A luta da esquerda internacionalista se encontra no Acampamento Internacional das Juventudes

15 de abril de 2017 00h14

Grupos da América Latina, dos Estados Unidos e da Europa debatem saídas internacionalistas para a esquerda mundial. Novos tempos com Trump, Temer, Macri, Brexit… assustam, mas também trazem esperança.

Foi alternando entre alertas de tempos sombrios e novas oportunidades de luta da esquerda que importantes entidades estrangeiras conectaram suas angústias e empolgações nesta sexta-feira (14/4), no segundo dia do Acampamento Internacional das Juventudes em Luta, que ocorre na Zona Portuária do Rio de Janeiro até este domingo (16/4).

O debate da mesa ‘Por um mundo sem muros nem fronteiras’ contou com grande presença de público, versou sobre os novos avanços da direita do mundo e serviu para grupos de esquerda de vários países apresentaram suas experiências de luta contra o capitalismo, numa ótica internacionalista. Foram recorrentes também as falas que criticaram aquelas esquerdas que se aliam ao sistema político e econômico hegemônicos.

É o caso de Portugal de Manuel Afonso, do MAS, o Movimento Alternativa da Socialista. Ele criticou a falta de coragem de alguns partidos de esquerda do continente de dizer não às exigências austeras da União Europeia para romper com o mercado financeiro e, até mesmo, suspender o pagamento de dívidas externas com o Banco Mundial. Lembrou do caso do Syriza, na Grécia, e também do próprio partido socialista português. Para ele, essa titubeada colaborou com o crescimento de uma direita xenófoba e nacionalista no continente.

“Queremos acolher os refugiados e combater uma direita fascista nas ruas!”

Da Argentina, a palavra veio de Mariano Rosa, do MST, grupo que faz parte da mesma corrente internacionalista do Juntos!, o MES. Ele lembrou da luta de sua organização na realização da greve geral do dia 6 de abril, que parou Buenos Aires. Ele conectou esse desejo de parar tudo contra o governo Macri com a vontade dos brasileiros de pararem tudo no dia 28 de abril.

A juventude do Chile deu seu recado através de Joaquín Araneda, do BAM. Ele lembrou como os movimentos estudantis balançaram o Chile nos últimos anos. Não há dúvida que o exemplo que vem dos Andes segue mobilizando estudantes latino-americanos em todos os cantos do continente.

Enrique Fretel veio do Peru, pelo movimento Nuevo Peru. Ele destacou que o Juntos! é um modelo importante para a construção de um projeto socialista no Peru.

Do Peru para os Estados Unidos, num dos momentos mais emocionantes do Acampamento até agora. Michael McDowell, do Black Lives Matter, teve dificuldade de segurar as lágrimas ao ressaltar a importância de conectar as lutas dos negros no Brasil e nos Estados Unidos.

“Se os negros e negras não forem livres, ninguém será”.

Outro americano Neal Meyer, da Democratic Socialists of America, trouxe uma mensagem de esperança na esquerda dos Estados Unidos. Embora tenha lembrado que Donald Trump é um homem perigoso, o classificou como um sujeito tolo e fraco. Segundo Meyer, a fraqueza de Trump está na sua instável base social, construída em sua eleição, que tentou aliar desejos classistas das elites empresariais e financeiras com as demandas dos trabalhadores por melhores empregos. Não há como atender a burguesia e o proletariado ao mesmo tempo.

Da Inglaterra, Ben Gliniecki, da Marxist Student Federation, dividiu suas reflexões sobre o Brexit, a recente escolha dos britânicos de deixar a União Europeia. Para ele, o Brexit é a maior crise para os capitalistas europeus neste momento. Destacou que a votação do Brexit foi um recado para as elites londrinas e uma mensagem de raiva de tantos que foram deixados para trás pelo capitalismo. Tudo misturado com um sentimento real de racismo e xenofobia. Do outro lado, Ben vê no crescimento ao apoio a Jeremy Corbyn, líder da oposição inglesa, uma esperança na esquerda do partido trabalhista, embora Ben rejeite Corbyn como um socialista. Por fim, defendeu a existência de um programa socialista na Inglaterra.

A venezuelana Andrea Pacheco, da Marea Socialista, fez uma dura fala de oposição ao governo de Nicolás Maduro, que, para ela, está destruindo o legado chavista na Venezuela. Ela contou que sua organização está reunindo pessoas importantes do ex-regime chavista para se opor à política de Maduro. Como destaque da luta prática da corrente, Andrea destacou a luta contra grandes projetos mineiros por lá, que, segundo ela, colocam em risco a soberania do acesso à água e a proteção do meio-ambiente.

O último a falar nesta primeira parte da mesa foi um dos idealizadores do Juntos!, o argentino Pedro Fuentes, jovem há 74 anos. Ele se mostrou profundamente emocionado que, pela primeira vez em décadas de militância de esquerda, havia uma presença massiva de ativistas norte-americanos.

Depois das exposições, o público se dividiu em mesas temáticas, divididas por países, para discutir mais profundamente cada contexto.

Das questões da esquerda internacional para questões da esquerda nacional

Marcelo Freixo, deputado estadual do PSOL, foi a grande atração do segundo momento da atividade, focado nos desafios da esquerda do Brasil. Freixo mostrou que a esperança que ele trouxe na eleição para a Prefeitura do Rio no ano passado não alcançou apenas as ruas, morros e periferias da cidade, mas também o Brasil inteiro. Não à toa, Marcelo foi recebido com muito afeto pela juventude que está participando do acampamento, que relembrou seus jingles.

Freixo disse que estava feliz de perceber uma predominância feminina no evento. Ele trouxe sua certeza de que vivemos uma profunda crise nacional. O deputado também destacou alguns desafios da esquerda brasileira, como o de não dar voz somente aos iguais. Para Freixo, é necessário, mais que ouvir os iguais, ouvir os comuns. Afinal, o modelo da esquerda tradicional não é mais capaz de atender as demandas da população.

Freixo também falou sobre religião e religiosidade, com o gancho da semana santa, o deputado pontuou que todos os espaços, inclusive os quais temos como muito conservadores. Sobretudo as igrejas devem ser disputadas, mas não com métodos colonizadores. “Se Jesus estivesse aqui, estaria no Acampamento”, disse Freixo.

A luta das mulheres também não saiu da boca do deputado. Ele, com muita razão, reconheceu que qualquer batalha que o povo vença, certamente, terá as mulheres na linha de frente.

A direita raivosa até assusta, mas não temos medo de rosnado. Eles são grandes, mas não são líderes legítimos. Nós, a juventude, somos a verdadeira liderança.