Um dia de luta, um dia de glória

25 de maio de 2017 19h24
Não haverá Polícia Militar, Civil, Guarda Nacional ou todas as Forças Armadas! Muito menos um presidente corrupto nos deterá!

por David Miranda

Brasília se pintou com as cores da luta! Foto: Guilherme Prado

Brasília estava colorida: os sindicatos, os trabalhadores, a juventude! O clima era alegre, mas de luta! O sol abriu num céu bem limpo como se o próprio tempo estivesse ao nosso lado. As imensas organizações chegavam em centenas de ônibus, vários sotaques que nem cabiam contar nos dedos das mãos. A concentração foi começando e sabíamos que seria um dia de luta e de enfrentamento, afinal, esse governo só vai sair se formos para cima, como provoca Michel Temer.
Quando saímos organizados, vi na cara da juventude ao meu lado expressões de alegria e resistência! Jovens de todas as idades e pessoas que muito admiro! Meus amigos guerreiros estavam ali!

Levávamos escudos, faixas enormes e muitas bandeiras! Depois de uns 40 minutos de caminhada, chegamos ao local da revista feita por policiais. Mais à frente, as bombas começaram a estourar e logo vejo um rapaz passar ao meu lado com a mão arrebentada, havia perdido dedos…

As pessoas continuaram em frente e eu também, não tinha como não ir. A palavra de ordem era: “não adianta reprimir, esse governo vai cair”! Eram pessoas de idade com cicatrizes de uma vida dura, nesse país que a maioria dos políticos está a favor do grande empresariado, como demonstra a Lava Jato. Seguimos em frente pelo gramado, onde o Fora Temer fazia eco em Brasília.

Nosso intento era entrar no Congresso, na casa do povo, ou mesmo no Planalto (todo prédio público é a casa do povo), mas fomos impedidos pela polícia que fez mais uma barreira, muito mais ostensiva. Os caminhões de som pararam em frente e começaram as intervenções de alguns militantes. Não demorou para a polícia jogar bombas. Fui para a linha de frente pedir que nos deixassem passar. Aí apareceu a polícia civil, mas, mesmo assim, achei que a PM iria abrir a passagem. Mais gente correndo, caindo e passando mal. Em uma distância segura, as pessoas se reagrupavam e ajudavam umas as outras. Compaixão.

Os manifestantes reagiam com pedras e paus. A polícia reprimia com mais bombas. Lá dentro, no Congresso, a calmaria dos que podiam contar com a proteção da PM. Por sinal, a PM, coitada, virou cão de caça do estado. O próprio sistema faz a corporação perder a empatia pela sociedade.

Lá na frente do Planalto, mandaram a cavalaria, isso mesmo, cavalaria atacar os manifestantes. Um pobre cavalo caiu machucado levando os manifestantes a um frenesi em correria em direção ao Planalto. Eu também corri ao ver essa cena. Bandeiras ao vento e gritos de ocupa por todo lado – provavelmente não verei cena mais bela de luta pela democracia em minha vida!

O Juntos! não arredou pé, mesmo com a covardia da PM. Foto: Guilherme Prado

Começamos a ficar encurralados pelo gás e fomos obrigados a ir em direção ao Itamaraty, onde mais bombas foram jogadas. O instinto de proteção coletiva me levou a chutar uma das bombas para a água. Corríamos. Nossa equipe de médicos preparou várias soluções de bicarbonato de sódio, onde parei para cuidar da turma que estava passando mal. Mais bombas e balas vinham nos forçavam a ir em direção aos ministérios. As pessoas se aglomeravam nas escadas para tentar sair. Enquanto isso, alguns jovens começaram a jogar pedras e paus nos prédios. Primeiro, eu os reprimi, mas, depois, vendo a operação policial, não liguei mais: são somente prédios e eu estava preocupado com as Pessoas.

A cavalaria da PM do DF também avançou sobre os manifestantes. Foto: Mariana Cartaxo / Mídia NINJA

Naquele momento, uma comoção tomou conta de todos: via-se um carro de polícia parado, um homem no chão se contorcendo de dor e mulheres gritando: “você atirou nele, você atirou nele”! O policial tinha uma arma na mão. Ele tremia muito! Começou a gritar e eu me afastei. Não era a primeira vez que via um policial sacar arma para manifestantes. No Rio, já aconteceu algo parecido.Mais tarde soubemos de vários tiros que foram disparados em direção aos manifestantes. Corri na direção das bandeiras do Juntos! O calor me fez ir ao outro lado buscar água para a turma que agora mostrava sinais de cansaço. Ao percorrer um bom pedaço para comprar água vi várias pessoas feridas. Peguei a água e levei de volta. Estávamos em três posições diferentes: na frente da manifestação, no meio e um último grupo, atrás.

Mais de 50 feridos – um por bala de fogo – numa tarde de horrores. Foto: Mariana Cartaxo / Mídia NINJA

Saí distribuindo a água até a parte da frente, onde fui recebido com mais bombas. As pessoas começaram a dissipar e saímos andando mais 4 km para voltar até o ônibus.
Com muito suor e enfrentando muita violência, demonstramos ao Temer e a todos que estavam ali que vai ter resistência, que os movimentos sociais alinhados com os trabalhadores vão reinventar a democracia. Deixamos claro a eles que, mesmo que botem fogo na Constituição, o verdadeiro sentido da democracia é o povo. Resistimos e iremos continuar a resistir até que o povo possa decidir quem deve seguir governando o país. As lágrimas de sangue e suor que foram derramadas ontem em Brasília mostram que o seu povo não foge à luta.

Recado dado: não fugiremos de nenhuma luta! Foto: Guilherme Prado.