O coração do nordeste carioca é de Todes!

14 de março de 2017 16h56

Artistas trans nordestinas lutam por espaço e se apresentam no Centro Luiz Gonzaga de Tradições Nordestinas, a feira de São Cristóvão.

A semana foi emocionante na Feira de São Cristóvão. Artistas trans, nordestinos e nordestinas até a alma, contagiaram o espaço com poesia, música, cordel e muita luta por respeito e dignidade. A iniciativa do Coletivo Xica Manicongo pôs de pé o 1° Paredão TRANS – show e cordel Sertransneja. 

Foi lindo, emocionante. Uma resposta à estúpida morte de Dandara, travesti cearense, e tantas outras e outros que morreram apenas por ser quem são. Foi um grito de cultura, exigindo o mínimo de uma sociedade que não dá nem isso.

A primeira a se apresentar foi a balaiera Wescla Vasconcelos, do interior do Ceará. O público se iluminou com o sorriso da poeta, que trouxe um papo reto de sua história.

Travesti é ser vivente
da sobrevida do sertão
enfrentar ódio indolente
é mais que aperreiro, bala e facão

Foram chamar as trave da peste
Que é que há se eu vim do nordeste?
Que é que há se eu vim do nordeste?”

A segunda a se apresentar foi Bianca Fernandes. Com um lindo penacho verde, a artista potiguar deixou o público sem fôlego, angustiado com seu recado, ritmado, envolvente.

“Vocês me deixam atordoada e anestesiada. Afinal, na minha frente, estÃO apenas corpos caídos, identificados como: meu futuro. Não tenho como arrancar meu coração, amassá-lo e descartá-lo. Ele ecoa a alma. Escolhi ser de verdade. E isso me faz grande, nobre e real”.

Do Rio Grande do Norte para o interior do Piauí. Fantasiada, leve, linda e solta, Têrtuliana Lustosa trouxe a cultura do bumba meu boi através de um poema que ela escreveu: Sertransneja na Cidade Maravilhosa.“Na cidade maravilhosa, a carta da mainha chegou
O meu boi morreu
que será de mim?
Manda buscar outro, mainha
lá no Piauí

Eu respondi a carta e disse para minha mainha
Que eu era travesti
Ela chorou noite e dia
lá na roça do Piauí
Foi então que me acalentou
“filha, eu sempre estarei com você aqui”.

Já que somos nordestinas
Já que sou mulher cabeça de cuia
Te respeito trans e correntina
Do meu povo do mato tapuia
Mas toca tua vida com cordel e poesia
Seu talento verdadeiro…meu jura!”

Entre abraços emocionados e beijos de alegria – ouvindo um xote colado ao fundo – as ativistas do Coletivo Xica Manicongo contaram da importância do evento e dos objetivos do grupo. Têrtuliana disse que, além de criar uma rotina de apresentações, a ideia é estabelecer uma barraca na feira para gerar emprego e renda para tantas travestis, homens trans e mulheres transexuais que não conseguem postos no mercado formal.Confira o vídeo do evento: