O prefeito que sambou na cara do Samba

16 de junho de 2017 22h21

Anúncio de cortes de Crivella revela falta de políticas públicas para o carnaval carioca e põe em xeque a gestão das escolas de samba.

Por Vinícius Natal, antropólogo e pesquisador do carnaval.
Escritor As Titias da Folia e também de Cultura e Memória nas escolas de samba do Rio de Janeiro

Tenho evitado escrever sobre o assunto pois ainda é tudo muito recente, mas não menos assustador.

Me espanta ver tanta gente fora da nossa bolha do mundo ideal das redes sociais ser a favor da suja decisão do prefeito em retirar metade da subvenção das escolas de samba. Com a desculpa de utilizar o dinheiro na educação, seduz a todos com fala mansa e jeito doce, omitindo um lado perverso da moeda que está desempregando milhares de cariocas que possuem no carnaval sua principal fonte de renda – invisível realidade que acompanho diariamente nos barracões da cidade.

Me aflige, também, uma convocação geral para que os sambistas se unam em prol de uma causa. Ora, que causa é essa? Para quem vamos levantar bandeiras e vozes? Afinal, na política brasileira, a união só faz a força quando interessa aos graúdos pois, fora isso, qualquer movimento em torno do debate para a festa é carimbado como “maluquice” e “inconsequência”. Assim foi, por exemplo, quando Marcelo Freixo quis debater carnaval como política de governo, de maneira séria e coletiva. Por apoiá-lo, fui chamado de todos os nomes possíveis pois, afinal, “eu era de esquerda, tinha-se de relevar”.

Tolice pura.

Por outro lado, brota um candidato preferido, que, abraçado pelas escolas, cantou “olê lê, olá lá, pega no ganzê, pega no ganzá” e virou gente boa do dia pra noite! E nós, sambistas lunáticos, éramos os errados por querer debater carnaval na cidade! E agora? Como faremos depois desse duro golpe?

Pausa para pensar.

Não consigo achar graça, também, de quem votou no bispo. Eu tenho, sinceramente, medo do que pode acontecer daqui pra frente se não enxergarmos que ninguém é por nós não, amigos. Há um projeto bem desenhado de tomada de poder da política brasileira pela bancada evangélica. As escolas de samba são a ponta do iceberg – mas, que por sinal, nós é bastante relevante. Temo, também, por nossos irmãos da capoeira, do funk, do candomblé, do jongo, etc. Somos todos ralé, para eles.

Precisamos assumir: falhamos enquanto gestão, enquanto modelo de escola de samba e, mea culpa, enquanto sambistas omissos. Enquanto cultura popular, as escolas de samba se afastaram tanto de seu fundamento , o povo – ingressos caros, disputa de samba cara, fantasias caras, tudo sendo bem caro a nós – que, hoje, se tornaram algo que nem elas mesmas sabem.

O que somos nós, afinal?

Antes de ser acusado de purista romântico – o que, por vezes, nem é tão ruim assim- é claro que o espetáculo é válido, pois gera renda, empregos, turismo, etc. Porém, se uma manifestação cultural popular não sabe mediar com as forcas que dialoga – empresas, capital, tv, políticos – ela se enfraquece e, no cabo de guerra, é jogada para escanteio sem dó nem piedade, pois nunca deixou de ser ” coisa de preto, de favelado, de morro, baixa cultura, batuque, coisa de escravo mesmo”.

Eu, praticante e amante da cultura popular, fico todos esses dias buscando uma resposta para a pergunta: em que momento nós erramos? O que posso fazer para ajudar? Até então, penso que somos nós por nós mesmos. O nós, nesse sentido, necessita ter um amplo alcance, desde as escolas da intendente até às da Sapucaí; desde os dirigentes até a velha baiana; desde o camarada compositor que mora no Leblon até o ferreiro que dá expediente no seu atelier, em qualquer comunidade da cidade.

Espero, romântica e utopicamente, que todos tenham cadeira igual na mesa de reunião, e não a sala de espera com o café de cortesia como oferta e destino. Queremos sambar, mas dessa vez, no mesmo compasso.