PM do Rio toma à força casas de senhores e senhoras no Alemão para instalar paióis e bases avançadas

07 de fevereiro de 2017 15h53

Notícias da Guerra: Moradores das partes altas dos morros estão revoltados com a postura e os abusos da Polícia Militar do Rio de Janeiro. Eles pedem socorro!

Desde o dia 2 de fevereiro de 2017 e já nestes cinco dias seguintes, o Complexo de favelas do Alemão, na zona norte do Rio, vive alguns de seus momentos mais insuportáveis, garantem moradores com mais de 50 anos na região. São confrontos que assustam pela quantidade de tiros, pelo uso de armas longas de grosso calibre, granadas e, especialmente, pelos abusos da Polícia Militar do Rio de Janeiro. Pelo menos, dez pessoas já foram feridas e outras duas morreram só nesta semana. Cerca de três mil crianças ficaram sem aula, naqueles que deveriam ser os primeiros dias letivos de 2017.

“Não me lembro de um dia na história do Alemão com tanto tempo de tiroteio sem parar”, me disse uma senhora lembrando com uma cara assustada do dia 2 de fevereiro.

Neste fim de semana, em uma iniciativa do Coletivo Papo Reto, uma expedição de jornalistas e ativistas subiu o Morro da Alvorada, conflagrada região entre a Grota e Nova Brasília, para ver com seus olhos e lentes o que está ocorrendo. Obviamente, apenas uma micro parcela do que se passa lá, dia e noite. O grupo viu e pôde fotografar um inacreditável abuso: a PM está tomando casas de moradores — e até igrejas — para fazer de bases avançadas. Pior: segundo vizinhos, as casas roubadas estão sendo usadas ilegalmente até mesmo como paiol, para estocar armas.

— Vocês imaginam que eles já invadiram quantas casas?
— Meu amor, se você for por aqui, você vai ver vááários portões arrombados.

PM observa, desde a janela da casa roubada, jornalistas que subiram morro no Alemão. Para assustar o grupo, um tiro para o alto foi dado. Outro PM manda todos se foderem. Fotos: Coletivo Papo Reto.

PM observa, desde a janela da casa roubada, jornalistas que subiram morro no Alemão. Para assustar o grupo, um tiro para o alto foi dado. Outro PM manda todos se foderem. Fotos: Coletivo Papo Reto.

“Investimento” do estado

É mentira que o Estado não investe recursos na favela. Antes mesmo da comitiva subir o morro, seis carros pretos do Choque passaram em carreata pela Estrada do Itararé (a “pista” do Complexo). Todos os veículos estavam repletos de policiais. Eram, só naquela cena, pelo menos 30 servidores públicos, com salários atrasados, armados até os dentes. Só neste mesmo dia da reportagem, 4 de fevereiro, no Complexo, cruzamos com outros 20 policiais em operação — dez deles em casas invadidas ilegalmente. Some-se ainda os PMs que disparavam tiros desde dois caveirões (um deles tombou em uma ladeira, com óleo no asfalto) e os que sobrevoavam em um helicóptero.

Os veículos caros, os soldos dos militares em guerra, seus armamentos, munições e combustíveis são gastos em uma guerra sem início nem fim. Sem negociação ou perspectiva de solução. Dinheiro público utilizado para manter uma guerra que mata, fere, arromba, fecha escolas e postos de saúde. Que não deixa as pessoas dormirem. “Não tô conseguindo dormir há três dias. Você dá um cochilo e acorda assustado com tanto tiro. Isso não é vida”, disse um jovem de não mais que 25 anos de idade.

Não é fácil explicar o motivo de cada conflito do Rio de Janeiro especificamente, mas a maioria deles — como no caso do Alemão — está relacionada com o desarranjo de forças desequilibradas depois do projeto das UPPs. O programa está falido em grana, apoio institucional e popular. Apenas a grande imprensa, ainda abraçada ao PMDB local, mantém um apoio explícito ao projeto, na utilização canalha do termo “favelas pacificadas”.

“Você me explica isso com uma tal paz? Uma tal pacificação? Dizem que é para proteger o morador. Vem na verdade para tomar a casa do morador. Dar tapa na cara”, desabafa um jovem.

