[O Globo] Mandato organiza ato em defesa da Parada LGBT

24 de Maio de 2017 16h51

  
 17/05/2017
Infoglobo ­ O Globo ­
UM ARCO-ÍRIS CINZENTO
Com a crise, centros estaduais de apoio a LGBTs fecham, e parada gay fica sem verba
da prefeitura
Poderia ser um dia colorido para celebrar conquistas. Mas, por causa do esvaziamento de projetos públicos voltados para a população LGBT, o Dia Mundial de Combate à Homofobia, comemorado hoje, será uma data cinzenta. Com a crise financeira, o Rio Sem Homofobia, programa do governo do estado que virou referência mundial, está desmantelado e mal consegue prestar atendimentos — apenas um dos quatro centros de apoio, que funciona na Central, está aberto ao público, mesmo assim precariamente. Sem dinheiro, a prefeitura também já não mantém qualquer programa para questões de gênero e nem deve aportar dinheiro na parada gay de Copacabana, cujo custo está estimado em R$ 1,5 milhão e que faz parte do calendário turístico da cidade. A marcha costuma atrair um milhão de pessoas e injetar R$ 300 milhões na economia do Rio, segundo cálculo de ativistas.
Protesto. Militantes do movimento LGBT lançam a campanha “Essa parada é nossa”, na Câmara:
prefeitura anunciou que não financiará marcha gay na Praia de Copacabana
Com o quadro de desalento que se abate sobre os programas, militantes fizeram ontem um ato, no final da tarde, na Câmara Municipal. Entre outras coisas, pediram a volta do patrocínio para a parada gay. Mas há umasérie de problemas sem resposta. Em janeiro do ano passado, o Rio Sem Homofobia demitiu mais de 60 funcionários e chegou a ser encerrado pelo então secretário estadual de Assistência Social e Direitos Humanos, o pastor evangélico Ezequiel Teixeira. Após fazer declarações homofóbicas em entrevista ao GLOBO, Teixeira foi exonerado. Sem verba, a pasta já passou pelas mãos de quatro secretários. O programa foi retomado, mas só no discurso. O funcionamento é precário. Os técnicos não recebem salários desde janeiro. De quatro centros de cidadania que prestavam assistência psicológica, social e jurídica, apenas um está funcionando, de forma parcial, na Central. As unidades de Caxias, Niterói e Friburgo só estão de portas abertas, com dois funcionários cada. A vítima, quando bate à porta, é encaminhada para o centro na capital, mas nem sempre tem dinheiro para a viagem.
— Infelizmente, o estado vem passando por essa situação. Mas, com toda a dificuldade, o Rio ainda tem
conseguido dar suporte às pessoas que precisam e nos procuram — afirma o atual do coordenador do Rio sem Homofobia, Fabiano Abreu.
De acordo com o Rio sem Homofobia, já foram realizados 617 atendimentos este ano. Mas, de 2010 ao fim do
ano passado, época de auge do programa, foram registrados 95 mil atendimentos — em média, 13,5 mil por ano.
EM CENTRO, ADVOGADO SÓ UMA VEZ POR SEMANA Na Central, os poucos funcionários — três técnicos (advogado, psicólogo e assistente social), um auxiliar administrativo e um coordenador — estão, a exemplo dos outros servidores estaduais, enfrentando as incertezas do calendário de pagamento. Apesar das dificuldades, eles se revezam para não fechar as portas. Mesmo sem receber os salários, cada um deles vai ao posto uma vez por semana. Quem precisa do apoio jurídico, por exemplo, tem que se adaptar ao rodízio e só comparecer ao local no dia em que o advogado estará de plantão. Como só há um psicólogo e um assistente social, o drama se repete de acordo com a especialidade procurada.
A defensora pública Lívia Casseres, coordenadora do Núcleo de Defesa dos Direitos Homoafetivos e da
Diversidade Sexual (Nudiversis), diz que, sem o lado psicossocial, o atendimento jurídico a vítimas de homofobia fica incompleto:
— E ainda há a questão da investigação penal. Como a Defensoria não pode oferecer ação penal, o Rio sem
Homofobia fazia um trabalho belíssimo de pressionar as instâncias competentes (Polícia Civil e Ministério Público) para dar celeridade às investigações. Havia um acompanhamento da vítima até a delegacia. Isso não existe mais.
