Resistência e direitos humanos: Nada de nós sem nós.

23 de fevereiro de 2017 17h45
Por: Marcela Lisboa
O lançamento do relatório anual da Anistia Internacional “O Estado dos Direitos Humanos no Mundo 2016-2017” realizado nesta quarta-feira (22), no Cine Odeon, trouxe à tona um debate que não pode mais ser negado. Afinal, quando o assunto é violência, justiça e direitos humanos nas Américas, não basta mencioná-las, mulheres negras precisam ser ouvidas.
Além da diretora executiva da organização, Jurema Batista, participaram do debate a mestre em Filosofia Política pela Unifesp, Djamila Ribeiro; a socióloga e ouvidora geral da Defensoria Pública do Estado da Bahia, Vilma Reis; Marion Gray-Hopkins, ativista e mãe de Gary Hopkins, Jr (19), morto pela polícia nos EUA; Shackelia Jackson, ativista e irmã de Nakiea Jackson (27), morto pela polícia na Jamaica; sob a mediação da integrante do conselho consultivo da Anistia Internacional Brasil, doutora em Educação pela USP e diretora do Geledés Instituto da Mulher Negra, Sueli Carneiro.
Antes do início da atividade, uma caminhada organizada pela Anistia e por grupos organizados de mães de vítimas da violência policial seguiu da Candelária à Cinelândia. Algumas de olhares baixos e bocas silenciosas, outras com o peito inflamado e dispostas a gritar para o mundo, como Mônica Cunha, do Movimento Moleque que, dez anos após ter seu filho assassinado no sistema socioeducativo, diz apenas querer ter o direito de parir e criar seus filhos. Sobreviver e continuar viva. O discurso soa pesado aos olhos de quem lê ou ouve, mas o lamento de quem sente não pode mais ser ignorado ou engolido sem choro e sem voz.
”Este é o momento de reverberar. Embora seja recorrente para determinado grupo da sociedade, não é comum que quase mil pessoas, em sua maioria negras, lotem um cinema no Centro do Rio em plena quarta-feira a fim de debater direitos humanos. Estes são os sinais da urgência deste debate. No Brasil, na Jamaica ou nos Estados Unidos, a juventude negra quer viver.
As participantes internacionais Shackelia Jackson e Gary Hopkins iniciaram o debate compartilhando um pouco sobre suas vivências enquanto mulheres negras que se viram militantes quando a morte bateu em suas portas. Shackelia perdeu o irmão. Gary ficou sem o filho adolescente. Relatos que poderiam facilmente ser confundidos com o de mães moradoras do Complexo do Alemão ou de qualquer outra favela do país. Segundo a ex-secretária de políticas públicas de São Paulo, Djamila Ribeiro, “Falamos sobre crises institucionais enquanto vivemos em meio a uma crise civilizatória. Tanto o Brasil quanto a Jamaica e os EUA foram países que nasceram por meio do derramamento de sangue negro e indígena.” O que faz deste um debate central, não especial. Para ela, é necessário que a branquitude assuma sua responsabilidade neste quinhão e pare de racializar o negro enquanto se vê universal, e completa que não há debate mais urgente que o racial e o genocídio da juventude negra. “Esta devia ser nossa grande questão nacional”, conclui.
No centro do debate, está a falida e fantasiada Guerra às Drogas, cujas balas encontram em sua maioria corpos negros que, embora não tenham sido feitos para magnetizá-las, são os que mais morrem por elas. Aí fica o questionamento: Morreu por que é pobre? Ou por que é preto?

Segundo o relatório da Anistia morreu porque é pobre e preto.

Esta tragédia viva, como classificou Vilma Reis, talvez seja a maior consequência do racismo estruturante que assola as diásporas africanas. E, mencionando a crise do sistema carcerário no Brasil e o investimento na privatização do setor, ela acrescenta “Não aceitamos mais que os senhores coloniais, herdeiros das capitanias hereditárias se reúnam em jantares milionários para definir quem vai construir mais prisões.” Segundo Vilma, ações como a agenda pelo desencarceramento no Brasil, proposta pela Pastoral Carcerária, ou a Frente Estadual pelo Desencarceramento são meios para romper com a lógica da militarização de nossos territórios nas cidades e nos campos. “É preciso ocupar o sistema judiciário! Precisamos lutar pela permanência das audiências de custódia. Afinal, nós empurramos a esquerda para a esquerda”, conclui.
O público presente, envolto pelo ambiente que aspirava por justiça, interviu no mesmo tom das palestrantes. Entre os assuntos levantados, a necessidade de políticas públicas em favor das pessoas trans, a luta dos estudantes da UERJ, a necessidade da luta contra as fraudes nas cotas raciais e a urgente pauta do direito à moradia. Denise Ferreira, do Movimento de Mulheres de Rua, recebeu aplausos ao ressaltar que “entre um grupo de vulneráveis, alguns são mais vulneráveis que os outros”. Já o militante dos direitos humanos, Deley do Acari emocionou a todos ao mencionar Jota, mulher negra e companheira de movimento que, após ser baleada por um policial da CORE em meio a um confronto na favela, questionou: “Por que o senhor quis me matar”? Esta foi a pergunta que moveu os quase mil presentes no Cine Odeon na noite de quarta-feira. Já a resposta cabe a todos os que entendem a necessidade da atuação em favor dos direitos humanos. Não coincidentemente, o evento terminou com gritos de liberdade para Rafael Braga. Afinal de contas, não morremos apenas de bala.