“As rodas culturais são o cimento que tapa o buraco deixado pela ausência do poder público”

23 de junho de 2017 20h32

A tarde desta sexta-feira, na Câmara de Vereadores, foi repleta de críticas à Prefeitura do Rio e à Polícia Militar do Rio de Janeiro, que dificultam os eventos de rua da cidade.

Roda Cultural do Méier – Foto Fernanda Gabriela Coelho

Produtores de rodas de rima e entusiastas da cultura do Rio lotaram o plenário do Palácio Pedro Ernesto nesta sexta-feira. Estavam ali para participar do Debate Público sobre eventos de rua do Município do Rio. A realização do debate, segundo o presidente da mesa, o vereador Marcelo Arar (PTB), foi uma demanda dos próprios produtores das Rodas Culturais do Rio. Segundo esses produtores, a nova Prefeitura de Marcelo Crivella e a velha Polícia Militar de sempre estão desrespeitando um decreto de 2012, que, a partir da criação do Circuito Carioca de Ritmo e Poesia, passava a, teoricamente, liberar a realização das rodas culturais e rodas de rima mesmo sem alvará da Prefeitura.

Já são mais de 80 rodas de rima na cidade do Rio, segundo os produtores. Em média, elas reúnem de 150 a 400 pessoas. Muitas delas, semanalmente. O potencial transformador é gigante. Segundo Dom Negrone, um dinossauro das rodas de rima do Rio, elas criam um “sentimento de amor ao abraçar a cultura e levá-la para a sua comunidade”. As rodas ainda são uma oportunidade de empreendedorismo dos jovens. Uma maneira de ressuscitar espaços públicos largados, como praças e parques.

 

IMPASSE

A novidade do imbróglio é a seguinte: a nova administração da Prefeitura precisa emitir uma resolução, que ratifica o calendário anual de eventos das rodas culturais, para que o decreto possa valer, liberando assim os eventos de trâmites burocráticos dificílimos. Estamos no fim do mês de junho, e a Prefeitura, por desinteresse e/ou falta de capacidade administrativa, está sentada em cima desse calendário, que já foi entregue pelos grupos.

A Prefeitura enviou representantes de quatro órgãos: da Secretaria de Ordem Pública (SEOP), da Secretaria de Cultura, da RioTur e da RioEventos. Os representantes da RioTur e da RioEventos fizeram apenas discursos protocolares, enfadonhos, que não propuseram qualquer avanço na pauta. O subsecretário da SEOP, Luis Claudio Laviano, saiu sem dizer uma única palavra. Quem trouxe algum conteúdo foi o representante da Secretaria de Cultura, Julio Morais. Ele garantiu que a Prefeitura dará solução ao impasse em 15 dias. Já o vereador Marcelo Arar afirmou que representantes da Prefeitura deram a ele um prazo de 30 dias para liberar o calendário e, portanto, resolver a questão.

A Polícia Militar do Rio de Janeiro também esteve no evento, tanto com oficiais do Batalhão de Policiamento em Áreas Turísticas como do Estado Maior-Geral. Apenas o capitão Leandro da Silva Dias, do Estado Maior, falou. Repetiu que os trâmites burocráticos são importantes e que acha sim necessário que cada Batalhão emita o documento de Nada a Opor para a realização de cada roda cultural, a cada edição. Ainda lembrou que a Polícia Militar está operando em uma situação anormal por conta da crise do estado.

CRÍTICAS

Foi uma tarde repleta de críticas. As mais pesadas vieram de Júlio César da Costa, da Roda Cultural do Terreirão, na zona oeste da cidade. Júlio disse que as autoridades públicas do Município e do Estado “não entendem nada de rodas culturais”. Ele criticou a obrigação de pedir o Nada a Opor nos Batalhões e perguntou:

“Alguém imagina que um jovem da favela vai bater na porta Batalhão e solicitar o nada opor? Não vai nunca! Eles se sentem constrangidos e com isso você mina o movimento e o coloca na clandestinidade. Não há motivo de transformar as rodas de rima em um caso de polícia”.

As críticas de Júlio foram ainda mais duras contra a Prefeitura. Ele disse que é urgente que a Prefeitura emita a resolução, que ratifica o calendário das rodas. “SMC, pelo amor de Deus, vocês precisam se sensibilizar com o que está acontecendo! As rodas estão sofrendo e muito nas mãos dos órgãos de repressão. Precisamos de uma resposta! Pelo amor de Deus, emite urgentemente essa resolução! Precisamos CUIDAR das rodas! Hoje temos 80 rodas. Tenho certeza que, se tivermos um ambiente favorável, teremos 500 rodas”. 

REPRESSÃO

As críticas ouvidas durante todo o dia ganharam vivacidade na fala de Jonhatan, da Roda Cultural de Vila Isabel. Uma dos eventos mais tradicionais da zona norte da cidade, a roda de Vila é uma das que, desde a mudança na gestão da Prefeitura, mais vem sofrendo com a repressão. A roda completaria 6 anos em junho deste ano, mas obstáculos criados pela Prefeitura e pela PM vem impedindo ela de ocorrer. Segundo Jonhatan, a prefeitura alega que a roda não é uma “roda cultural”, mas um grande evento. Já a PM diz que não tem contigente suficiente para garantir a segurança da roda que, segundo seu organizador, nunca foi palco de brigas ou confusões.

Fora do circuito das rodas, outros muitos produtores e coletivos que organizam eventos na rua também estiveram no evento. Todos reclamaram dos entraves burocráticos para empreender suas atividades em espaços públicos da Capital. Alguns se mostraram preocupados com o recente decreto publicado pelo prefeito Marcelo Crivella que transfere toda a autorização e proibição de eventos da cidade – as rodas culturais, teoricamente, estão fora disso – para o seu próprio gabinete.

O movimento quer que praças e parques se tornem instrumentos fundamentais de política pública da cidade. É isso que nós, do Mandato Coletivo do vereador David Miranda, queremos também!