O projeto das UPPs serviu para dispersar facções, espalhar o tráfico por favelas da zona oeste e da Baixada. Nos maiores complexos de favelas do Rio, o efeito também tem sido devastador. As facções, agora reorganizadas e mais armadas, enfrentam policiais cada vez mais armados. Todos cada vez mais próximos uns dos outros. A ameaça da chegada do PCC na cidade do Rio deixa o contexto ainda mais instável.

Os dois lados em guerra, a polícia e o tráfico, com cada vez mais ódio, matam e morrem, e uma imensa população, que também morre, sofre. No caso do Alemão, pelo menos, 60 mil pessoas. O Rio de Janeiro tem quase 1,5 milhão de habitantes em favelas. Com guerras em curso no grandes complexos, como da Maré (aprox. 130 mil), do Alemão (60 mil), da Pedreira (20 mil), do São Carlos (16 mil), na Cidade de Deus (40 mil), na Carobinha/Campo Grande, na Cidade Alta/Cordovil, em favelas na Tijuca, no Rio Comprido, na Pavuna, em Acari, entre muitas outras, talvez não seja exagero calcular que, pelo menos, 800 mil pessoas vivem não em guerra, mas no meio de um guerra — que nem é sua.

São algumas das áreas com as mais altas taxas de natalidade da cidade e as mais altas taxas de mortalidade. São muitas crianças. Provavelmente não há quem sofra como elas. Vimos bebês assustados com tiros. Mães fazendo graça para distrair da guerra seus amores. Crianças perguntando aos seus pais o que estava acontecendo, provavelmente sem entender o porquê de tanto ódio.

“Com a polícia trabalhando desse jeito, cada vez mais jovens estão encontrando no caminho do tráfico uma maneira de se revoltar contra o Estado”, disse um morador local.

Segundo levantamento do jornal Extra, entre janeiro de 2015 e de 2017, pelo menos, 18 crianças morreram por balas perdidas em favelas do Rio. Oito estavam em áreas com UPPs.

Nem as favelas em guerra podem se resumir a uma guerra. Todos deixam isso claro, a todo o momento. Tem muito trabalho, cultura, amor, música, dança e interesses de todos os tipos. São vidas que querem viver em paz. Uma ativista, olhando fixo pro chão em busca de uma esperança que a confortasse, pensou em voz alta: “Legaliza essas drogas de uma vez. Usa quem quer. Se mata quem quer. Pelo amor de Deus, essa guerra tem que acabar. Nossa vida tá muito sofrida”.

Armas, balas, marcas de balas por todos os lados. Nada escapa: nem a barraca de caldo verde, nem a fachada da Igreja.

Armas, balas, marcas de balas por todos os lados. Nada escapa: nem a barraca de caldo verde, nem a fachada da Igreja.

O absurdo do Largo da Vivi

A primeira subida foi pela rua Nova. Quem passava, alertava: “tá dando tiro na rua Dois”. Um dos fotógrafos chamava a atenção ao usar um colete à prova de balas e capacete azul blindado. Uma das lideranças do Coletivo Papo Reto ia à frente, sendo cumprimentado por toda a favela. A ele, repetiam-se frases como: “cuidado, cê tá marcado pelos homens“. Ele nem respondia, dedicado à missão, sustentando uma força e uma luz descomunais.

Foi ele quem alertou o grupo quando, no fim da rua da Assembleia, ao chegar no Largo da Vivi, passamos por uma casa tomada por policiais. Sobre uma loja de móveis, a varanda dessa casa ficava sobre a rua, bem na cabeça dos pedestres. Quando os fotógrafos apontaram a câmera para a varanda, os PMs se abaixavam. Não queriam ser fotografados naquela posição, porque sabiam que estavam cometendo uma terrível ilegalidade. Há duas semanas, expulsaram a dona da casa dali, tomando o imóvel sem qualquer autorização judicial para usá-lo como posto avançado, em estratégica posição.

PMs primeiro se escondem, depois olham desconfiados para a expedição de jornalistas.

PMs primeiro se escondem, depois olham desconfiados para a expedição de jornalistas.

À frente da casa fora montada pelos próprios policiais, uma barricada de sacos de ração de cachorro, recheadas de areia. Desta casa, a polícia podia ter uma boa visão das comunidades ao redor. Era um ponto-chave no avanço sobre o inimigo. Os moradores passavam por nós e nos incentivavam a denunciar, demonstrando uma garra imparável de luta. Favelado, no Rio, é guerreiro, mesmo com medo. Quer falar!

