O samba canta, pressão cresce e Crivella vai receber presidentes de escolas.

27 de junho de 2017 20h05

A semana começou com sambistas mobilizados em um lindo ato, com muito samba enredo, saudação aos orixás e todas as entidades que protegem a cultura negra carioca e brasileira.

Nesta segunda-feira, o largo em frente à Prefeitura foi ocupado pelo povo preocupado com o futuro da nossa cultura popular, com o futuro de nosso carnaval. Pelo menos, trezentas pessoas se reuniram no começo da noite para o ato “Não é pelos 50%, é por respeito”, uma mobilização contra o anúncio do prefeito/bispo Marcelo Crivella de cortar investimento nas mais de 80 escolas de samba de todos as divisões do carnaval carioca. O protesto foi uma sugestão do vereador David Miranda feita semana passada, na última reunião da Comissão Especial do Carnaval, da Câmara do Rio. A ideia foi abraçada pela Frente Popular do Samba, que organizou o evento.

Estiveram presente, além de uma maravilhosa roda de samba enredo, diretores de escolas, compositores, baianas, mestres-sala, porta-bandeiras, músicos, principalmente sambistas, inclusive de escolas da divisão de acesso. Além disso, também participaram do ato carnavalescos da Beija-Flor, Mangueira e São Clemente. O presidente da Portela, atual campeã do carnaval do Rio, Luis Carlos Magalhães, e vice-presidentes da Mocidade, outra escola campeã, também compareceram. Todos foram muito procurados pela imprensa, inclusive internacional, que marcou grande presença. Nesta terça-feira, o site O Carnavalesco apurou que Crivella irá se reunir com presidentes de escolas nesta manhã de quarta-feira. A pressão deu resultado.

Durante o ato, o mandato coletivo do vereador David Miranda lançou uma campanha de abaixo-assinado para pressionar o prefeito a não cortar os recursos do Carnaval. É importante que todos assinem! 

“O prefeito está colocando sua vontade religiosa acima do Rio de Janeiro. É uma perseguição dele e seu grupo ao carnaval. Tanto que o nome deste ato é “Não é por 50%, é por respeito”. A gente quer respeito. A gente sabe que o país tá em crise. A gente sabe que, às vezes, o gestor público pode ser obrigado a vir fazer cortes, mas eu não entendo por que corte no carnaval, no momento em que os gastos com publicidade só aumentam, no momento em que as empresas de ônibus têm isenções fiscais. Por que tirar dinheiro do carnaval? Além do corte, ele contrapõe a opinião pública ao dizer que tiraria o dinheiro das escolas de samba para dar para as crianças nas creches. É óbvio que carnaval e creches não são inimigos. Com o dinheiro que o carnaval dá para cidade, dá para reformar muita creche e botar muito iogurte na barriga das crianças. Afinal, o carnaval injeta R$3 bilhões por ano na economia do Rio de Janeiro” – disse Anderson Baltar, um dos organizadores da frente. 

Nossa equipe de comunicação esteve no ato perguntando para algumas das figuras mais importantes do carnaval carioca os reais motivos para o corte de Crivella. Cid Carvalho, carnavalesco da Beija-Flor, não se conteve e disse com todas as palavras a sua opinião sobre o corte: “Se é uma festa lucrativa, o retorno financeiro está garantido, e a matemática é ciência exata e está aí para nos mostrar. Qual, então, seria outro motivo? Eu, falo eu, só olho para uma direção: infelizmente, me parece uma questão muito mais religiosa. É o que eu vejo, é o que eu percebo”.

Entre as preocupações dos manifestantes, uma das mais destacadas foi a da situação das escolas de grupos inferiores e aquelas que desfilam na avenida Intendente Magalhães, que, segundo Crivella também perderão investimento. Essas escolas sofrem com a falta de investimento privado, e o aporte da Prefeitura é fundamental para a própria existência dessas escolas, que carregam a história e cultura das comunidades.

É claro que uma manifestação entre sambistas não poderiam faltar o batuque forte, o pandeiro, os puxadores. Se tem samba enredo, é claro, tem mensagem da nossa cultura afro-brasileira. Os sambistas priorizaram as mensagens para todas as entidades que, segundo eles próprios, protegem o samba. Todos cantaram forte, por exemplo, a Saga de Agotime, Maria Mineira Naê, de Neguinho da Beija-Flor.

“Maria mineira naê
Agotime no clã de daomé
E na luz de seus voduns
Existia um ritual de fé
Mas isolada no reino um dia
Escravizada por feitiçaria
Diz seu vodum que o seu culto
Num novo mundo renasceria”

 

 

A repercussão do ato na mídia foi forte, inclusive no exterior. Alguns textos bastante fortes também circularam pelas redes. Um desses foi de Dudu Botelho, também um dos organizadores da frente

“Quero agradecer demais a todos que fizeram parte da Roda de Samba Enredo que acabamos de realizar, em frente a prefeitura. Estávamos ali ainda com menos gente do que o carnaval merece , mas acho que assim como no primeiro ato promovido pelo Sambista da Depressão, andando para frente. Defendemos o que acreditamos contra o atraso, o autoritarismo e a covardia dos que administram sem dialogar. Não tenho dúvida que no próximo ato chamado para quinta já seremos mais de 1000, quem sabe 2000, mas isso não tirará jamais a importância de quem começou a construção. Hoje éramos ali exatamente isso: cerca de 300 operários construindo a resistência …. já tínhamos presidentes e vices ( Portela e Mocidade), carnavalescos ( Beija-Flor, Mangueira e São Clemente), diretores, compositores, baianas, Mestre -Sala e Porta Bandeiras, músicos e principalmente sambistas, inclusive de Escolas do Acesso também. Para além disso tínhamos sim parlamentares , afinal esse será um braço importantíssimo nessa luta, e imprensa, muita imprensa mesmo.

Aos companheiros do movimento que comprou o barulho, a assustadora FRENTE POPULAR DO SAMBA, minha mais profunda gratidão pela cumplicidade, mas seria muito injusto eu não citar um nome: Anderson Baltar. Assim que saímos da Câmara Municipal na segunda-feira passada não titubeamos, nos olhamos após a proposta feita pelo Vereador David Miranda, e falamos, opa faremos a Roda de Samba Enredo bem ali no quintal do prefeito Bispo. Foi exatamente do jeito que pensamos e anunciamos, sem discursos nem de dirigentes e nem de políticos, foi cantando samba. E que repertório!!! Rsss Louvamos todos os orixás, todas as entidades que a história do Samba Enredo permitia. Rssss Mostramos com arte o porque o samba é a nossa raíz da diversidade cultural , porque nasceu libertador e rebelde. Foi no Axé, com muita batucada e muita louvação mesmo que mostramos ao Crivella, que para ser prefeito do Rio é preciso um pouco mais.

Quero terminar agradecendo minha família pela minha formação…. Vocês realmente construíram alguém que não tem medo de lutar sem parar e jamais vai deixar de sonhar.
Quinta-feira tem mais… Cinelândia, 18:00, em frente a Câmara Municipal, 
uma iniciativa da Frente Popular do Samba”.

Além desse ato que Dudu citou, a Comissão Especial do Carnaval marcou uma nova reunião para esta quinta-feira, às 18h30, para debater o financiamento da festa. É importante a participação de todos! Apresente-se quem quer enfrentar Crivella!