O primeiro dia do primeiro vereador LGBT da história do Rio

16 de fevereiro de 2017 10h58

A Câmara Municipal do Rio de Janeiro já tem mais de 450 anos, mas ainda está em tempo de ter suas “primeiras vezes”. Foi assim, como uma estreia que não podia mais ser adiada, que David Miranda subiu ao microfone do plenário para falar como o primeiro vereador (assumidamente) LGBT da história da cidade do Rio.

15 de fevereiro de 2017 foi um dia inesquecível para ele e para toda uma imensa população que luta, diariamente, para não ser esquecida. Ou para não ser agredida, difamada, humilhada, maltratada. A luta agora, graças a 7.012 votos, tem assento na Câmara de Vereadores.

O Rio Amanheceu Colorido

A Cinelândia fazia seu calor costumeiro em fevereiro — aqueles 40 graus na sombra. Mesmo assim, a militância do Juntos! e do PSOL fez barulho! Bandeiras, balões, fitas e cartaz. Todos queriam gritar ao mundo a novidade do dia: LGBT na Câmara, o Rio acordou colorido. A felicidade de David era fácil de ser percebida em seu sorriso, mesmo que nervoso. Azar o dele só que a Casa ainda exige certas formalidades. E ele teve que posar para a foto fritando embaixo de sua gravata e camisa social.

O gabinete 702 já estava a todo vapor desde a posse de David, no início de janeiro, mas nesta quarta, finalmente, abririam-se os trabalhos no plenário. A algumas horas de seu discurso, ansioso, no gabinete, David ainda aperfeiçoava seu recado. Seu marido, o jornalista americano Glenn Greenwald, foi um dos primeiros a aparecer. Depois, chegou a guerreira Indianara Siqueira, nossa vereadora suplente pelo PSOL, acompanhada de outras pessoas trans que constroem a CasaNem. Representatividade importa, sim, e as galerias da Câmara de Vereadores estavam repletas de LGBTs. Foi uma surpresa para todos os parlamentares ver aquele arco-íris ao fundo do plenário.

Quem não deve ter gostado da cena foi o bispo, o prefeito Marcelo Crivella, o primeiro a abrir os trabalhos legislativos de 2017. O público, no entanto, nem pôde ouvi-lo. Inacreditavelmente, não há caixas de som funcionando na galeria B. Ainda por cima, com inúmeras folhas e uma leitura escassa de cerca de uma hora, o prefeito recebeu pouca atenção. Ao final de sua fala, foi ele quem teve que ouvir! Em protesto, um grito de luta!

“A nossa luta é todo o dia
Vamos lutar contra a LGBTfobia”!

As galerias tinham dado o recado! Era preciso falar alto para ser ouvido! Foi o que David Miranda fez!

“Sou negro, LGBT, da favela do Jacarezinho: essas três coisas faz com que a gente nunca acredite que vai pisar neste lugar aqui”

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