É hora de mostrar pro asfalto o que acontece nas favelas!

17 de julho de 2017 21h41

Movimentos de resistência contra a violência racista lançam 2º Julho Negro.

A Casa Pública, situada no bairro de Botafogo, zona sul do Rio de Janeiro, recebeu uma coletiva de imprensa que, definitivamente, não deveria existir. Não que a pauta – o genocídio de jovens negros nas grandes cidades do Brasil – não devesse existir. A entrevista coletiva não deveria existir porque, mais de 500 anos depois da escravização, a ferida criada pela desumanização e marginalização do negro brasileiro, há tempos, deveria ter sido cicatrizada. É um absurdo que o povo que construiu esse país com suor e sangue – mais sangue que suor – continue na base de uma pirâmide que foi construída como um projeto permanente.

Foi o lançamento do 2° Julho Negro e também da campanha ‘A Vida Nas Favelas Importam’. Trata-se da movimentação de dezenas de favelas da cidade do Rio e periferias de outras cidades brasileiras para debater a violência do estado em suas diversas faces e braços, principalmente pela Polícia Militar que, incessantemente, mata favelados. Para alguns que vivem longe dessa realidade ou não se sensibilizam com assunto, o assunto pode parecer maçante, repetitivo. Mas imagina pra quem tem como despertador uma bala de fuzil atravessando sua janela. Quem acorda com balas atingindo sua casa ou até mesmo seu corpo?

O Julho Negro pauta a questão da violência e o genocídio nas favelas, colocando no centro a questão racial. Pauta o desconhecimento da democracia, que nunca chegou à favela. Questiona o Estado Democrático de Direito naquele território. Afinal, supostamente, a constituição assegura direito para todos e todas, mas nem o direito a vida o povo do morro tem. O Julho Negro realizará, do dia 17 ao 21, atividades em diversas regiões da cidade.

As mães que estavam presentes para o debate expuseram fotografias, no chão, de jovens rostos, vítimas de uma guerra que acontece aqui mesmo, em nossas cidades.

“Julho Negro é uma semana de atividades para pautar raça, classe, gênero, segurança pública e pra circular a cidade. A gente tá tendo um aumento nas chacinas. Hoje temos mulheres e crianças também sendo assassinadas. São quase 10 anos de UPP. São quase 10 anos também de grandes massacres nas nossas favelas com essa polícia que está dentro da favela matando a gente. Tratando a gente com criminalização da vida de novo. São 10 anos de megaeventos no Rio. São 5 anos de favelas removidas, 77 mil pessoas sem casa, 11 mil pessoas pobres, negras e faveladas sem aluguel social. É o aumento de moradores de rua. É aumento da militarização” reclama Gizele Martins, jornalista e militante de movimentos de favelas.

 

Mães protagonizaram a entrevista Coletiva. Estavam presentes representantes da Redes Contra a Violência, Mães de Manguinhos, Mães de Mai,o entre outras redes de organização e apoio.

Maria Dalva, moradora do Borel, zona norte do Rio, mãe de Thiago da Costa, 19 anos, executado em 2003. Tiro nas costas. Thiago não foi sozinho. O Estado levou mais três junto com ele. Três fisicamente, mais o coração da mãe, família e tantos amigos. O coração do seu lugar. Thiago não morreu porque portava armas ou drogas. Thiago morreu por estar no lugar errado. A favela, para o Estado, a todo momento, é um lugar errado.

Naquele mesmo ano, os policiais que mataram Thiago foram homenageados com o título de “Eficiência Policial”. O Estado comemorou mais covas cavadas para enterrar jovens.

“Em 2003, foi o sinal verde que o Estado deu para a polícia matar. A polícia matou 119 jovens. A maioria com tiro nas costas e na cabeça. Mulheres mães negras são machucadas desde a maternidade. Médicos acham que somos resistentes a dor’’ –  relatou Maria Dalva.

Maria Dalva também falou sobre violências arquivadas, como foi o caso de Matheus, 7 anos, executado na Maré. Inquérito arquivado. Patrick, 11 anos, executado na Camarista Méier. Inquérito arquivado. Fabiana, morta na Mangueira por um caveirão. Inquérito arquivado.

