A Candelária nunca será esquecida: ato lembra chacinas do Rio de Janeiro!

18 de julho de 2017 21h48

Os sinos da igreja badalavam cinco horas da tarde. Dezenas de pessoas estavam em frente à Igreja da Candelária. O frio do mês de julho faz lembrar o mesmo mês em que oito meninos foram brutalmente assassinados naquele mesmo local, 24 anos atrás. Um ato repleto de dor e indignação também fez parte da programação do 2º Julho Negro. O movimento criado por favelados do Rio de Janeiro critica crimes do estado brasileiro contra a população negra.


Madrugada de 23 de julho de 1993. 

A fome, certamente, assolava. O frio das noites de inverno perturbavam. Alguns foram despertados. Outros nem a oportunidade de acordar tiveram. O medo de correr. O medo de ficar. As balas pegaram, atravessaram e mataram oito crianças bem em frente a um importante símbolo do catolicismo. A igreja da Candelária, mundialmente conhecida, hoje tem sua história associada a um dos maiores crimes do país: oito meninos que dormiam na rua enquanto policiais militares em carros comuns atiraram sem pudor algum. Oito meninos que o criminoso Estado brasileiro deixou dormir sem cama e sem cobertor.

Essa trágica parte da história do Rio completa 24 anos nesta semana. Mais uma de muitas outras desde a fundação desta cidade. O Rio, apesar de lindo, vive machucado.

Outras chacinas

O ato também lembrou de outras execuções e chacinas. Três anos antes da Chacina da Candelária, em 1990, aconteceu a chacina da Acari, que levou 11 jovens, sendo 7 deles menores de idade. Essa tragédia também foi lembrada pelos manifestantes.

Às seis horas, soou alto o sino da Candelária. Mônica Cunha, que também teve filho assassinado, mandou um papo forte ao microfone:

“A gente ja descobriu o que é racismo. Vamos parar de desculpas e assumir que moramos num país racista. Existe desigualdade sim. Negros não têm oportunidades que brancos têm. Vamos começar a pensar em quem está na Universidade e nas medidas socioeducativas. Mal há vagas no cemitério. A quantidade de povo preto enterrada está errada.”

Às sete horas, o alto relógio da Candelária batia. Os manifestantes, sobretudo mães percorriam o caminho da Candelária à Central com palavras de ordem. Carregando fotografia de rostos de jovens que já se foram, carregavam também corações em eterno luto. É uma luta longa, mas o dia em que não precisaremos falar de tanta dor ainda chegará.

Não esquecemos de Rafael Braga

A programação do 2º Julho Negro seguiu para uma casa de shows na Lapa, o Ganjah. O evento foi organizado principalmente por artistas. Com a intenção de arrecadar dinheiro e alimentos para a mãe e as irmãs de Rafael Braga, a casa exibiu o filme Doces Sonhos, dirigido por Macário, cineasta negro carioca que, em sua obra, também fala da dor de mães que perdem seus filhos. A noite seguiu com shows e performances.

As atividades do Julho Negro seguirão até o próximo dia 21.