Quando o grupo de jornalistas atravessou o largo, onde, em uma das pontas, fica a casa invadida… TUMMMMM. Um disparo de fuzil. Seco, barulhento. As pessoas dobraram os joelhos todas ao mesmo tempo, algumas com as mãos na cabeça, numa reação automática ao susto!

TUMMMMMM
— Caraaaaaca.
— É pro alto…
— Fizeram de propósito!
— Deram tiro porque as pessoas [jornalistas] tão aqui.
— Foi lá da janela. Eles tão lá na janela!
— Tem que todo mundo ficar olhando para lá para eles verem que a gente vê eles também. Não pode recuar também não!
— Qual janela eles tão?
— Caralhooo!
— Olha lá dentro, só a cabecinha dele só. Tão rindo…
— Sai daí, menino!!

Policial atira para assustar fotógrafos, pouco lixando-se para a vida e a paz no Largo da Vivi.

Policial atira para assustar fotógrafos, pouco lixando-se para a vida e a paz no Largo da Vivi.

O Largo da Vivi tem esse nome porque há muito tempo existia ali um mercado cuja dona se chamava Vivi. Se souber no que seu largo se tornou, dona Vivi deve estar profundamente triste. Em vez de uma quadra de futebol como queriam os moradores, sempre atentos a explorar os espaços da favela para o lazer, a guerra fez daquele espaço uma trincheira. Barricadas nos becos. Furos de grosso calibre nas casas. Nas igrejas, nas lojas. Portas arrombadas pela polícia. Histórias inacreditáveis. Mortes absurdas, como a ocorrida no último sábado de janeiro, dia 28.

Um senhor já idoso, conta o vizinho, morreu após cair de cabeça de uma laje. Ele estava construindo, já no terceiro pavimento desta casa, uma saída para o imóvel. A porta do primeiro andar, saída natural de todas as casas, já havia sido MURADA pela moradora. Era uma tentativa de impedir que a polícia invadisse a casa mais uma vez, para usá-la como paiol.

“Eles invadiram e tavam até dormindo aí. Eles invadiram e fizeram de paiol. Mas não tava sustentando (a laje). Aí eles saíram e a mulher mandou botar um muro. Agora eles já quebraram o muro de novo.” conta um morador da Alvorada.

Imagem da disputa entre polícia e moradora. A polícia já invadiu a casa para fazer de paiol. A moradora murou a sua própria porta. Pedreiro que foi construir uma saída pelo terceiro andar do imóvel caiu e morreu. A polícia já derrubou o novo muro construído. Reprodução Factual RJ no Youtube. Neste vídeo, é possível ver a quantidade de balas que permaneceram pelas ruas após um intenso confronto e ainda o recolhimento das balas por moradores. Chocante!

Imagem da disputa entre polícia e moradora. A polícia já invadiu a casa para fazer de paiol. A moradora murou a sua própria porta. Pedreiro que foi construir uma saída pelo terceiro andar do imóvel caiu e morreu. A polícia já derrubou o novo muro construído. Reprodução Factual RJ no Youtube. Neste vídeo, é possível ver a quantidade de balas que permaneceram pelas ruas após um intenso confronto e ainda o recolhimento das balas por moradores. Chocante!

Pouco adiante, talvez a 200 metros desta casa, uma nova residência invadida é flagrada pela reportagem. Cinco PMs são vistos pela janela. Corajosos, os vizinhos também vieram nos contar o que estava acontecendo por ali.

– Eles entraram na casa do senhor ali tem dois dias. Eles tão muito abusados. É tudo sem pedir. Tá tudo arrombado aí. Tirar o senhor de dentro. Eles que manda. Eles tomam a casa do morador para depois esculachar. Não pedem licença. Não falam direito com a gente. Tratam a gente como cachorro.
– Vocês imaginam que eles invadiram quantas casas por aqui?
— Meu amor, se você for por aqui, você vai ver vários portões arrombados.

Neste momento, o grupo de jornalistas recebe uma foto pelo WhatsApp. Todos reagem com espanto: um Caveirão foi tombado muito perto dali. O reforço da PM, certamente, vai chegar. Uma troca de tiros é ouvida mais de perto. Um PM, esgueirando-se em um beco, dá um grito para os jornalistas “Sai daí, porra!” A situação fica insustentável para o grupo. É hora de sair.

Só quem pode. A maioria permanece no meio de uma guerra, que não é sua.

Para saber mais sobre a Guerra no Alemão, não assista à Globo.

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