O desabafo de um policial antes de morrer na guerra

24 de fevereiro de 2017 16h49

O soldado Michel via a morte bem de perto. Escalado para ser mais um braço armado do Estado nessa guerra sem motivo e sem fim, ele pediu socorro. Pediu paz. Não foi ouvido. E morreu em guerra.

Em áudio publicado pelo Jornal Extra, Michel de Lima Galvão, PM morto na última terça-feira na favela do Jacarezinho falava sobre sua insatisfação com a corporação. O áudio, que é de 2015, explicita a parecer de Michel acerca do sistema de segurança pública do Estado do Rio de Janeiro, reconhecendo sua total falência. A guerra saiu do controle e Michael sabia que ela não pertencia a ele, nem a nenhum de nós.

Repetimos: “essa guerra não é nossa”. Escutemos o soldado Michel!

”Ate que enfim alguém que raciocina, que pensa como eu, to baixado, to baixado mesmo, sabe por que? Essa guerra não é nossa. Governo falido, projeto falido. Estão colocando a gente dentro do morro para morrer. A favela não é nossa casa. Ser policial não é ser guerrilheiro, não é confrontar em desvantagem numérica, em desvantagem logística, em desvantagem operacional.

Senhores, vocês não tão percebendo, somos os únicos que temos coisas a perder nessa guerra, nossos familiares, nossas esposas, senhores, prestem atenção! Em menos de uma semana, dois amigos baleados, três mortes, muita gente me criticou, muita gente criticou os amigos que baixaram, mas a gente tem que ter amor pela nossa vida irmão, foi Deus quem nos concedeu que tivéssemos chegado até aqui, então não vamo permitir que aconteça coisas piores, não vamos dar uma de heroi, gente eu não tenho condições. O armamento que a gente pega pra sumir o morro… gente, como é que pode? Na quarta-feira queriam que eu subisse pro morro em confronto com uma pistola e dois carregadores de 15 tiros. Como é que pode? Não tinha munição, não tinha fuzil, não tinham mais carregadores de pistola, pedi mais 3 carregadores, não tinha carregador.

Como é que vai ficar a família desses mais 2 policias que morreram agora? Todo mundo ta vendo que a guerra foi declarada desde sexta-feira passada, todos os dias, todas as guarnições sofreram ataque e todas as guarnições passaram sufoco dentro da favela, não morreram porque Deus colocou a mão sobre as guarnições e não permitiu que fosse. Só que nem todo mundo conseguiu o mesmo mérito, a mesma sorte, senhores, vamos ter que nos unir contra isso e não a favor disso, porque to vendo um monte de gente falando que ta declarando guerra, para gente!! O trafico, a corrupção tudo já existe bem antes de nosso avos não é nosso gente.

Não foi a gente que conquistou essa guerra, nos fizemos concurso para a PM, policiamento
ostensivo, ordem publica, não para ficar dentro de uma favela doze horas sem saber se vai voltar pra casa. Vamos acordar, gente!

Enquanto isso, aqueles políticos corruptos estão roubando, nem nosso salario este mês eles pagaram, gente! é o fim dos tempos, cara. Vamos acordar! A gente tem que tomar uma atitude, foda-se o regulamento, quero ver se esse regulamento vai prender 44 mil, 45 mil policiai. Eu quero ver cara, nem o governo tem mais controle, nem o secretário de segurança pública tem mais controle sobre nada.

Eu fui pro enterro do companheiro la não apareceu nem um subsecretário, nem nenhum funcionário da secretaria de segurança pública pra falar alguma coisa que não ia adiantar de nada, tinha meia duzia que nem eram do jacaré pra falar pra mãe do soldado que ele era guerreiro, nem conheciam! mentira! farsa! O que tinha la era um bando de urubu daqueles repórteres pra poder levar a desgraça do nosso amigo pra mídia pros vagabundos fazerem comemoração “agora mais dois”, para com essa porra de se vingar, o que nos temos que fazer é se unir e arranjar um meio de não subir mais o morro, se o projeto ta falido a gente ta insistindo num projeto falido, entendeu?

Senhores, com muita tristeza que venho falar e indignação, mais dois amigos se foram, até quando a gente vai ficar nessa
quando morrerem 50, 100 policiais?”