Com samba, afoxé, jongo e coco, povo negro do Rio celebra a memória do Valongo

10 de julho de 2017 22h22

Região que mais recebeu seres humanos escravizados na América (pelo menos, um milhão) foi reconhecida pela UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) como patrimônio da humanidade.

Os poloneses visitam Auschwitz, o maior campo de concentração da Segunda Guerra, como forma de lembrar o horror pelo qual seu povo passou. Os peruanos vão às ruínas de Macchu Picchu para entender como a A Conquista espanhola dizimou seu povo mais tradicional. E nós? Até onde o povo brasileiro – sobretudo, o negro – vai chorar, refletir, homenagear sua maior tragédia? Quando nossos olhos ou nossos pés cruzam com essa história? Quantas vezes lembramos que bem aqui (hoje na rua Barão de Tefé) nossa maior cicatriz – ainda não fechada- foi aberta?

Pelos cálculos mais atualizados, o Brasil, em cerca de 350 anos de escravidão, recebeu mais de 4,8 milhões de africanos sequestrados, forçados a atravessar o Atlântico em navios superlotados para serem propriedades de senhores de engenho, barões do café e do ouro. No século XVIII, esta jornada terrível partia da África e tinha, especialmente, o Cais do Valongo como destino, justamente no coração da crescente cidade do Rio de Janeiro, sede da corte do Império. Estima-se que o Valongo recebeu até 1,2 milhão de escravos.

O Cais do Valongo não era apenas o pequeno (porém movimentado) local de desembarque destas pessoas. Nesta região, havia também um complexo que recebia e comercializava os escravos ainda não negociados. Muitos doentes da viagem ficavam por aqui recebendo rudimentares cuidados médicos ou, ainda pior, tinham o Valongo como último lugar da vida, antes de serem despejados num cemitério desumano, perto daqui, onde esqueletos eram jogados uns sobre os outros.

A história do Valongo ficou esquecida durante um século e meio. Na tentativa de apagar a história que envergonha, um outro cais foi construído por cima, o Cais da Imperatriz. Mais tarde, a região foi aterrada e o cais do Valongo/da Imperatriz virou o mesmo que quase toda a cidade, uma avenida cimentada. Durante muito tempo, embaixo dos nossos pés, sob camadas de cimento e asfalto esteve esquecida, desprezada, nossa história.

Foi nas recentes obras de transformação da região portuária do Rio de Janeiro, há apenas 6 anos, que esse pedaço fundamental de nossa tragédia veio à tona novamente. Desde 2011, o local virou referência para esse espaço conhecido como Pequena África. Por aqui, muitas rodas de jongo, jogos de capoeira, aulas de história desde então!

Diversos movimentos, o Instituto do Patrimônio Histórico  Nacional e a Prefeitura do Rio de Janeiro ingressaram com a solicitação, junto à ONU, de dar ao Valongo o título de Patrimônio da Humanidade. A homenagem agora concedida obriga que as autoridades brasileiras estabeleçam salva-guardas para garantir sua preservação e valorização para as gerações futuras.

A festa do povo negro foi nesta segunda-feira. Foi linda! Centenas de pessoas se reuniram desde o fim da tarde para celebrar a conquista. Primeiro uma roda de samba muito especial, a Roda de Samba da Pedra do Sal, que reclamou da perseguição que o autoritário decreto do Marcelo Crivella vem forçando na cidade. As letras dos sambas tocados, invariavelmente, lembravam da luta do povo negro por respeito e justiça.

Um sorriso neeeeegro, um abraço neeeeegro, traz felicidade!

Depois diversos grupos de jongo, coco e samba de roda tomaram a vez. Foi hora de lembrar os povos de quilombo. O batuque seguiu referenciando os ancestrais que, por aqui, desembarcaram no novo continente. Ainda mais perto do Cais, a noite recebeu o Afoxé Filhos de Gandhi, outro grupo tradicional da cultura negra carioca! Eles dançaram e cantaram. Aparecerem no maior telejornal da cidade, que, a esta hora, estava ao vivo na praça.Uma das figuras mais marcantes era Tojá dos Reis, Senhor dos Caminhos. Vestido como um rei, ele dançou lindamente, sorriu para todos!

– Tivemos esse presente mundial, esse reconhecimento da UNESCO, mas aqui dentro da nossa própria província, ainda há uma poeira que não deveria existir.

– O racismo?

– Sim! A região de Santa Teresa (local de muitos refúgios quilombolas) também tem muitos espaços a serem trabalhados. Tem gente que mora em Santa Teresa e não sabe história nenhuma. Tem gente que diz: ‘eu moro na Gamboa’ e não sabe o que aconteceu aqui. Tem gente que mora na Pedra do Sal e diz que mora na Praça Mauá. Tem gente que não tem qualquer referência do que é morar aqui, do que pode ser morar aqui e do que isso aqui pode vir a ser.  

A mensagem de Tojá, realmente, é um caminho para onde devemos avançar. Reconhecer o que foi o Valongo é lembrar daquilo que não pode ser esquecido. A História é nossa, e o Patrimônio é de toda a humanidade.