Racismo e desigualdade: você vive o Brasil de Rafael Braga!

05 de maio de 2017 21h10

Denunciar a injustiça contra Rafael Braga é enxergar um projeto racista de país, onde todos vivem, mas nem todos sentem o que é ser Rafael diariamente.

Toda nossa comoção, movimentação e solidariedade à Rafael Braga me fez, repentinamente, lembrar
de um discurso épico de Viola Davis no Emmy de 2015, onde a incrível primeira mulher negra a levar para casa um prêmio de melhor atriz na categoria dramática disse que o que separa mulheres negras das outras pessoas são, sobretudo, as oportunidades. Viola referiu-se às mulheres, mas vou ousar em dizer que o que separa pessoas negras de pessoas brancas são as oportunidades. Ou melhor, a falta delas. É extremamente desonesto negar este fato.

Quem transita entre duas ou mais realidades – favela ou universidade, Zona Sul ou Zona Norte – consegue, nitidamente, perceber que a desigualdade é o sentimento. Isso passa, inclusive, pela percepção geográfica. Já experimentou pegar um ônibus no Rio de Janeiro e, atentamente, olhar pela janela da Zona Oeste à Zona Sul e perceber a diferença da limpeza das calçadas? A quantidade de árvores plantadas? De um lado rostos pálidos e cansados, do outro, bem alimentados? O Brasil tem muitas virtudes, mas sua maior mazela é a DESIGUALDADE.

Mas por que lembrei de Rafael? A atual situação dele é de extrema perversidade. Condenado a 11 anos de prisão injustamente. Mas meu ponto não é repetir o que muitos já sabem, os motivos pelos quais ele permanece em cárcere. O ponto é: qual era a realidade de Rafael Braga antes de seu caso vir à tona? Sabe o papo da Viola sobre oportunidade? Então, qual oportunidade o país mais negro fora do continente africano deu a Rafael? Rafael era de favela, mas Rafael também já morou nas ruas, Rafael catava latas para sobreviver. Rafael era pobre. Negro. Morar na rua e catar latas não é, certamente, o que um jovem aspira. Será que em algum momento esta sociedade olhou para Rafael querendo enxergar o que de melhor ele poderia fazer?

Como diria Mano Brown “Aqui na área acontece muito disso. Inteligência e personalidade, mofando atrás da porra de uma grade.” Sabe o que acho? Que a favela é potência e o sistema é burro.

Mais da metade de toda uma população é escura como o fim de tarde ou escura como a madrugada. Mas onde estão essas peles, esses corpos, essas almas?
Poucos nas carteiras das universidades, muitos na limpeza e manutenção delas. Poucos na política, muitos nas cadeias. Poucos com trabalho digno. Muitos nos subempregos. Poucos vivendo, muitos sobrevivendo na selva. A falta de oportunidade é o que empurra, chuta e acorrenta a pele preta. O mais inacreditável disso tudo é que ao mesmo tempo em que a mazela é negra a genialidade também é. O que seria da cultura brasileira sem o preto?

Penso no quão doentio é o racismo e quando falamos das falhas estruturais do nosso país, dói perceber no quão bem estruturado é essa doença. O Brasil é racista. Mas o que fazer com isso? Quais são as saídas? O fato é: precisamos fazer colocações perturbadoras a todo tempo. Nós vivemos no Brasil de Rafael Braga, todos nós.

Oportunidades. Precisamos, cada vez mais de materialidade. O projeto de Estado que é a marginalização do povo preto precisa ser derrubado com questões reais de ascenção.
Com debate, com papos retos, com política!

”Na minha mente, eu vejo uma linha. E sobre essa linha que eu vejo campos verdes e flores lindas e belas mulheres brancas com seus braços esticados para fora sobre essa linha. Mas eu não consigo chegar lá, não sei porque. Eu não consigo superar essa linha.” Harriet Tubman.

Enquanto a utopia for um caminho e somente um caminho, precisaremos caminhar, ou melhor, correr para alcançar. Precisamos de um outro retrato de Brasil. Oportunidades. O racismo é uma doença, a luta é o remédio.

Ainda em tempo: libertem Rafael Braga. Enquanto Rafael não for livre, nenhum negro brasileiro será, porque sua prisão faz parte de um projeto.