Enquanto vivo, irei a todas as Paradas LGBT de SP! Quando morrer, volto como purpurina!

25 de junho de 2017 17h21

Demorou para a adrenalina baixar e eu conseguir escrever sobre o 18 de junho de 2017, sobre a a Parada do Orgulho LGBT de São Paulo, sobre uma das experiências mais fortes dos meus 32 anos de vida.

Mas é necessário que as palavras saiam. É preciso jogar pro mundo e dividir com vocês toda a felicidade, o sentimento pleno que tomou meu coração naquele dia.

Cheguei cedo à avenida Paulista. Avenida Paulista… um lugar simbolicamente forte, né? Ali as manifestações de junho de 2013 contra o transporte e tantas outras coisas mudaram o Brasil. Ali as manifestações de março de 2015 contra Dilma e o PT mudaram o Brasil. É louco falar, mas até esses imensos protestos ficam pequenos diante da enormidade de 3,5 milhões de pessoas que foram a 21ª Parada do Orgulho LGBT de São Paulo.

O primeiro ponto que me chamou atenção foi a diversidade do público, em todos os aspectos. Havia velhinhas risonhas, ricos bebendo whisky, enquanto outros contavam as moedas para comprar cerveja. Havia lésbicas militantes e crianças de colo, gays com bandeiras do nosso orgulho e deficientes dançando em suas cadeiras de roda. Tinham travestis e transexuais, jovens animados, havia góticos, emos, bissexuais, bolsominions e petralhas. Havia (muito) Fora Temer e muita gente de esquerda também! Até héteros! Tinha muito hétero na Parada LGBT de São Paulo!

Fui convidado para discursar no carro de abertura da Parada! Que honra! Que orgulho! Que responsabilidade! E, principalmente, que frio na barriga! Fiquei tremendo, boca seca, cabeça em looping. Vi aquela multidão, nunca havia falado para tanta gente. Aquele moleque gay do Jacarezinho, que sofreu com bullying na escola, que chegou a largar a escola, agora tava ali, como o primeiro vereador assumidamente LGBT da cidade do Rio de Janeiro, discursando para 3,5 milhões de pessoas em São Paulo. Tudo durou menos de um minuto. Mas consegui mandar o recado! Contei que Crivella estava perseguindo nossas paradas aqui no Rio e ainda falei da necessidade de elegermos os nossos, parlamentares e políticos LGBTs, para os cargos eletivos no Brasil. Representatividade importa!

Fiquei feliz demais em ver que a Gretta Star, apresentadora máxima da Parada, se associou à nossa luta. Ela, com todo o seu carisma e capacidade, mandou um recado bem direto ao prefeito Crivella.

“Deixa eu mandar um recadinho para o Criveeeeella. A Associação da Parada do Orgulho LGBT da cidade de São Paulo, mais essa galera intensa aqui, queremos falar para o Crivella o seguinte: se você tirar (é você mesmo!) a Parada do Rio de Janeiro, NÓS, NÓS vamos até Copacabana! E vamos mostrar para todo mundo fundamentalista que te apóóóia o que é fazer uma parada no chããão!! Nós não vamos aceitar o retrocesso nem aqui, nem em qualquer lugar do país. Onde o prefeito tirar a parada, nós vamos para a rua!”, provocou gretta star!

Ainda lá em cima, pude ver talvez um dos mais emocionantes momentos da Parada. Lideranças religiosas, de diversas matrizes, pegaram o microfone para, a plenos pulmões, dizer que nenhuma religião, que nenhum Deus ou Deusa, pode ser contra os LGBTs. Afinal, qual Deus pode ser contra o amor? Qual divindade pode defender a perseguição de pessoas por elas serem justamente quem elas são? Nem para os católicos, nem para os judeus ou muçulmanos, nem mesmo para os evangélicos: em nenhum livro sagrado está escrito que precisamos ser perseguidos, mortos ou machucados. Foi com essa alegria no coração e paz no espírito que ouvi o belíssimo discurso de José Barbosa Juniorteólogo batista e representante do movimento Cristo Cura a Homofobia!

Foto: Paulo Whitaker – Reuters

“Eu venho em nome do Movimento “Jesus Cura a Homofobia” pedir perdão à comunidade LGBT por todas as mazelas que a Igreja Evangélica fez com vocês durante todos esses anos. Eu quero dizer, para deixar bem claro aqui, que Malafaia, Feliciano e tantos outros não representam todos os evangélicos do Brasil. Os evangélicos amam sim. A gente tá aqui para falar que toda a forma de amor é abençoada por Deus. Vocês podem sim se divertir e se amar porque Deus está com vocês. A bancada evangélica é uma vergonha para o Evangelho e para todas as igrejas. Força para todos vocês! Por um Estado totalmente laico sempre!”