Não tem mais equipe para fazer esse trabalho, mesmo com todo esforço das pessoas que ainda estão lá.
Para o ativista LGBT e ex­coordenador do programa, Cláudio Nascimento, o Rio Sem Homofobia é um
“paciente terminal”. Ele lembra que, além de atendimentos individuais, o programa capacitava servidores
públicos. Desde 2008, por exemplo, oferecia uma formação para policiais civis e militares. Em janeiro, a iniciativa
acabou.
— Estamos vivendo um retrocesso de pelo menos dez anos. O programa está na UTI — observa.
Nem mesmo o momento de celebração para os homossexuais e transexuais, a principal parada LGBT do Rio, escapou das tesouradas. O evento de Copacabana será realizado, garante o Grupo Arco­Íris, responsável pela organização, mas perdeu o principal patrocínio, da prefeitura. Ainda durante a campanha de Marcelo Crivella, os ativistas já temiam que a chegada de um prefeito evangélico fosse prejudicar o calendário de programas e de eventos. Porém, o município assegura que a fonte secou por conta da crise. De acordo com a Coordenadoria de Diversidade Sexual do município, em 2017, a ajuda, que costumava ser de pouco mais de R$ 300 mil, “será apenas logística”. “Mediante a crise e o período de austeridade que enfrentamos, o município não poderá se comprometer com o aporte financeiro”, disse a coordenadoria, conclui a nota. O Grupo Arco­Íris, agora, não sabe como será a festa este ano, apenas que a manterá a despeito da falta de financiamento.
— A prefeitura nos dava dinheiro, mas as necessidades vão muito além desse valor. O Corpo de Bombeiros, por exemplo, exige que, a cada cem mil pessoas, haja um hiato de escoamento, que fazemos com os carros de som. É uma matemática muito pesada, e o povo não tem ideia do que se passa — afirma Almir França, presidente do Grupo Arco­Íris.
O evento também já perdeu recursos de empresas como Petrobras e Vale do Rio Doce, nos últimos anos.
Prevista para julho, a parada gay de Madureira, que também recebia verbas da prefeitura, ainda não conseguiu nenhum financiamento, o que preocupa a organizadora, Loren Alexander.
— Estamos com toda a documentação pronta, mas não temos condições, no momento, de dizer como vai ser a parada. Fazer um evento para um milhão de pessoas é muito caro. Se a gente não tiver apoio, fica difícil — afirma Loren, assegurando que Crivella, apesar das incertezas, tem sido “atencioso”.
GRUPO ARCO­ÍRIS PERDE 40 VOLUNTÁRIOS Para tentar reverter a decisão da prefeitura, o vereador David
Miranda (Psol) lançou ontem, durante a manifestação na Câmara, a campanha “Essa parada é nossa”. Ontem à noite, uma petição online já reunia 10,7 mil assinaturas, pedindo a volta do financiamento público para a marcha.
— O município tem apenas uma Coordenadoria de Diversidade que não tem poder algum, nem orçamento. E, na falta do Rio Sem Homofobia, a cidade está sem assistência alguma para LGBTs — critica Miranda.
O próprio Grupo Arco Íris, que organizou a primeira parada gay do Brasil, em 1995, e foi o precursor na
distribuição de testes rápidos para o vírus HIV no Rio, em 2010, amarga uma situação financeira delicada. Sem doadores e com o governo do estado devendo R$ 500 mil relativos às paradas de 2014 e 2015, os voluntários da ONG estão sendo vencidos pelo desânimo. Há três anos, eram 60 trabalhando pela causa. Hoje, são só 20 pessoas. As receitas despencaram 80% desde 2015. O grupo praticamente deixou de promover atividades externas e palestras, como as que antecediam a parada gay. Os atendimentos, por sua vez, cresceram com a demanda reprimida do Rio Sem Homofobia. Em vez de cem, os voluntários chegam a atender até 200 pessoas por mês.
— A crise é grande, estamos cansados — lamenta França.