 75,8%.

Enquanto os lugares mais dolorosos forem habitados por pessoas pretas, a desonestidade não terá vez. Não nos calaremos!

Reiteramos que não consideramos as cotas a salvação do Brasil, sabemos que as problemáticas raciais hoje, são causadas pelo peso da história. Colonizaram os povos tradicionais brasileiros, escravizaram o povo africano. Grandes grupos querem, através do jornalismo e da informação, colonizar nosso povo através das nossas mentes.