“Independente de nossas crenças, nenhuma religião é lei. Todas e todos por um Estado laico”: esse foi o lema da Parada do Orgulho LGBT de SP em 2017. Perfeito para nosso contexto aqui no Rio. Talvez vocês já saibam, mas nosso prefeito, bispo licenciado da Igreja Universal do Reino de Deus, não está dando qualquer apoio para as Paradas LGBTs da cidade. Nós já até lançamos uma campanha, um abaixo-assinado, que reivindica que Essa Parada é Nossa! Crivella confunde suas opiniões pessoais – religiosas, inclusive – com as decisões políticas que tem que tomar. Isso não é democrático! Isso aí não é um Estado laico!

Depois que as falas se encerraram, a mega-master-blaster multidão estava querendo era dançar, se divertir, mandar seu próprio recado. Decidi ir até o último carro, onde estava minha amiga Angélica Ramos e outros amigos queridos. A missão não era fácil: cruzar toda a Parada LGBT no contra-fluxo! Eu achei que seria perrengue demais, mas que nada! Foi uma das experiências mais incríveis da minha vida.

Como pode uma manifestação ter uma mensagem tão forte – por direitos e respeito, por vida e segurança, por prevenção e cuidado –  e, ao mesmo tempo, ser tão leve? Como pode gente que sofre tanto com um mundo cruel, pegar suas bandeiras, com orgulho no peito e sair para rua para amar e ser amado, para beijar e ser beijado? Uma grande festa? Sim! Um gigantesco protesto? Com certeza também!

As principais bandeiras da luta LGBT do mundo todo estavam na avenida Paulista naquele domingo. Nossa comunidade sabe o que quer. Estamos firmes e unidos nas mesmas demandas  – e isso não é apenas no Brasil, mas no mundo todo também. Queremos que todos os LGBTs do mundo tenham o direito de amar quem quiser, de casar com quem quiser. Que todos os LGBTs possam adotar filhos ou gestar os seus próprios. Que todos os LGBTs, sobretudo travestis e transexuais, tenham garantidos sua segurança. Que a população trans possa utilizar os banheiros e seus nomes de acordo com a identidade de gênero. Que a escola debata o preconceito com as crianças. Que os hospitais e postos de saúde atendam todos com equidade e respeito. Que o Estado seja laico! Que a justiça seja justa! Que haja a criminalização da LGBTfobia de acordo com o que ela é de fato, um crime de ódio!

Como pode tantas pautas importantes estarem tão misturadas com shows incríveis de nossos ídolos queridos? A Parada LGBT de São Paulo ensina! Anitta, Daniela Mercury, muitas e muitos outros, e principalmente Pablo Vittar! Pablo Vittar!! Que loucura! Que som forte! Que energia inesquecível! Foi demais! Entrei em êxtase! Felicidade pura de ver a Paulista toda colorida como as nossas cores e nossos sorrisos!

Finalmente cheguei ao último carro. Já estava satisfeito de ter vivido algo tão marcante, mas ainda havia muito tempo para se impressionar. Eu que já tinha visto a Parada de frente, agora conseguia ver o quanto ela era grande também para trás. Era incrível perceber que a Parada não tinha fim para os nossos olhos. Para frente, para trás, para todas as ruas que cortavam a avenida Paulista… havia gente por tudo que era lugar.

Em cima desse carro, cruzei quase toda a Paulista e ainda a descida da Consolação. Me impressionei como, diante de tamanha multidão, ocorriam poucos problemas. Uma festa na responsa! Dancei ao lado de minha amiga Angélica, perto da maravilhosa Fernanda Lima, sempre com aquele sorriso contagiante. Fui entrevistado pela Globo. Mas a Parada não é uma performance VIP. A Parada é povão, a Parada é emoção! E, na emoção lá de cima, o que mais se ouvia eram os gritos de protesto contra a política nacional. Era o povo, a cada intervalo da música, a cada respiro, que bradava com força Fora Temer, Fora Temer!

Eu que sempre sonhava tanto em ir à Parada do Orgulho LGBT de São Paulo, mas nunca conseguia por um ou outro motivo, não poderia ter tido uma primeira experiência melhor. Voltando para o hotel à noite, ainda tomado pela energia avassaladora do amor e do orgulho, pensei: “enquanto eu estiver vivo irei a todas as Paradas LGBT de São Paulo. Quando morrer, volto como purpurina!”