Estava lá também Ana Paula, do Fórum Social de Manguinhos e do Movimento Mães de Manguinhos. Infeliz coincidência com Maria Dalva, seu filho Jonathan também foi executado aos 19 anos. Mais uma infeliz coincidência, assim como Thiago de Maria, Jonathan também foi morto pelas costas.

Ana Paula questionou o perfil de quem mais morre. São eles adolescentes negros de favela. Analisando os fatos a conclusão é de que talvez não seja coincidência. Os territórios, as idades, a cor da pele.

“É isso que nossa movimentação está buscando: a memória e verdade. Não podemos deixar que isso se perca”. O caso de Jonathan é excepcional. Foi visibilidade o suficiente para que a justiça desse a devida atenção.” falou Ana Paula.

 

O caso de Jonathan vai à juri. O policial que matou Jonathan já respondia por três tentativas de homicídio. “Dizem que isso não dá em nada, mas hoje sinto muita força e felicidade por estar nessa luta”, disse a mãe do jovem.

Outras mães com histórias de vidas e de mortes tão trágicas também contribuíram com o debate. Débora, uma das fundadoras do Mães de Maio, teve seu irmão desaparecido durante a ditadura militar pelo Esquadrão da Morte. Tereza, também do Mães de Maio, é uma militante que acompanha os secundaristas que ocuparam suas escolas no ano passado.

Renan, morador da Mangueira: logo de início falou que tinha crises de ansiedade. O que é extremamente normal para quem assiste de perto tragédias acontecerem frequentemente. Renan tremia as mãos. Seus olhos, assim como o de muitos que estavam ali, lacrimejavam, sua voz estava trêmula. Renan falou que não estava acostumado com câmeras, luzes e microfone.

O jovem de 31 anos lembrou da trágica morte de mãe e filha na Mangueira no último dia 30. Marlene Maria da Conceição, de 76 anos e Ana Cristina Conceição, de 42 anos. Em meio a operação na favela, Marlene levou três tiros nas mãos e um na cabeça. Na tentativa de salvar a mãe, Marlene levou um nas costas. Em meio a gritos e choros, ambas foram arrastadas morro a fora. No mesmo dia em que a estátua do Cartola serviu de escudo para os policiais, a Mangueira tornou-se um campo de guerra.

Renan também fez uma crítica a imprensa e cobrou responsabilidade daquilo que se informa.

“Procure as pessoas de dentro da comunidade. São elas quem vão dizer realmente o que está acontecendo. Se há um tiroteio na Mangueira, você não vai num cara na Tijuca perguntar a solução ou o que pode acontece. Sabe?’’

O evento Julho Negro de 2017 também busca a internacionalização do debate. O Haiti, a Palestina e os EUA também estiveram presentes. Clarens Cherry, do Haiti, contou um pouco sobre sua experiência enquanto negro no país. Afinal, o buraco é mais embaixo quando, além de negro, se é um imigrante negro. Cherry é hoje presidente da Associação Kay Pa Nou, que atende haitianos que vivem em Florianópolis

“Brasil, eu te pari.” – falou Cherry em alto e bom som declarando respeito e admiração às mães que estavam presentes falando de suas dores e perdas.

A estudante Buba Aguiar, moradora de Acari, militante de favela e do movimento Fala Akari, também se emocionou e emocionou a todos. Com apenas 25 anos, a jovem já perdeu um irmão. Seu paradeiro até hoje não é sabido. Buba é uma das principais articuladoras da campanha Favelas Na Luta – A Vida nas Favelas Importam –  que foi lançada hoje (17/07) junto ao lançamento oficial da semana do Julho Negro. Buba disse que não é mais momento de pedir por mais direitos. É hora de exigir!

O evento terminou com um recado virtual do movimento estadunidense Black Lives Matter. Uma das militantes cantou um louvo batista que, com seu timbre, deixou todos da Casa Pública arrepiados.

Cláudia PRESENTE! Amarildo PRESENTE! Paulo PRESENTE! Eduardo PRESENTE!
Agora e sempre! Os mortos têm voz e quem, ainda vivo, contraria as estatísticas também sabe gritar!

A semana segue com atividades do Julho Negro e a campanha Favelas na Luta seguirá com todo gás! A vida nas favelas importam!