A luta por uma educação popular avança na Zona Oeste

06 de maio de 2017 21h12

Depois de três anos na Zona Norte, a Rede Emancipa chega a Zona Oeste e empolga a Vila Vintém!


Neste sábado, 6 de maio, inaugurou-se o cursinho que vai ser realizado no Projeto Liberdade. A ONG cedeu o espaço. As aulas vão acontecer aos sábados durante todo o dia.

A maioria dos alunos mora na própria favela da Vintém. Mas há também estudantes de alguns outros pontos da zona oeste e até mesmo na Zona Norte – em regiões mais afastada do Centro. O cursinho existe para diminuir a disparidade de condições estruturais e financeiras que esses alunos e o próprio cursinho têm em relação aos cursos pré-vestibulares privados de regiões mais enriquecidas da cidade.  Será um desafio, mas com gosto de ser enfrentado. A Rede Emancipa, apesar de apoiadores, é um movimento independente e se preza como tal.

A aula inaugural começou por volta das 9h, se estendeu até às 12h e contou com uma mesa valiosa. Vanderlea Aguiar, coordenadora do curso em Vila Isabel, foi a mediadora. PH Lima, coordenador da Rede em São Gonçalo, MC e estudante de direito, mandou a letra que por si já conta a história do próprio movimento no Brasil e seus anseios.

“Eu quero estudar,
Pra isso eu vou lutar
Construir o Emancipa
Pra quebrada eu libertar! (Bis)

Nasceu em Itapevi,
de São Paulo ganhou o Brasil
Em toda região nosso cursinho já chegou
Rio grande do Norte, Pará, Minas, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Brasília No país inteiro!
Vamo chegar de bonde, de barco ou de bicicleta
Cursinho Quilombo para libertar a favela!

“Na aula inaugural, tu já se liga no meu papo
Que com educação nós bota fogo no blindado
Pra isso tem que ser popular e libertadora
Que atenda o povo negro
Sua classe trabalhadora Chega senta no círculo pra ensinar, pra aprender
O Estado não te quis mas o Emancipa quer vc!

Nós vamos ser médico, advogado e professor: Vaza playboy, o emancipado ocupou!
Nós vamos ser médica advogada e professora: Vaza patricinha a emancipada ocupou!

Ooo, pode chorar, pode chorar Aaa, o emancipado vai tá lá Ooo, pode chorar, pode chorar Aaa, a emancipada vai tá lá Universidade é do povo, pro vai ser popular!
Vem com emancipa seus muros vamos quebrar!
Universidade é do povo, pro vai ser popular!
Vem com emancipa denunciar o vestibular!!!“

 

 

Outras figuras fundamentais da educação popular carioca também prestigiaram o espaço trazendo sua experiências, perspectivas e palavras de incentivo ao jovens. Foi o caso de
Maycon Bezerra, professor de Sociologia do Instituto federal (IFF), Patrícia e Gisele, coordenadoras do cursinho em Padre Miguel, Tobias Farias, um grande nome e liderança Zona Oeste, e Lucas Muniz, morador de Bangu, assistente social e integrante do Zona Oeste Ativa (ZOA).

HISTÓRIA DO EMANCIPA

A Rede Emancipa surgiu em São Paulo em 2007. O primeiro curso do Rio nasceu em 2014, no Andaraí, Zona Norte, mudou-se para Vila Isabel e, este ano, cresceu em São Gonçalo, Casimiro de Abreu e Vila Vintém. Segundo colaboradores experientes, esta aula do Emancipa foi a mais marcante.

Não faltaram lágrimas, afeto e emoção em todas as falas. Quem conhecia se iluminou ainda mais e quem não conhecia se encantou e começou a encarar a Rede Emancipa como missão de vida. O clima era de solidariedade.

Aulas inaugurais de pré-vestibulares privados, com toda certeza não são rodeadas de tanto sentimento. Fica evidente que o emancipa não existe só para aprovar no vestibular. Fazer o indivíduo se enxergar enquanto parte essencial para a construção de uma sociedade mais justa é um de seus objetivos mais importantes.

Cerca de 30 voluntários dos quase 60 se apresentaram em frente aos alunos e foram ovacionados. Recebidos com carinho. O final da aula foi marcado pela intervenção de alguns alunos.

”Quero cursar serviço social porque gosto muito de projetos sociais. Quero cursar serviço social porque quero ser igual a vocês.” Shay, 18 anos. Mais nova aluna da rede. Outros alunos compartilharam seus medos, dores, trajetória e sonhos. O que tirou lágrimas de basicamente quase todo o grupo.

O percentual de negros no nível superior deu um salto e quase dobrou entre 2005 e 2015 (IBGE), sendo estes, grande maioria de baixa renda. Em 2005 – um ano após a implementação de das cotas – 5,5% dos jovens pretos ou pardos frequentavam uma faculdade. Em 2015, 12,8% dos negros entre 18 e 24 anos chegaram ao nível superior. O número de pobres independente de raça também cresceu expressivamente. A luta na educação superior também tem que ser por permanência. A educação é uma ferramenta efetiva e perceptível de mudança social. As universidades não foram pensadas e construídas para que pessoas que recorrem aos cursos comunitários pudessem ter acesso e, por isso, é tão necessária a construção de projetos que sirvam como alicerce para essa juventude.

“A Zona Oeste carece de todos os tipos de serviço. Parece uma região esquecida pelo poder público como um todo. Aqui parece que só serve no ano eleitoral, aí sim eles aparecem, passando isso eles somem. A gente não tem muita oferta de cultura, saúde, educação e trazer o Emancipa aqui pra Padre Miguel é uma forma de dar oportunidade. É oportunizar acesso àquilo que nos é negado, porque universidade pública aqui só tem uma que está às moscas. É uma forma da gente pelo menos motivar essas pessoas a quererem chegar lá.” Gisele Mota, 30, assistente social e coordenadora do curso na Vila Vintém.

Num universo de 126 bairros da cidade do Rio de Janeiro, Padre Miguel, bairro onde fica a favela Vila Vintém e onde nasce a Rede Emancipa ocupa a 86º colocação no índice de IDH (índice de desenvolvimento humano). Se pensarmos numa pirâmide, a Zona Oeste é a base. O IDH analisa a expectativa de vida, a taxa de alfabetização de adultos, longevidade, frequência escolar, índice de renda, frequência escolar, renda per capita e índice de educação.
”Acreditamos que a educação sozinha não transforma a sociedade, sem ela tampouco a sociedade muda. Se a nossa opção é progressiva, se estamos a favor da vida e não da morte, da equidade e não da injustiça, do direito e não do arbítrio, da convivência com o diferente e não de sua negação, não temos outro caminho se não viver a nossa opção. Encarná-la, diminuindo, assim, a distância entre o que dizemos e o que fazemos.” Paulo Freire