O que aconteceu na comunidade Metrô Mangueira, prefeito Crivella?

17 de março de 2017 21h05
Foi muito triste ver crianças de apenas 5 anos com balas de borracha na mão. Muito triste saber que o que elas tinham ali era o que restou de uma traumatizante operação da Prefeitura e do governo do Estado. Mais triste ainda foi se abaixar para ouvir uma criança de um metro de altura contar coisas deste tipo:
“Eles entraram, levaram dinheiro e o aspirador de pó”

A operação conjunta da Guarda Municipal, da Polícia Civil e da CEDAE tinha uma missão apenas: verificar e cortar desvios da água que abastecem as pequenas iniciativas de lava-jato (lavagem de carros) da região conhecida como Metrô Mangueira, comunidade pobre que fica bem em frente a UERJ, a universidade do Estado do Rio. A operação, no entanto, foi muito além disso, e a quinta-feira da zona norte da cidade viu um festival de abusos, violências e incorreções. Sob a responsabilidade do prefeito Marcelo Crivella em relação à Guarda e sob responsabilidade do governador Luiz Fernando Pezão em relação à Polícia Civil, o saldo final da operação foi: invasão de domicílio, violência contra pessoas já algemadas, ameaças, roubo e racismo.
Nós do Mandato Coletivo David Miranda recebemos diversas denúncias destes abusos e fomos ao local averiguar a situação. Por lá, encontramos moradores revoltados que relatavam – sem qualquer ensaio entre si – a mesma história. A Guarda Municipal chegou em peso, com pelo menos cinco carros e quatro micro-ônibus. Eram dezenas de agentes. Policiais civis e agentes da CEDAE estavam em menor número. A ação foi truculenta desde o início. Uma mulher que não quis se identificar contou, enfurecida, que os agentes apontavam as armas para a casa de uma moradora que cuidava de três crianças menores de 5 anos e ainda de sua filha recém nascida.

Uma senhora já avó e uma menina de 15 anos, ambas negras, contaram que foram chamadas de macacas por agentes da Guarda Municipal.

Uma outra moradora relata que ao questionar a invasão de sua casa, um dos policiais civis que se identificou como delegado, disse que “aqui não era local de moradia, não” e que, portanto, não precisaria de mandado para entrar. Os guardas ainda comeram sem pagar na pequena venda da esquina. Eles ordenaram que o comerciante fechasse seu comércio. Covardias financiadas com dinheiro público.

Durante o serviço do corte da distribuição de água, houve explosões de bombas de gás asfixiante, disparos de balas de borracha e de spray de pimenta. Famílias inteiras, repletas de crianças, tiveram que correr de casa, atravessar as avenidas movimentadas da região da Radial Oeste para conseguir respirar. Na operação, os servidores avançaram para o interior da comunidade. Moradores ainda dizem que policiais civis dispararam tiros de fuzil para o alto.

Um garoto foi arrastado por três agentes e espancado dentro do furgão para onde foi levado. Assim como um morador chamado Glauco que, mesmo depois de algemado e imobilizado, foi espancado com tapas, cassetetes e até mesmo com os capacetes da Guarda Municipal. Glauco contou para nós o que aconteceu.

“Eu estava fazendo um reparo num ar-condicionado e fui ao Lava Jato buscar água para limpar o aparelho. Aí eu vi que a Guarda começou a atirar bombas de gás lacrimogêneo e balas de borracha. Eu corri para dentro da comunidade. E eles correram atrás. Eu me defendi. Até que eles conseguiram me pegar. Me levaram para dentro do ônibus e me agrediram com cassetete, tapas e com o capacete. Pegaram um capacete e bateram em mim com um capacete! Eu já tava algemado. Apanhei algemado. Fui levado para a Cidade da Polícia. Lá fizeram boletim de ocorrência. Eles não tinham provas de que eu estava agredindo a Guarda Municipal. É só o testemunho deles contra a minha pessoa. Não tem nenhum guarda ferido. Meu sentimento não mudou. Eu já sei que essa sociedade é injusta. Eu já vi muita covardia na favela. Agora eu fui mais uma vítima. Bateram foto nossa e botaram na rede social. Eu vi um Guarda Municipal colocando minha foto no Facebook pessoal dele”.

Glauco disse que irá processar o município. Pelo menos, outras duas pessoas também ficaram feridas.

O que aconteceu no Metrô Mangueira expõe diversas problemáticas da relação do Estado com as comunidades pobres. Não podemos ter operações de guerra, que inclusive expõem crianças, para uma verificação de furto de água. Para falar a verdade, nem mesmo o furto de água é o objetivo de uma operação como essa, uma vez que o próprio funcionário da CEDAE disse a verdade para um morador: “a gente tem que fazer nosso trabalho. A gente corta e depois vocês refazem”.

Agora esperamos resposta do prefeito.