O Rio abraça Caio, jornalista demitido a mando de Crivella

20 de março de 2017 22h54

Ato em solidariedade a Caio Barbosa reuniu jornalistas e outros defensores da democracia no centro do Rio.

Não poderia sair barato nem para o prefeito Marcelo Crivella, nem para o jornal O Dia a imoral demissão de Caio Barbosa. A comunidade de jornalistas da cidade do Rio e outras pessoas inconformadas com a situação, como o vereador David Miranda, se mobilizaram nesta segunda-feira para dar apoio ao jornalista demitido por escrever uma reportagem que desagradou Crivella. Uma caminhada saiu da Praça da Cruz Vermelha e foi até a sede do jornal, na rua dos Inválidos, na Lapa, levando em seu trajeto uma contumaz crítica ao prefeito e ao jornalismo vendido.

“Não é mole, não!
O Crivella é o censor da redação” 

Cartazes como “Fila para vacina pode, criticar o Prefeito não pode”, “Criticar o prefeito dá demissão” e “Censura Não” foram erguidos.

Caio foi demitido no fim de semana após publicar uma reportagem que criticava o atendimento dos postos de saúde da Prefeitura em relação à procura por vacinas da febre amarela. A demissão foi um pedido de Marcelo Crivella. Caio foi informado disso por pessoas dos dois lados desta história, amigos da Prefeitura e amigos do próprio jornal.

Ainda antes da demissão, a reportagem já havia sido reeditada na edição online. A primeira versão é esta aqui, da última quinta-feira, dia 16. Nesta primeira, sob o título Febre amarela: População critica filas e falta de informações em postos, a reportagem trazia algumas críticas duras ao prefeito, como da professora Luiza Souza Gomes:  “Não era essa a gestão que prometeu cuidar das pessoas? Bem, pelo que a gente está vendo até agora, parece mais humilhar as pessoas”. Para a segunda versão, o título mudou completamente: Procura por vacinas contra a febre amarela provoca filas nos postos de saúde. O texto, em vez das críticas, traziam o tom de uma nota da Prefeitura.

A atitude de Crivella não é inédita para os governantes brasileiros. Perseguir jornalistas é prática antiga da velha política, como lembrou o experiente jornalista Cid Benjamin, amigo de Caio.

“Nós estamos diante de alguma coisa que acontecia no tempo da ditadura. Quem publicava algo que desagradasse os poderosos de plantão, perdia o emprego. Isso abre um precedente gravíssimo. Nós não vamos deixar barato”.

 

Caio esteve no ato, mas, como ainda espera sua rescisão de contrato, preferiu não gravar entrevistas. Abraçou forte seus amigos, o que lhe obrigou a segurar o choro diversas vezes.

O Dia e Crivella, ambos através do Facebook, publicaram notas que negavam que a demissão tivesse relação com algum pedido do prefeito. Também na rede social, Caio retrucou Crivella com uma provocação: “Mentir é pecado”.

O Dia desde 2010, pertence ao grupo português Ejesa/ Ongoing, que também detém o jornal Meia Hora. Desde então, as marcas passam por um violento processo de precarização do trabalho, com atraso de pagamentos, demissões e mesmo falta de pagamento das rescisões. São muitos os processos na Justiça do Trabalho.

Estaremos atentos para o desenrolar deste caso, para que abusos deste tipo não se repitam. O jornalismo precisa de democracia. E a democracia precisa do jornalismo.